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Roberto Andrés

E fez festa no céu

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asasasas
PUBLICADO EM 25/05/17 - 03h00

De suspensório, camisa de botões e mangas compridas, calça de veludo e tênis branco, se apresentava o diretor da instituição. Essa era sua indumentária, mas sua presença era outra coisa. Fineza de espírito, inteligência, humor cortante. Gargalhadas farfalhantes que se dissolviam na própria falta de ar.

O ano era 2007; a instituição, o Museu Mineiro, em Belo Horizonte; o diretor de suspensórios, o artista plástico Francisco Magalhães. E o que se vivia ali era uma pequena revolução.

O acervo do Museu é marcado pela extensa presença de imagens sacras, da rica história religiosa do Estado de Minas Gerais. Mas a cultura à qual pertencem essas imagens, o universo popular, raramente acessa os espaços da “alta cultura”, onde seus objetos foram parar. Paradoxos do elitismo cultural colonizador que ainda corre.

Naqueles idos dos anos 2.000, essa lógica foi invertida. Guardas de Congado eram convidadas a ocuparem o Museu com seus ritos, tirarem as estátuas das redomas de vidro, devolver-lhes sentido e graça. Artistas eram convidados a intervir sobre mesas de queijo (um patrimônio do Estado) e a repensarem a forma de exposição das obras.

A terra tremeu. Os tambores do congado ainda ecoam em que vivenciou tardes de domingo naqueles jardins da Avenida João Pinheiro. Quando os santos saíam das vitrines e eram carregados pela gente preta das guardas, os astros agradeciam, a instituição Museu passava a fazer sentido – afinal, o que é guardar, se não criar maneiras de permitir o acesso?

Com essas e outras práticas, Francisco Magalhães redesenhou a própria ideia de Museu, a partir de uma prática expandida e conectada às pessoas reais, à cultura viva. Foram anos de experimentação e transgressão em uma instituição tradicionalmente conservadora – o que só foi possível graças à aposta corajosa feita pela então secretária de cultura do Estado, Eleonora Santa Rosa. 

Uma década se passou desde que conheci Francisco, nos jardins do Museu. Na última segunda-feira, ele faleceu, com 57 anos. Com ele aprendemos a repensar as instituições da arte, mas não só. Chico era também um artista genial e delicado, um desenhista primoroso, um caminhante noturno da cidade, um colecionador de ebós, um cozinheiro pesquisador, um tecelão de jardins de papel, um pensador arguto, um fazedor de conservas. Suas histórias da infância em Mutu, no interior de Minas, abriam fendas no universo e no tempo como raramente acontece.

Chico partiu alguns dias após participar das celebrações da guarda de Nossa Senhora do Rosário, no Concórdia. A melhor percepção sobre sua partida vem de um outro filho do congado, o antropólogo Rafa Barros, que experimenta em um tom profundamente brasileiro a tradição que nos falta dos obituários na imprensa:

"Nasceu certa vez um homem.

Ele, sempre menino. De que matéria era feito, indagava, curiosa, toda a gente. Seria fruto de rosas e camélias? Fato era que seu perfume transitava entre camomilas, manjericões, alfazemas e alecrins. Afeito ao riso, diziam que toda vez que gargalhava, foguetes estouravam no firmamento. Era também bruxo. Gostava de fazer feitiço com panela de pedra e colher de pau. Falavam bem de suas mandingas e simpatias, que alinhavava entre dobras de papeis de seda, coloridos feito arco-íris, e em nós de crochê.

O ar lhe faltava, segundo a boca miúda, porque não havia ar suficiente no mundo que pudesse preencher seus pulmões, campo de alegria. Certo dia, seu coração, imenso em relação ao corpo, começou a bater fraco. O organismo não encontrava energia que pudesse bombear tanto desejo de viver. Foi por isso que uma guarda se formou. Era de gente preta, com roupas bordadas e rendas. Devotos de Nossa Senhora. Ele, do Rosário e de Benedito.

Eles, com caixas e gungas, patangomes e reco-recos, começaram a tocar e cantar juntos, movendo um moinho dentro do homem-menino, afim de ajudar a pulsar seu coração.

A festa foi tanta e tão grande, transbordou-se tanta a felicidade e a graça que ele virou um imenso balão de São João. E o balão iluminado voou, subiu e estourou, fazendo festa também no céu. E desde então passaram a chamar aquele dia, do dia de Chico, Folguedo de Chico!"

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