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Leonardo Boff

Um padre com cheiro de ovelha, o padre Cícero Romão Batista

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PUBLICADO EM 21/04/17 - 04h10

Dos dias 20 a 24 de março último, realizou-se em Juazeiro do Norte, no Ceará, o 5º Simpósio Internacional Padre Cícero com o tema “Reconciliação... e agora?”. Fiquei admirado pelo alto nível das exposições e das discussões, com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros. Tratava-se da reconciliação da Igreja com o padre Cícero, que sofreu pesadas penas canônicas sem jamais queixar-se, num profundo respeito às autoridades eclesiásticas, e com os milhares de romeiros que o consideram um santo.

Indiscutivelmente, padre Cícero Romão Batista (1844-1934) é uma figura polêmica. Porém, as críticas vão diluindo-se para dar lugar àquilo que o papa Francisco, por meio do secretário de Estado cardeal Pietro Parolin, numa carta ao bispo local, dom Fernando Panico, diz: que, no contexto da nova evangelização e da opção pelas periferias existenciais, a “atitude do padre Cícero em acolher a todos, especialmente os pobres e sofredores, aconselhando-os e abençoando-os, constitui, sem dúvida, um sinal importante e atual”.

Padre Cícero corporifica o tipo de padre adequado à fé de nosso povo, especialmente nordestino. Existe o padre da instituição paróquia, classicamente centrada no padre, nos sacramentos e na transmissão da doutrina pela catequese. É um tipo de Igreja com parca incidência social em termos de justiça e defesa dos direitos humanos, especialmente dos pobres.

Entre nós surgiu outro tipo, com o padre Ibiapina (1806-1883), que foi magistrado e deputado federal, tendo abandonado tudo para, como sacerdote, colocar-se a serviço dos pobres nordestinos, como padre Cícero, frei Damião e padre José Comblin, entre outros. Eles inauguraram outro tipo de ação religiosa junto ao povo. Não negam os sacramentos, porém mais importante é acompanhar o povo, defender seus direitos, criar por toda parte escolas e centros de caridade. Esse é o tipo de padre adequado a nossa realidade e que o povo aprecia e necessita.

Esse era também o método de padre Cícero, que se desdobrava em três vertentes: primeiro, conviver diretamente com o povo; em seguida, visitar todas as casas dos sítios; e, por fim, orientar e aconselhar a população nas pregações e novenas. Ao anoitecer, ele reunia as pessoas diante de sua casa, distribuía bons conselhos e encaminhava o povo para o aprendizado de todo tipo de ofícios para se tornarem independentes. Nesse contexto, padre Cícero se antecipou ao nosso discurso ecológico com seus dez mandamentos ambientais, válidos até os dias de hoje (“não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau” etc.).

O padre Comblin, eminente teólogo, devoto de padre Cícero, escreveu com acerto: “O padre Cícero adotou amorosamente os pobres e advogou a causa dos nordestinos oprimidos, dedicando-lhes incansavelmente 62 anos de vida. E o povo pobre o reconheceu, o defendeu e o consagrou, continuando a expressar-lhe seu devotamento, porque viu e vê nele o Pai dos Pobres”.

Repetidas vezes enfatiza o papa Francisco que o padre “deve ter cheiro de ovelha”, quer dizer, alguém que está no meio de seu “rebanho” e caminha com ele. Cito um texto emblemático, proferido ao episcopado italiano no dia 16 de maio de 2016, que diz: “O padre não pode ser burocrático, mas alguém que é capaz de sair de si mesmo, caminhando com o coração e o ritmo dos pobres”.

Essas e outras qualidades foram vividas profundamente por padre Cícero, tido como o Grande Patriarca do Nordeste, o Padrinho Universal, o intercessor junto a Deus em todos os problemas da vida, o santo cuja intercessão nunca falha. Os romeiros e os devotos sabem disso. E nós secundamos essa convicção.

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