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Roberto Andrés

Ócio, lazer e cidades

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PUBLICADO EM 03/08/17 - 03h00

No livro “Por que Construí Brasília”, o ex-presidente Juscelino Kubitschek conta que, quando era prefeito de Belo Horizonte, convidou à capital o urbanista francês Alfred Agache, para que pensasse um plano urbanístico para “um recanto turístico que pretendia construir”.

O francês “se extasiou com a beleza da capital”, mas chamou a atenção para as precárias condições das periferias. Talvez por isso tenha sugerido fazer na Pampulha, em vez de um recanto turístico, uma cidade-satélite planejada, para servir como centro de abastecimento da capital.

JK não se fez de rogado: “Discordei do ilustre urbanista. O que tinha em mente era capitalizar, em benefício de Belo Horizonte, a beleza daquele recanto, com a formação de um lago artificial, rodeado de residências de luxo, com casas de diversões que se debruçassem sobre a água”. Assim surgiu a Pampulha.

O episódio diz muito sobre JK. A habilidade retórica para transformar a recusa de um parecer técnico em questão de opinião; a perseverança para levar adiante as próprias ideias grandiosas; a desfaçatez para citar os problemas populares e não resolvê-los; o elitismo implícito em sua visão de progresso.

O episódio diz muito também das ideias de lazer e diversão ali colocadas e ainda presentes. É como se beleza, elementos naturais e de diversão só pudessem existir em um lugar de exceção, e não na

Ainda hoje, vivemos sob o paradigma do lazer setorizado. A caricatura disso é a figura que leva a bicicleta no carro para pedalar em um lugar propício. Nada contra, mas o modelo não se sustenta: gasta-se uma quantidade enorme de energia para algo pontual e, no limite, se a moda pegasse, o resultado seria o engarrafamento dominical estressante em busca do relaxamento e da diversão.

Cabe refletir por que internalizamos que a rotina urbana deve ser pesada, poluída, estressante e que o lazer só teria lugar nos fins de semana. Quase nos esquecemos das possibilidades de a rotina ser salpicada por boas experiências, momentos de pausa alegre, diversão e encontros.

Isso tem a ver com o lazer não programado, distribuído no território. O prazer, afinal, pode estar na pedalada diária para a escola ou o trabalho; na sombra da árvore na pracinha da esquina; na caminhada fortuita pelo parque do bairro; nas muitas paradas pelos brinquedos infantis, distribuídos pela cidade.

O debate passa pelos modos de mobilidade. Primeiro, porque o atual modelo, voltado para os automóveis, torna todas essas aspirações impossíveis. O excesso de carros gera mortes por acidentes, poluição do ar, estresse. As ruas ficam perigosas e ermas. É preciso baixar a velocidade, aumentar a efetividade do deslocamento e devolver as ruas para as pessoas.

Mas também porque deslocamento não precisa ser tempo perdido, pode ser momento de experiência. Afinal, quem não se lembra do prazer de olhar da janela do ônibus, ver a vida passar, em um dia de céu azul e trânsito tranquilo? E o prazer de caminhar sob a sombra das árvores ou pedalar sem a pressão dos carros?

Na década de 90, na gestão de Patrus Ananias, a Prefeitura de Belo Horizonte ofertou ônibus grátis em alguns dias do ano (tarifa zero paga pela prefeitura com o saldo positivo do sistema de transportes à época). O resultado foi, aos domingos, um uso de ônibus duas vezes maior do que em um dia de semana. Imaginem a libertação desse dia. Muita gente pegou o busão só para passear.

Em vez de nos engarrafarmos estressados em busca dos oásis de lazer, seria melhor se a cidade fosse, toda ela, pensada como um território acolhedor e agradável, inclusive o transporte coletivo: com centenas de quilômetros de ciclovias; calçadas largas, acessíveis e arborizadas; ônibus elétricos de piso baixo, câmbio automático e janelas enormes; chafarizes públicos nas tantas nascentes; um parquinho por quarteirão; uma praça grande por bairro; parques abertos à noite.

Na contramão do elitismo segregador de JK, é preciso distribuir pelo território a qualidade do lazer, superar o rodoviarismo falido e cunhar uma cidade democrática em todos os seus aspectos. Pulverizar a Pampulha. E explodir Brasília, para não dizer que não falei das flores. 

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