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Roberto Andrés

Hora de repensar

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Motoristas devem respeitar a distância de 1,5 metros ao ultrapassarem ciclistas. Em São Paulo, a CET aplica uma multa a cada 20 minutos para esse tipo de infração. Em Belo Horizonte, essa multa nunca foi aplicada.
PUBLICADO EM 14/04/16 - 03h30

Na semana passada, um ciclista morreu em Belo Horizonte. Rodrigo Barbosa Lima descia a avenida do Contorno quando foi surpreendido por um ônibus. Segundo relatos, ele se desequilibrou e caiu. O condutor não conseguiu frear, Rodrigo foi atropelado e arrastado por alguns metros. Seria preciso parar tudo, dizer: basta, alguém morreu. Vamos continuar neste sistema estúpido e violento de imobilidade? Vamos suportar os comentários nos jornais reclamando que o trânsito ficou lento naquela tarde, culpando a vítima? Ler essas palavras odiosas e tocar a vida?

Infelizmente, Rodrigo é só mais um. No Brasil, morrem mais de 40 mil pessoas por ano em acidentes de trânsito. A maior parte não é de ciclistas (minoria nas ruas), mas pedestres: entre 1996 e 2011, mais de 240 mil pedestres tiveram suas vidas encerradas por colisões com veículos. Em seguida vêm os motociclistas. Proporcionalmente, os mais vulneráveis são aqueles que estão no lado frágil da economia, os que se deslocam a pé ou sobre duas rodas. Em um país violento como o Brasil, o trânsito mata mais do que armas de fogo. O que vamos fazer? Obrigar as pessoas a usar capacetes enquanto caminham ou enfrentar a questão com políticas públicas?

O trânsito homicida não é exclusividade nossa, mas já foi revertido em muitos lugares. Na década de 50, cidades de países como Holanda e Alemanha assistiam ao boom dos automóveis e à escalada dos acidentes. Nada diferente do que vemos por aqui, só que hoje esses países têm as menores taxas de acidentes de trânsito do mundo.

O artigo “Bicicleta irresistível”, publicado na revista “Piseagrama”, conta como essa história aconteceu. Após muita mobilização social, as políticas urbanas passaram a priorizar ciclistas e pedestres, com construção de ciclovias e bicicletários, redução drástica da velocidade do tráfego e endurecimento das leis de trânsito para motoristas.

São políticas simples, baratas e eficientes. A redução efetiva de velocidade é a principal. A 30 km/h, as chances de morte em um acidente são ínfimas. Já a 60 km/h, as chances de sobrevivência é que são poucas. Ora, é da vida que estamos falando. Da vida de adultos, idosos e crianças. O trânsito é a principal causa de mortes de crianças e adolescentes com idades entre 1 e 14 anos no país. Foram 1.793 em 2011.

Em palestras, o presidente da BHTrans costuma mencionar a redução de velocidade como uma política “que está sendo estudada”, mas nada faz. O projeto de Zona 30 proposto pelo GT Pedala BH carece de recursos, que sobram para os viadutos. Como é possível estimar quantas vidas seriam salvas com a redução de velocidade, os gestores públicos deveriam responder por cada morte causada pela sua inoperância. Em BH, são duas por dia.

Mortes que não fizeram ninguém chegar mais cedo: a velocidade média do trânsito na cidade não passa de 25 km/h. Pisar no acelerador pode evocar imaginários de poder, mas não reduz o tempo das viagens e põe a vida dos outros em risco. No transporte coletivo, motoristas são pressionados pelas empresas a cumprir horários exíguos. Trabalham em jornada dupla e dirigem veículos precários – o motor dianteiro leva grande parte deles à surdez. Se o veículo fosse bom, estivesse em baixa velocidade, e o motorista, descansado, a vida de Rodrigo poderia ter sido salva.

Como ciclista, todos os dias levo um “fininho” de um veículo em alta velocidade. Não consigo deixar de pensar que, se eu me desequilibrar, como Rodrigo, já era. O “fininho” é uma infração perigosa, proibida pelo Código de Trânsito. Motoristas devem respeitar a distância de 1,5 m ao ultrapassarem ciclistas. Em São Paulo, a CET aplica uma multa a cada 20 minutos para esse tipo de infração. Em Belo Horizonte, essa multa nunca foi aplicada.

Também todos os dias, encontro o motorista afoito parado no sinal logo adiante – de nada adiantou a correria. Chego pedalando e paro ao lado da janela. Olho para seu rosto e penso: você sabe que quase me matou? Ele não ouve meu pensamento, não olha pra mim – nem me viu. Não pensa que dirige uma arma. Olha fixo para a frente com os pés em posição de ataque, concentrado na meta de arrancar o mais rápido possível para impedir que aquele carro que pretende virar à esquerda entre na sua frente. 

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