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Sandra Starling

A responsabilidade que hoje pesa sobre mim

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PUBLICADO EM 15/10/14 - 03h00

Leio que o Prêmio Nobel de Literatura deste ano, Patrick Mondiano, tem uma convicção: “Não podemos escapar de nossa época. Ali está sua angústia. Nós respiramos o que está no ar. Somos prisioneiros de nosso tempo... Mesmo que vivamos em torres de marfim” (O TEMPO, Magazine, 10.10.2014).

Ousaria acrescentar que, além de prisioneiros de nosso tempo, somos também responsáveis por nossas heranças pessoais.

Daí meu artigo – quase uma súplica – de hoje.

Tenho lido e relido que o próximo ano no Brasil será muito difícil para a maciça maioria de nosso povo, seja quem for o próximo governante. Tarifas represadas, rearranjos econômicos, dependência que temos em relação a parceiros no mundo, desemprego e inflação espreitam nossa gente. Dias muito difíceis virão, exigindo medidas duras e que recairão – como sempre – sobre os mais necessitados. Mesmo setores empresariais sofrerão com medidas que terão de ser tomadas.

Sou filha de juiz de direito. Evidentemente, do tempo em que esses eram pagos pela arrecadação (as coletorias) municipal. Conforme a comarca, eram tão poucos os recursos que não davam para cobrir as despesas. Numa dessas cidades, a situação foi muito difícil para nós. Passamos muitas vezes a humilhação de ter negada a compra do pão porque meu pai, que não recebia em dia, não pagara ainda a “caderneta”. Os mais velhos sabem de que falo quando uso esse termo: era comum o comerciante ir anotando o que as pessoas compravam fiado e que só pagavam no fim do mês.

Andávamos de papelão para tapar os buracos dos sapatos, e as roupas que usávamos eram cuidadosamente reformadas de uns para os outros filhos. Mamãe era muito boa na cozinha e conseguia fazer milagre com os mantimentos levados para casa. Assim, embora nunca tivéssemos passado fome, também não gozávamos de luxo algum. A não ser quando chegava da capital uma caixa de sapatos, forrada com papel celofane e lotada de doces que tia Nelsina nos mandava. Quanta alegria!

Alugávamos casa do dr. Lomelino Ramos Couto, ali na rua Macau de Baixo, onde hoje mora minha amiga Corinha... Também ficávamos muitas vezes devendo o aluguel e o conserto dos dentes da meninada, feito pelo dr. Vandinho.

Leio agora que juízes no Brasil inteiro querem auxílio-moradia de R$ 4.700 onde a comarca não possuir imóvel a isso destinado. E também que – não sei se em toda parte – muitos querem ainda auferir R$ 7.500 a título de reembolso de gastos escolares.

Não concordo que isso venha a acontecer, sobretudo no momento difícil que vamos atravessar.
Apelo, por isso, ao sentimento de justiça que deve presidir todos os gestos dos magistrados.
Afinal, na antiga Lei de Introdução ao Código Civil, hoje Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, se lê: “Art. 5º – Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”.

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Os juízes no Brasil inteiro querem auxílio-moradia de R$ 4.700

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