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Vittorio Medioli

Não consigo imaginar

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PUBLICADO EM 10/09/17 - 04h30

Para uma manhã de setembro a temperatura é mais baixa que de costume, e as brumas, inusuais. Levantei-me às 7h para aproveitar o dia em todos os seus segundos. Hoje mesmo (ontem para quem lê a coluna) à noite voltarei ao Brasil, preciso escrever meu texto semanal. Desço ao jardim da casa onde fui criado pelos meus pais, em Vicofertile.

Em volta, muitas recordações da infância, as vibrações de meu pai, que se foi em 1982, e de mamãe ainda jovem, da família numerosa que aqui se reunia para memoráveis almoços regados pelos vinhos produzidos em nossa cantina.

Minha mãe aqui cuidou de nós, filhos, e me aparecem as cenas como no filme “Amarcord” entre lembranças domésticas, como produzir geleias no verão e concentrado de tomate no outono.

A colheita das avelãs em setembro, a castração dos frangos que se transformavam em “capponi” e eram servidos “bollitos” no almoço de Natal. Eu tinha muita dificuldade de comer “capponi” e acabei aderindo ao vegetarianismo aos 15 anos. E se alguém sustenta que a carne é indispensável, olhe para mim depois de 50 anos sem proteína animal.

Neste pedaço de terra, hoje coberto de gramados e flores, havia uma horta, que tomava conta de tudo para poder fornecer verduras o ano inteiro, e o pomar de ameixas, cerejas, pêssegos e, sobretudo, maçãs e peras que, colhidas não plenamente maduras, eram guardadas no sótão, ventilado pelas janelas entreabertas, e, assadas no forno, eram servidas de sobremesa durante o longo inverno.

Hoje, com seus 95 anos, minha mãe se lamenta: “Só me resta aguardar a morte me levar”. Tento consolá-la: “Você vai viver mais dez anos”.

Seu dia se limita à rotina invariável de assistir às façanhas do papa Francisco num canal católico, entre várias missas e orações, com um terço rezado de manhã e, pontualmente, às 18h, no toque da Ave Maria.

O astral dela obviamente não é dos melhores, a geração dela sumiu, e a situação não mais permite as visitas ao cemitério para a troca de flores no túmulo de meu pai.

Os filhos estão mais distantes, faltou também a companhia de alguém para um jogo de baralho, desapareceram as amigas.

A vida desabrochou, deixou cair a seu redor pétalas que secam. A cabeça ainda lúcida. Embora o uso de medicamentos que aliviam, o astral não é dos melhores.

A cadeira de rodas serve para ir e vir, e um elevador elétrico a faz subir até o segundo andar, onde faz questão de dormir, como dormiu nos últimos 70 anos. Chegou em novembro de 1947, quando se casou com meu pai, sem festas e saindo para uma viagem de trem até a praia mais próxima.

Naquela época era usual levar a esposa para morar na casa dos pais do marido, a Itália destruída pela guerra, as moradias eram compartilhadas, em cada quarto morava uma família inteira.

Tudo era difícil, os alimentos escassos eram “sagrados”, e nem um grão de arroz no fundo da panela poderia ser desperdiçado. Muito pão e batatas rendiam calorias nos gélidos invernos aquecidos com lenha na lareira.

Tudo mudou e ainda mudará, mas como, não consigo imaginar.

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