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Vittorio Medioli

O réquiem do PSDB

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PUBLICADO EM 12/11/17 - 04h45

A radiografia do PSDB saiu do envelope pardo para ser pendurada pelo senador Aécio Neves sobre um quadro luminoso na quinta-feira. Para ser conferida. Revelou-se assim uma patologia que precede a falência do organismo. Quadro de morte anunciada. Apressada com o afastamento daquilo que ainda sobrava de energia renovadora das células partidárias. Tasso Jereissati, um não paulista e não mineiro.

Na transparência da imagem se confirmam também as deformações acumuladas com o tempo, vícios, excessos, acidentes sempre negligenciados. O momento revela até o desejo de eutanásia, ou de implosão.

A destituição de Tasso Jereissati, uma alternativa viável até para presidente da República, foi determinada no pior momento da vida pública de Aécio Neves – legalmente imbuído de poderes, embora esgarçados neste momento de impopularidade que resvala na própria sigla. O gesto de Aécio do dia 9 do 11, número inverso ao 11 do 9, ficará como a queda das torres tucanas.

O PSDB, de um nascimento utópico de renovação, evoluiu para uma convivência, em parte forçada. Personalidades díspares e contrapostas: de um lado, Minas Gerais de Aécio, de um universo espetacular; e do outro, o núcleo paulista, do universo acadêmico. Um lado imperial, resumido em Aécio; outro pluralizado, nascido de Franco Montoro, Mario Covas, Fernando Henrique, José Serra, Geraldo Alckmin, que governaram São Paulo e aglutinaram dezenas de figuras e ministros como Aloysio Nunes, João Doria, Andrea Matarazzo etc., etc. Certo pendor para o mundo do espetáculo e do esporte em Minas; outro mais profissional e intelectualizado em São Paulo. Um desfilando agilmente em passarelas do mundo VIP; outro em academias do pensamento e universidades.

O confronto sempre foi díspar; o diálogo, difícil; os ciúmes e traições, frequentes. O prato da balança pesando a favor de São Paulo, pelas ideias e ideais, e contando com o maior colégio eleitoral (25%) e a maior economia (38%) do país.

As batalhas internas sagraram a habilidade de Aécio, o político mais talentoso dos últimos tempos, nascido com o DNA de uma das maiores eminências políticas da segunda metade do século XX, Tancredo Neves.

Na quinta-feira se manifestaram as razões do semblante, do hálito, do aspecto decadente e envelhecido que se agrava no PSDB. Longe do esplendor do primeiro mandato de FHC, inventor de um sucesso econômico e de um governo que transcorreu em oito anos de reestruturação do Estado, que ainda perduraram com o mais ferrenho adversário, Lula.

Com uma bancada federal minguante, tanto em número como em brilho, o PSDB se manteve respeitado nos últimos anos pelos resultados eleitorais retumbantes de São Paulo, maior colégio eleitoral e mais sólido feudo do partido. Sucesso que faltou em Minas sobrou em São Paulo de seguidas vitórias com nomes alternos, que consolidaram a imagem e a estrutura do partido. Três décadas de inconteste domínio eleitoral com Franco Montoro, Mario Covas, Geraldo Alckmin, José Serra se alternado no governo de Estado e na prefeitura da capital. Governos apoiados pela maior parte do povo governado. O PSDB de São Paulo elegeu o próprio João Doria, que de tucano não tinha nada, alavancado por Geraldo Alckmin. Esse Alckmin que, apesar da ausência de Aécio, que sempre lamentou, em sua tentativa presidencial em 2006, quando ocorria o Lulécio, retribuiu com 6,8 milhões de votos a favor do mineiro em São Paulo, em 2014. Isso em contraposição à derrota em Minas de Aécio contra Dilma por 570 mil votos.

Marcou-se assim um PSDB exuberante por lá e um claudicante aqui, em Minas. Caberia assim a Alckmin, por méritos eleitorais, assumir as rédeas, e a Aécio aceitar o recado das urnas estaduais.

A teoria do café, de São Paulo, com o leite, de Minas, se reproduziu no PSDB e ditou seus melhores momentos, deu ao partido uma imagem de “centro”. Nem excessivamente à esquerda, nem excessivamente à direita, sem gerar entusiasmos, ou desesperos, com capacidade de dialogar e governar com serenidade. Embora no poder aumentasse a altura dos saltos, o uso de plumas, esquecendo que no estoicismo e na austeridade se fundaram e alongaram as eras de sucesso e progresso.

O PSDB, se soubesse manter o equilíbrio e os predicados de sua origem, nunca teria deixado a Presidência. Estaria como em São Paulo, e não derretido em nível nacional.

A soturna guerra entre São Paulo e Minas Gerais, mais de Minas Gerais para enfraquecer São Paulo, enveredou agora para o desespero, para o inconcebível. Um gesto de Sansão que com as últimas forças recuperadas derruba as colunas do templo e soterra a todos.

Aí a profecia se cumpre. Do lado de fora das ruínas, um novo partido, carioca, de celebridades, de globais e de magnatas, está pronto para o grande lance, enquanto o réquiem toca para os tucanos.

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