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Lucas Simões

Carnaval: Revolta da Felicidade ou carta a Marcio Lacerda

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PUBLICADO EM 30/01/16 - 03h00
Caro, prefeito. Sei que o senhor não mora na nossa cidade (spoiler...), mas deve saber que Belo Horizonte sempre foi o enterro do Carnaval. Nossa folia se resumia a ruas desertas, comércios fechados, taxistas mal-humorados, caracterizações de feriados mórbidos: não de festas transformadoras. 
 
Até que um belo dia o senhor acordou disposto a proibir protestos em praça pública sabe-se lá por que diabos. E teve como resposta a maravilhosa Praia da Estação (vrááá); que de tanta vontade de mostrar ao senhor que proibir era bobagem, de tanta criatividade intensa para redescobrir a cidade e nossas necessidades criou um Carnaval de verdade no asfalto: sem mar ou areia, só com disposição. Mas parece que o senhor ainda não entendeu o que o Carnaval tem a ver com a construção da cidade. Calma, nem tudo está perdido.

Bom, desde a época da minha avó, nos idos de 1955, Carnaval se resume a uma regra: fazer a sua própria regra. E foda-se – sem precisar foder com ninguém, claro. Naquele tempo, como a velha conta, ela tinha que pular o muro de casa escondida do pai, encorajar a adrenalina com uma rajada de lança perfume, e só então sair correndo por aí como a louca da motoca sem capacete à procura de beijos e máscaras brilhantes. E isso não é subversão simplista. Isso é a busca da felicidade de quem foi reprimida a vida toda, em casa, na rua, nos sonhos, mas criou dois filhos sem ajuda de ninguém. Conhece?
 
Então. As ruas da capital mineira estão cheias dessas pessoas. O mundo está. Gente como a gente. Gente que explode o sufoco cotidiano em confete. Gente que encontra nas ruas carnavalescas espaço para criar personagens melhores, dias mais saudáveis. Não esbarrar nos mesmos preconceitos e subjugações. Aí quando vejo o senhor tentando proibir churrasco e isopor na rua, barrando protestos populares, incentivando a instalação de áreas VIPs e se referindo às suas próprias ações como benefícios da “festa do povo”, imagino que o senhor deveria sair às ruas para entender esse povo – de Nova Lima até nossa amada capital dá pouco menos de meia hora de carro, é de boa para o senhor chegar junto na folia sem tanto esforço, vamos combinar.
 
Talvez só assim o senhor perceba que não queremos ser a Sapucaí televisionada pela TV Globo. Nem os enredos do Sambódromo do Anhembi. Nem o cordão de Salvador que separa a Cláudia Leitte da maioria absoluta negra atrás do trio elétrico. Nem a festa bancada por uma empresa de cerveja que vai nos cobrar dez mangos por long neck. E o que queremos, senhor prefeito? Queremos ser o que somos, oras. E o que quisermos ser.
 
Nosso patrocínio vem a pé pela cidade inteira, se for preciso. Não nos ônibus da Skol que vão circular de graça apenas pela zona Sul. Nosso conforto é o amor multicolorido. Não os camarotes open bar de gente predominantemente branca, bonita e nem tão sincera, que pode gastar o salário inteiro do ambulante só para tirar selfie da multidão e brindar lá do alto um Carnaval que acontece no chão – e apenas no chão. 
 
Nosso bloco é o batuque acessível até para quem não samba, não ginga, mas não abre mão de remexer o corpinho desajeitado como quiser, com um copo de catuçaí do Nandão em mãos – a combinação mágica entre catuaba, açaí e gelo, tudo bem misturado num balde de plástico: bate que é uma beleza na cuca, refresca e custa cinco pratas.
 
Nossa Juventude é Bronzeada porque fizemos do concreto, luz e diversão. Nosso melhor Tchanzinho vem da zona Norte e é para lá que nós vamos. Nossas Baianas são Ozadas demais para a tradicional família mineira e é assim que vai ser. Nosso espírito são as Garotas Solteiras catando “Liberté, Egalité, Beyoncé”, preste atenção. Nosso filho mais novo e prodígio é o Unidos do Queima Largada, que instaurou o Carnaval em pleno início de janeiro chuvoso por entender que qualquer um é capaz de se juntar por aí, quando e como quiser, com ou sem estrutura. Nossas mais de duas centenas de orquestras percussivas foram construídas, não por acaso, nas praças, em aulas gratuitas embaixo do céu aberto que o senhor tentou nos privar. Nosso grito é Então, Brilha! porque gente é para brilhar mesmo, não para ficar no sofá quando o senhor diz a elas para não se revoltar com a estupidez.

Agora me diz: quem há de ser contra a revolta da felicidade, senhor prefeito? Quem?
O Carnaval vem logo. Vem com glitter e purpurina e peitinho de fora e surdo soando alto ladeira acima e boa parte dos blocos ainda reunindo doações do povo, olha só, para conseguir um som decente, sabia? De um jeito ou de outro, o Carnaval nos ensinou que nosso vício irrevogável é aquele troço chamado liberdade. E ser livre é um sentimento que Belo Horizonte aprendeu a querer ter para nunca mais esquecer. Isso não tem volta. Nem por meio de decreto. 

Vem para rua ver a confusão de pluralidade dizendo o que ela quer, senhor prefeito. Vem entender quem faz o Carnaval dessa cidade – e o que ele nos diz de quem somos ou podemos ser logo mais. Por que vai ser do balacobaco, como diz a minha avó.

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