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Thiago Pereira

Exercício de fé

Ela sempre deixou claro pra gente, mostrando o escudo celeste estrelado: é esse o time que vocês torcem. Não me lembro quando, não perguntei o porquê

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coluna thiago pereira
PUBLICADO EM 13/11/13 - 10h49

Acho que minha mãe sempre quis que herdássemos, eu e meu irmão, o interesse pela religião. Não que ela seja católica praticante – não me lembro da última missa que frequentou –, mas pela casa espalham-se, discretamente, símbolos da sua devoção por alguns lugares, um quadro aqui, um terço acolá, o ritual das árvores natalinas.

Nada disso foi suficiente para minha conversão. Dispensando uma fase inicial, pautada por anos de estudo em escola católica, o exercício da fé em mim parecia destinado a mirar outros símbolos.

Mas, plena de insuspeita sabedoria materna, ela sempre deixou claro pra gente, mostrando o escudo celeste estrelado: é esse o time que vocês torcem. Não me lembro quando, não perguntei o porquê. Simplesmente fui batizado assim. E, contrariando todos devires pós-modernos, toda a suspeita de que tudo que é sólido se desmancha pelo ar, assim me mantenho, com a convicção de que mudar de time é tão estranho quanto mudar sua identidade. Tem hora que temos mesmo que fechar os livros e ir viver, respeitar o inexplicável.

Quando a torcida grita o tradicional (e sempre emocionante) “Ê meu pai, eu sou Cruzeiro, meu pai”, sim, a imagem paterna, um flamenguista devoto de Zico que se converteu pelos filhos, me vêm à mente. Mas, independente das palavras que saem da boca, quem eu louvo mesmo ali é minha mãe. São as mensagens ou ligações pós-jogo dela que espero, como que abençoando a jornada.

É com o Cruzeiro, portanto, que exerço minha fé. Enquanto subíamos, eu e minha filha, a pé, toda a Abraão Caram, molhando de expectativas a mesma camisa que tenho desde os 11 anos– não coincidentemente, a mesma idade que Maria Clara tem hoje –, os foguetes explodindo docemente, o azul solene do céu misturado com as cores que víamos do chão, o sol ardendo, me vêm à cabeça meus pequenos milagres coletados ali, quarteirões acima.

Via, a cada metro andado, o gol de Renato Gaúcho, que me estreou em 1992, a patada sofrida desferida por Elivélton, em 1997, a dica que Müller deu para Geovanni enganar Rogério Ceni, em 2000, todo o ano de 2003, as goleadas gêmeas em 2008 e 2009. E claro, via os Santos tantos, Boiadeiros, Nonatos, Robertos Gaúchos, Soríns, Ricardinhos, Didas, Marcelos Ramos, Ronaldos, Freds, Alexes, Fabrícios...

Assim como vi também o menino que pedi licença ao pai para colocar no colo, choroso, naquela noite infeliz de 2009. Desconsolado, ouviu de mim o que aprendi em tantas peregrinações, libertadores, brasileiros e copas dos brasis: “A vida é assim mesmo. Chora agora, para rir depois”. “Mas amanhã meus colegas vão acabar comigo”, respondeu. A coisa ficou séria, então simplifiquei: “Qualquer zoação momentânea é melhor que passar décadas sem comemorar nada”. Como percebemos este ano, milagres acontecem para todos. Mas perder uma grande piada nem sempre é melhor que perder os grandes amigos, certo?

Tenho certeza que a bola rolando ainda é das melhores metáforas do existir. E, como acho impossível não acreditar em algo maior– Deus, Buda, Jah, o que for– é com o Cruzeiro que deixo latente os aspectos mais profundos de uma necessária espiritualidade. É através dele, ou melhor, da minha junção com ele, que penso nos grandes temas: amor, morte, paixão, decepções – a vida no que ela tem de bom e ruim. Aquele quadradão retangular, coberto de grama e linhas bem traçadas de cal, sempre foi também, o campo dos milagres.

Como é aquela história? Escrever em linhas tortas para tudo dar certo? Foi o que fizemos desde aquele glorioso dia em Sete Lagoas quando o incaível quase se traiu. Mas, com aquelas estrelas salpicando o Mineirão em plena luz do dia, se misturando aos sorrisos cúmplices trocados com minha filha, ao improvável e genial voleio de Borges (o baiano que ali representou todos os outros santos), apreendo: a fé não costuma falhar, o negócio é apontar pra ela e remar – ou pelo menos andar com graciosos passos como os de Marcelo Oliveira, o convertido, comemorando aquele gol contra o Botafogo.

O resto é ciências exatas, como a matemática que insiste em guardar esse título para hoje, ou para o próximo jogo. E Maria, batizada no último domingo, e que herdou do pai a dificuldade com os números, já sabe que matemática não é tudo nessa vida.

A titular desse espaço às quartas-feiras, Silvana Mascagna, está de férias 

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