Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Vittorio Medioli

A linda deusa das virtudes

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
PUBLICADO EM 10/12/17 - 04h45

Entrando na loja enorme de um antiquário, ao lado do mais antigo templo de Cochim, maior cidade do Estado de Kerala, no sul da Índia, pedi ao recepcionista para me mostrar o que de melhor e mais valioso ele tinha.

Era março de 2004, um dia fumegante de calor de 38°C, num mormaço que mesclava a umidade do golfo arábico com os vapores dos impressionantes paludes da Índia. Nós, eu e família, tínhamos chegado no final do dia anterior, vindos de barco de madeira construído segundo a tradição mais antiga, navegando por quase 100 km de canais e lagoas. Durante a viagem experimentamos tira-gostos vegetarianos invariavelmente apimentados no limite do suportável. Os tapetes da cabine coberta por uma esteira de palha fina e a tripulação com três marinheiros em trajes típicos eram imagem e sensações que não se esqueceriam facilmente. Chás, incensos, sorrisos e gentilezas, um dia que durou em cada instante para deixar saudade.

Tudo parecia um belo sonho, um filme ao vivo. Tamanha a satisfação daquela “aventura” em dia de “serendipity”, entendi que seria justo levar comigo algo que imortalizasse a felicidade que senti naquela experiência.

Com esse desejo, visitei a cidade de destino, sabendo que tudo lá, mesmo caro, não resistia a uma pechincha por nosso guia, que nos levou à melhor loja de artigos religiosos. Reforcei ao antiquário, que apareceu convocado às pressas pelo recepcionista, que queria algo especial, antigo, autêntico, único e encantador.

Começou a tirar de armário de portas maciças, destrancado com uma chave enorme em ferro forjado, lindas peças de prata, decoradas com ouro. Teria tirado centenas, quando indiquei uma imagem de uma deusa de rara finura, em posição de lótus com as pernas cruzadas, com o busto sem véus, seios perfeitos, e coroada com adornos florais e joias. Um sacro e profano exótico.

A palma da mão direita da deusa virada para abaixo, levemente apoiada no joelho, e a palma esquerda na altura do ombro levantada para o céu. Naquele momento não pensei no significado religioso, apenas na beleza, no encantador sorriso, mais acentuado que o da Gioconda de Leonardo, ao longo de torneados dedos, apontando para terra e para o infinito.

A expressão celestial, de encantamento, de quem refletia para fora um sentimento de excepcional enlevo. Não lembro o preço da peça, mas, como imaginava, saiu por 20% de quanto pediu inicialmente, depois de alguns copinhos do chá aromatizado e incenso para atrair bons protetores.

Essa imagem, que ainda está na minha estante, me levou a estudar o sentido dela e o porquê de essa prata fina e pura ter tomado esse formato de deusa.

As mãos, assim aprendi, ensinam que o que está embaixo também será inexoravelmente levado para cima. Nossa vida de baixo, a terrena, modifica e tempera o espírito eterno nas alturas. Mostra que aproveitar bem a vida, a serviço do conjunto, do reino de Deus, abre caminho para com ele se reunir no Nirvana.

A deusa esplendorosamente perfeita comprova em suas feições a beleza interna, de sua alma em feição angelical.

A beleza consequência da bondade praticada, do desapego, da bondade, da prática de virtudes. E, ainda, o despertar da consciência búdica, numa esfera sem distância e sem tempo, de onde vêm permanente intuição e compreensão dos eventos, de suas origens, de seu concatenamento perfeito, suspenso entre um único infinito.

“O Êxtase de Santa Teresa”, esculpido no século XVII no mármore de Carrara por Gian Lorenzo Bernini, numa igreja fora do Vaticano que os papas concordaram em retirar de São Pedro, pela expressão que se confunde com a de um intenso prazer sexual, entretanto expressão nirvânica de quem atinge um perfeito equilíbrio, na posição de ioga da deusa de prata.

Extrema paciência e desapego levam para o infinito através do amor que se expressa na beleza.

E essa imagem, valiosa por seus valores, fica aí para me acalmar.

E, como disse o exorcista, o diabo é a ruína da beleza.

O que achou deste artigo?
Fechar

A linda deusa das virtudes
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório

comentários (3)

Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook