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Vittorio Medioli

Levando ao abismo

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PUBLICADO EM 19/10/14 - 04h30

Nesta altura da campanha, os debates entre presidenciáveis atraem mais público que clássicos de futebol e colam na frente das telas uma plateia quase patologicamente fascinada. O ar é o mesmo que se respira numa luta até a última gota de sangue, aquelas em que é preciso ter estômago para assistir.

As estocadas de um para outro levam a pensar: “A que ponto chegamos...”

Com o destino de 200 milhões de brasileiros em jogo, as acusações vertem sobre o rol de parentes empregados nos meandros da administração pública e de corruptos abrigados em partidos aliados. Uma disputa para saber quem tem menos pecados no uso das receitas arrancadas do contribuinte.

As urnas do primeiro turno comprovaram que, onde existe um gueto, o voto é facilmente fidelizado com pequenas ajudas do Estado, concedidas em nome do “partido”. Quer dizer que emancipar essa enorme massa de 13 milhões de famílias carentes pode colocar em risco ou mudar o quadro eleitoral? Claro que sim. A lógica leva a crer que o atraso precisa ser defendido para se ficar no poder. Cheguei a entender que o atraso é premiado com o voto, e o progresso se apresenta como um grave risco de perda do poder. Existe aí uma fábrica de voto que rende e pela lógica precisa ser preservada.

Ao vivo, um de frente para o outro, sem montagens, sem luvas nem capacete, os competidores duelam com golpes abaixo da linha da cintura, na nuca, onde for que seja, enfiando no adversário o rótulo de “mentiroso”.

O formato do debate, mais que para um público interessado no futuro do país, serve para animar torcidas como aquelas que vêm se formar em bares que oferecem telões para “curtir a pancadaria” entre “Excelências”. Os índices de audiência desbancam qualquer outro programa.

A expectativa do debate monopoliza as conversas entre amigos e grupos de discussão. O tema do momento por onde se passa é o mesmo: as denúncias, as respostas apimentadas, o espanto e as ironias que aparecem no semblante dos debatedores...

Aecistas escracham Dilma, e dilmistas dão o troco na mesma moeda.

O Brasil vem assim se dividindo em duas torcidas fanáticas que cantam as jogadas do seu craque e esquecem os bons lances do adversário.

Entretanto, existe um expressivo número de pessoas que não gostam de assistir a espetáculos “cruéis”, e exatamente esse contingente, anulado que foi seu interesse, anulará também seu voto. Ocorre que um razoável número de eleitores não concorda com tanta lama e deixará de votar.

Nessa circunstância quem tende a levar vantagem é a candidata Dilma. Simplesmente por contar com um eleitorado mais arraigado e refratário a escândalos depois de 12 anos em que os escândalos não pararam de rodear o Planalto. Esse eleitor que passou pelo “mensalão julgado pelo STF” e continua com Dilma mostra-se nitidamente refratário a denúncias de improbidade ou de qualquer crime. O voto dele é a favor do lulopetismo, assim como ele é e se consolidou em 12 anos de denúncias, escândalos e processos. Um pouco de denúncia a mais não faz diferença, não é razão para mudar o voto.

No caso de Aécio o efeito é mais destrutivo, já que o eleitor aecista, em sua maioria, é mais recente, ou menos fidelizado, mais sujeito a cortar o curto namoro, num ambiente de “vale-tudo” e de lama escorrendo para todo lado.

A baixaria, entende-se facilmente, favorece Dilma a partir do momento em que a migração para o nulo e branco atinge mais o adversário.

Explica-se assim a atitude agressiva de Dilma, apesar da posição de presidente em exercício, durante o debate. Chegou audaciosamente a questionar uma suposta propina para o falecido Sérgio Guerra (evidentemente paga como o consentimento ou ordem expressa de alguém do partido dela no governo Lula em 2009 quando Dilma ocupava a Casa Civil). Assim, o senador de Pernambuco, presidente do PSDB, teria recebido uma vultosa propina para desistir de uma investigação de roubalheiras na Petrobras.

Se as acusações reabrem o currículo do senador tucano, coloca-se a certeza de que o partido dela pagava propinas, até para encerrar investigações.

Já se viu um presidente da República se lançar numa atitude kamikaze como essa? Assumir a corrupção ativa do seu lado visando respingar a passiva no adversário?

Óbvio que a pergunta foi meditada com um fim: a generalização da criminalidade política. Uma forma direta e contundente de descolar eleitores recentes do seu adversário e enviá-lo para o rol dos votos nulos e brancos.

Aécio deve ter feito provavelmente uma leitura confusa, aceitou a provocação lançada por Dilma, que confia num eleitorado tipo “craca de rochedo”, enquanto o do Aécio é vegetação recente, sem raiz, que pode se desprender com uma onda certeira. O eleitorado “fresco de Aécio” que se aproximou tem mais possibilidade de refluxo, enfim é um namoro recente, ditado pela vontade de mudança (ética). Frustrar esse sentimento ajuda Dilma.

Ela, muito bem orientada, arrastou o adversário para um abismo que a favorece. As pesquisa mostram que o crescimento de Aécio sofreu um arresto, perdeu um pouco de força.

Nesse clima parece não haver espaço para uma proposta maior, para um compromisso com a nação que se espera de quem quer conduzir o destino do país.

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