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Lohanna Lima

Coragem para entrar onde não nos querem

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PUBLICADO EM 14/09/17 - 03h00

O grande assunto da NFL nos últimos dias foi a estreia da jornalista Beth Mowins na narração da Liga de Futebol Americano, na partida entre Denver Broncos e Los Angeles Chargers. Por motivos óbvios, o assunto ganhou destaque nas redes sociais – tanto pelo pioneirismo como pela insatisfação de muitos fãs do esporte com a presença de Beth segurando um microfone para descrever os lances de um esporte que, historicamente, tem predomínio de homens, seja na prática, na cobertura ou nos estádios.

Há cinco anos trabalhando com a cobertura esportiva, passei por redações importantes de Belo Horizonte e acumulei uma bagagem relevante até aqui para afirmar que o preconceito diminuiu, mas está longe de acabar. E é impossível não me identificar com algumas coisas que Beth leu pelas redes sociais em seu momento de estreia, como “não sou machista, mas não me empolgo em ver uma mulher narrar futebol americano” ou “nada pessoal, mas homens assistem esporte para não ter de ouvir esposas ou namoradas”, e por aí vai.

Vez ou outra recebo convites de estudantes de jornalismo ou até mesmo de estudiosos do futebol para falar sobre o tema, que trato com muito cuidado para não cair na injustiça de generalizar. O preconceito contra a mulher diminuiu ao longo dos anos? Sim. Acabou? Não, ele não acabou.

Posso dizer que, durante minha trajetória no jornalismo esportivo, tive muitos padrinhos – gente que confiou em meu trabalho e que brigou por mim em algumas situações em que a minha capacidade foi questionada pelo simples fato de eu ser mulher.

No texto de estreia desta coluna, destaquei o crescimento das mulheres na cobertura esportiva, que possuem conteúdo e disposição absurdos, como Ana Thaís Matos, Mayra Siqueira e Camila Carelli, da rádio Globo de São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente; Monique Vilela, da Rádio Banda B, de Curitiba; Júlia Guimarães, do SporTV; e várias outras que já são figuras constantes nos treinos e nos estádios pelo Brasil. Mesmo não sendo novidade nossa presença junto aos demais jornalistas, ainda ocorre uma distinção natural por parte dos envolvidos no futebol. Recentemente, Guto Ferreira, técnico do Internacional, disse que não responderia à leitura de jogo da repórter Kelly Costa, da RBS, pois, “por ser mulher, de repente, não jogou”. Logo após a coletiva veio o pedido de desculpas do treinador, que adjetivou seu ponto de vista como “infeliz”. Este pensamento já exemplifica muito o que venho tentando dizer até aqui.

A verdade é que não só Beth Mowins, mas muitas mulheres, em várias áreas, ocupam lugares que muitos pensam que não nos pertence. É preciso ter coragem e muita confiança para entrar em ambientes predominantemente masculinos. Mais do que isso: é um exercício diário de muita paciência e respostas sucintas a cada frase de mau gosto justificada como brincadeira. Não é fácil, nunca foi, mas não seremos coadjuvantes em nenhuma esfera, seja ela pessoal ou profissional. A má notícia é que muita gente está demorando a entender isso. A boa é que a gente segue crescendo e não temos a intenção de parar. 

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