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Vittorio Medioli

O complô

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PUBLICADO EM 12/02/17 - 04h30

A morte de Teori Zavascki abalou a solidez da Lava Jato, e a substituição da cadeira no STF vem ocorrendo exatamente no pior sentido possível, convocando-se o agora ministro licenciado da Justiça. Por sua vez, o cargo de ministro está próximo de ser ocupado com mais uma indicação que pode mudar o rumo da história.

O grupo dos réus e dos investigados está unido neste momento, mais do que por amizade, para escapar das penas que já se abateram sobre ex-colegas e ex-intocáveis. Outros, para salvarem a própria pele, depois de tentativas anteriores de anistias e arquivamentos terem fracassado. Nunca se sentiu uma união tão sólida e concatenada contra a Lava Jato.

Na era Dilma, perdeu-se o controle por parte do Planalto das então submissas polícias e Procuradoria da República. A metralhadora acabou sendo conquistada pelas instituições do Judiciário, voltando-se contra os “antigos donos”, que nunca pensaram ou se precaveram de autonomia e alinhamento das instituições de controle.

A luta para desarmar a Polícia Federal e o Ministério Público e embrulhar o STF é daquelas que ocorrem em silêncio, dissimuladas, minando e desarticulando os centros nevrálgicos que deixam de funcionar corretamente.

A PF se desvencilhou no primeiro governo Lula do controle da Presidência da República quando agiu sob o comando de Márcio Thomaz Bastos nos pastos políticos, mais do que na repressão aos crimes que estão sob sua tradicional jurisdição. Aprendeu e ganhou autonomia, louvada e incensada pelos mandatários. Daí em diante, o processo se tornou irreversível. O tiro saiu pela culatra.

Com a saída de Bastos, que deixou centenas de milhares de pessoas grampeadas a qualquer pretexto, acabou se expondo o sistema da corrupção de todos os lados. Perdeu-se a capacidade de separar os amigos dos inimigos, como no caso do caseiro que denunciou Antonio Palocci. O fogo amigo passou a ser considerado “autonomia”. Sem querer, abriu as portas para que se fortalecesse a saga investigatória.

Nesse contexto, desencadeou-se uma guerra “fria” de bastidores entre partidos e polícias “partidárias”. Alguns Estados montaram seu sistema guardião para ter munição para ataques aos inimigos.

Não é por acaso que a queda de sete ministros do governo Dilma ocorreu nos primeiros seis meses de 2011 – início do mandato dela. As vítimas apareciam flagradas por arapongas (que trabalhavam ao soldo de alguém), expostas na mídia por meio de dossiês distribuídos pelo contraventor Carlinhos Cachoeira à mídia.

Os mensalões tomaram a luz e colocaram em maus lençóis todos os partidos mais poderosos. A corrupção praticada em ampla escala transformou o sistema numa cleptocracia de gigantescas “operações estruturadas” e propinodutos.

Entre gregos e troianos da política nacional, os mercadores persas se colocaram a serviço de todos, transformando-se nos maiores beneficiários da corrupção. Apenas Odebrecht declarou ter pagado R$ 2,6 bilhões em propinas, isso na primeira rodada de delações.

A morte de Zavascki, a queda da principal peça, fez com que a realidade do tabuleiro mudasse. Novos atores entram em cena para colocar em xeque a Lava Jato. Eunício Oliveira no Senado, Rodrigo Maia na Câmara, Alexandre de Moraes no STF, Edison Lobão na CCJ do Senado e novos diretores da Polícia Federal alteram o equilíbrio de força.

E não é por acaso que se fortalece a tese da revelação em bloco único das delações. Como se diz na Itália, “Mal comune, mezzo gaudio”, ou o mal que atinge todos é uma meia alegria. Com isso, uma caterva de acusados pulveriza a indignação, generaliza, dilui, impossibilita descrever e analisar tantos crimes.

Não paira dúvida de que a Lava Jato continua de pé, mas o ambiente em que tenta sobreviver e avançar se encontra minado para que, a cada passo, esbarre num problema sério. Mais grave ainda é verificar que as forças contrárias se uniram para salvar a própria pele, dispostas a arriscar tudo.

Vive-se um momento decisivo na dura guerra contra a corrupção. A continuação, cada vez mais, liga-se aos movimentos populares de apoio à Lava Jato. E a certeza é que, quanto mais for profunda a limpeza, maior e mais acelerado será o crescimento.

Por isso, o que se espera é que as ruas respondam à altura da gravidade do momento.

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