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Roberto Andrés

Crianças em perigo

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Capela
PUBLICADO EM 12/10/17 - 04h30

De repente, não mais que de repente, a infância tornou-se a grande preocupação de alguns políticos. E o maior risco às crianças brasileiras viria, vejam vocês, da arte. A onda começou com ações orquestradas pelo MBL em Porto Alegre e São Paulo, acusando exposições de atentarem contra a moral.

Em Belo Horizonte, o deputado João Leite e o vereador Jair di Gregorio entraram na onda e passaram a atacar a exposição do artista Pedro Moraleida, no Palácio das Artes. No vídeo de denúncia do vereador, ele acusa a exposição de promover a “zoofenia” e culpa o Secretário Municipal de Cultura, Juca Ferreira – embora a instituição pertença ao Estado, e não ao município.

A arte sempre foi o campo em que sociedades expressam suas contradições, hipocrisias, belezas e violências. Não cabe ao artista “promover” esta ou aquela ideia, mas trazê-la a público, tirar do armário, expor suas vísceras. Se o conteúdo é violento ou pornográfico, vale olhar para a sociedade que o produz.

Não cabe a nenhum de nós arbitrar sobre o que é ou não arte. Se a censura proposta pelos novos moralistas fosse aplicada, alguns milhares de obras de arte, de Leonardo da Vinci a Tarsila do Amaral, de Boticelli a Andy Warhol, teriam que ser extintas. Pinturas rupestres, apagadas.

Os problemas da infância no Brasil não vêm dos museus. Cerca de 65% das internações hospitalares de crianças com menos de 10 anos são provocadas por males oriundos da deficiência ou da inexistência de esgoto e água limpa, segundo estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Indecente é nossos rios continuarem repletos de esgoto, enquanto as companhias de saneamento distribuem centenas de milhões de reais anualmente em dividendos a seus acionistas.

O trânsito é a principal causa de mortes de crianças de até 14 anos no país. Foram quase 1.800 mortes em 2011, segundo dados do Datasus. Os atropelamentos lideram esses números, chegando a ser cinco vezes mais frequentes do que outros acidentes.

Sabe-se que a redução das velocidades reduz em muito a taxa de mortes no trânsito. As chances de sobrevivência a um atropelamento se o carro estiver a 30 km/h são de 90%. A 60 km/h, essas chances despencam para menos de 15%. Obscena é a manutenção dessa política de imobilidade falida, que tira a vida, por dia, de cinco crianças brasileiras para que alguns motoristas possam acelerar.

As nossas capitais têm as maiores tarifas de ônibus do mundo. Os valores proibitivos impedem que tanta gente acesse serviços urbanos e são responsáveis pela maioria das evasões escolares. Indecente é crianças abandonarem as escolas para que alguns donos de empresas de ônibus mantenham seus lucros exorbitantes obtidos por meio de péssimos serviços.

O prefeito Alexandre Kalil prometeu, em sua campanha, “abrir a caixa-preta do busão” e reduzir o preço das passagens. Recentemente, lançou uma auditoria viciada, similar à que a gestão anterior, de Marcio Lacerda, realizou. Diversos movimentos sociais se posicionaram rechaçando o modelo de auditoria e solicitando que se recalculasse a tarifa de Belo Horizonte a partir da planilha de custos.

O vereador Jair di Gregorio faz parte da Comissão de Transporte da Câmara. Poderia salvar vidas de crianças se atuasse pela redução de velocidade do trânsito. Poderia manter crianças na escola se enfrentasse a falsa auditoria de Kalil e batalhasse pela redução da passagem.

O deputado João Leite poderia reduzir doenças infantis se atuasse para que a Copasa universalizasse o saneamento – coisa para a qual, aliás, todos pagamos. O MBL poderia atuar em qualquer uma dessas frentes.

Há outros problemas reais que atingem a infância no Brasil. Déficit de moradia, desigualdade, violência. Quem quiser, de fato, “proteger nossas crianças” tem muito trabalho pela frente.

Mas sempre que alguém tentar te convencer que o maior problema do país está em um museu, onde a entrada é facultativa e minoritária, vale desconfiar se o objetivo não é criar uma cortina de fumaça para tirar o foco dos problemas reais. Ou seria coincidência que a turma que esperneia contra a arte seja a base de apoio do governo Michel Temer, o mais impopular da nossa história e repleto de denúncias de corrupção?

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