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Vittorio Medioli

As cinzas do triunfo

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PUBLICADO EM 24/09/17 - 04h30

O crescimento de um organismo é acelerado por células estaminais e hormônios que sustentam o multiplicar-se das células. A infância, a adolescência, os primeiros momentos de vida são os períodos em que os seres vivos têm seu maior desenvolvimento.

As regras do universo são simples, lógicas, perfeitas. Alcança-se um crescimento partindo-se do óvulo fecundado e transformado em embrião, dotado de extraordinárias forças multiplicadoras, que desaparecem por sua vez e abandonam o organismo na maturidade. A queda de produção de hormônios apaga o ímpeto e até a sustentação, desacelera a reposição de células. Surge a deterioração e decandência até o falecimento inexorável do conjunto. E aí ocorre a separação dos elementos, deixando a poeira ser levada pelo vento.

Na quarta-feira que se segue à terça de Carnaval, o fiel recebe do sacerdote um toque de cinzas na cabeça e traça-se uma cruz em sua testa. De onde vêm as cinzas? Da queima dos galhos de oliveiras, aqueles distribuídos no ano anterior nas igrejas no Domingo de Ramos, que antecede o Domingo de Páscoa, e lembram os mesmos galhos e os mesmos ramos usados na chegada triunfal a Jerusalém. A aclamação “Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum” (o INRI), que, afixado na cruz apenas seis dias depois, mostra quanto é breve e volúvel a trajetória humana dos cumes do sucesso à queda no pó.

As cinzas na cabeça do fiel são dadas advertindo: “Memento homo, quia pulvis es et in pulvis reverteris”, “lembre, homem, que tu és pó e ao pó retornará”.

Assim mesmo, depois de reduzir o sucesso a cinza (matando o orgulho e a vaidade), é que o verdadeiro se apresentará. O sucesso não dura para sempre, é ilusório.

O rito eclesiástico pretende despertar a transitoriedade, os ciclos, as forças, os ímpetos exuberantes e seu desaparecimento que em cinza serão levados por um sopro.

Neste mundo da vitória até a derrota o passo é curto, de um Domingo de Ramos a uma sexta na cruz.

A força modeladora do corpo físico é movida pela capacidade de sentir (corpo etérico), de querer (corpo astral) e de pensar (entidade mental). Pois olha aí! Entramos na metafísica, e nada seria possível a esse “hardware” corpóreo não fosse um “software” a dar-lhe sentido, escopo e função.

Tem quem nessa aventura humana seja tocado pela melancolia, tão presente no fado (tradição portuguesa) e na consciência inquietada pelo sentimento de caducidade.

“Carpe diem”, “aproveita teu dia” (no bom sentido), pois, após o Carnaval, como diz a palavra, a “carne será levada”, ou relativizada em sua importância enquanto durar.

Os ciclos de aprendizado, de triunfo, de aparentemente injusta crucificação da carne passam pelo sofrimento, pela experimentação, pelas quedas e pelos reerguimentos da Via Crucis até o cume do Gólgota, onde o corpo ficará pregado. Do eclipse se passa acima das nuvens para um horizonte desimpedido, incondicionado, esplêndido. Como Shakespeare disse, “apaguem as tochas, o esplendor me ilumina”.

Esse tentador dito “inexplicavelmente” Lúcifer, Portador de Luz, mostra que a ele foi dada uma incumbência de apressar o homem para o limiar, onde as tochas do inferno não têm qualquer sentido, e ele aí ficará como o mal que obriga a conquistar o mérito.

Memento homo! Essa celerada ilusão faz crer que o pecado possa triunfar, que o engano seja vencedor, que a injustiça dure eternamente. Em Brasília, cenário das tentações, do ouro que não nutre, dos brilhos que confundem, a folia está acabando.

Repete-se “et in pulverem reverteris”, apenas pó sobrará desse ciclo de maldades.

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