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Silvana Mascagna

Rolezinho

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PUBLICADO EM 15/01/14 - 03h00

Tem um lado meu que vibra com essa história de rolezinho, só de imaginar o pânico da “elite paulistana” em ver seus templos maculados com gente da periferia, que quer “zoar, dar uns beijos” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos”, como eles pregam nas redes sociais.

Queria ver aqueles jovens, com suas simples presenças, desesperar peruas cheias de joias, com grifes dos pés ao pescoço, que, somadas, dariam para comprar um carro (ou apartamento?).

Adoraria ver aqueles corredores vazios e tranquilos dos shoppings de luxo de São Paulo repletos de adolescentes, entoando letras de funk ostentação, e ela, a perua, seus filhos mauricinhos e filhas patricinhas, esbravejando: “Não se pode mais frequentar esse lugar, com o risco de se deparar com o filho do seu motorista” (parafraseando Danuza Leão, quando se deu conta que a classe C brasileira estava indo para Nova York e Paris).

Este meu lado sorri, sarcasticamente, quando nota os políticos sem saber o que fazer com isso, o rolezinho. Este lado meu quer ver o circo pegar fogo, como se, incendiado, ele pudesse dizer algo sobre nós.

Mas aí vem o outro lado. E este me diz que, se o circo pegar fogo, só quem vai se queimar é o negro e o pobre da periferia (incluindo negro e pobre de farda). Ele me lembra ainda que se, por milagre, esses jovens vencerem essa batalha, o que eles estariam ganhando mesmo?

O direito constitucional de ir e vir, maravilhoso, sensacional, sem dúvida – e isso eles têm que ganhar, se este país for minimamente sério.

Mas e aí? Eles não mereciam mais? Onde estão as políticas públicas para eles? O que tem feito o Ministério da Cultura ou o Ministério do Esporte que não pensam em projetos para os jovens da periferia? Ou vocês acham que eles estariam ali se tivessem coisa melhor para fazer?

Inserir a Classe C na sociedade de consumo parece não ser suficiente, não é mesmo? E essa turma que hoje está no poder parecia saber bem disso, no discurso. Na prática, não. Ou não estariam neste momento tentando achar uma solução para uma questão bastante complexa, afinal, os jovens não vão aos shoppings para roubar, e isso ficou claro. Embora estejam sendo chamados de bandidos por consumidores que só estão acostumados a ver negros de uniforme (ou de babá ou de motorista ou de cozinheira...), não há registro de roubos ou assaltos. Como lidar?

E enquanto não se acha uma solução para o problema, vai de apartheid social mesmo e pau na molecada!

E o que era um fenômeno regional, restrito à cidade de São Paulo, ganha o país. O que era um ato dos jovens pobres da periferia de São Paulo ganha a adesão de todos aqueles grupos que, de alguma forma, se organizaram desde as manifestações de junho de 2013.

O rolezinho é novo protesto e involuntariamente inaugurou um ano que promete ser cheio de marchas pelas ruas. Será que esses jovens se dão contam disso?

De qualquer forma, está aberta a temporada das manifestações. O que ninguém esperava é que ela começasse por onde começou. 

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