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Vittorio Medioli

Para crescer com proveito

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PUBLICADO EM 28/01/18 - 04h30

A ausência de egoísmo (que coisa fantástica!) deveria ser nota-chave da vida de todos os aspirantes ao desenvolvimento, acelerando a humanidade. Para o mestre, “perder o que se tem representa ganhar o mundo todo”; isso é para meditar. O recado vai para as elites, não só as políticas. A emancipação dos indivíduos eleva a sociedade, abrindo um horizonte de liberdade. Tem que levar a sério a melhoria das condições de vida, a superação da miserabilidade e das privações. Apenas isso deixará decolar a sociedade para níveis mais altos.

Hoje não se enxerga essa vontade como condutora do poder público; de quem comanda, ao contrário, aparecem a exploração e a corrupção como práticas enraizadas. No Brasil, culpa-se o povo por não saber escolher, especialmente pela assustadora falta de educação escolar. As escolhas dos indivíduos são pressionadas pelos instintos primordiais e pelas privações – por vezes, gerando desastres.

A justiça social cresce na medida em que os povos recentemente independentes crescem em maturidade, tomando consciência dos deveres mais que dos direitos. Quem quer uma sociedade mais justa precisa dar o primeiro passo com sua perna, começar dele mesmo. A democracia tem seus limites, como afirmava Platão. A capacidade de escolha do indivíduo, esmagada pela ignorância – critica o filósofo –, leva a escolhas insanas. O risco de se privilegiarem demagogos é quase uma certeza, elevando aqueles que exploram as baixezas da ignorância.

O vocabulário estabelece que o termo “democracia” é o poder que emana do povo, e isso é enaltecido como uma grande virtude. Embora se imponha em qualquer discurso político, prestando-se atenção, nota-se que “democracia” se alinha com “infantocracia”, o poder que emana da população infantil. O bom da democracia é que faz crer que o povo está no comando; mas se apenas crianças votassem, eleitos seriam figuras fantásticas e Papai Noel para presidente da República. Isso perturba o desafio, deixando terreno propício aos exploradores da falta de discernimento.

Se numa empresa regida por regras de sustentabilidade, é escolhido o mais habilitado ao cargo, em eleições vence o mais esperto, aquele que vende melhor seu peixe. Verdade é que vem ocorrendo um amadurecimento na sociedade, mas o risco de tomar gato por lebre existe, e muitos gatos serão eleitos ainda. Aquele que sabe entender que justiça e equilíbrio decorrem da melhoria das condições das classes menos privilegiadas já é um raro vidente de nossos dias. A maioria procura nas urnas o que lhe dará vantagens, outros votam para garantir privilégios – segurar um quinhão em prejuízo de outros.

O poder que emana das urnas tende a ser uma loteria. Hoje é financiada com dinheiro público, pior que o sistema que pretendia corrigir, e consolida a vantagem de quem está no poder.

Analisando-se as chagas sociais, temos que dar razão a Platão. A violência, o desemprego e as falhas nos serviços públicos remetem mesmo à ignorância e ao egoísmo que dominam no país. O SUS, apenas para dar um exemplo, seria excelente e suficiente, mas não resiste ao assalto de quem dele abusa para se locupletar.

A obra platônica apresenta a anarquia como a melhor solução – anarquia não no sentido negativo, associada ao caos, mas a uma sociedade extremamente evoluída em que os indivíduos, amadurecidos, respeitam os demais sem a coerção exercida pelo Estado. Essa é a última utopia. Mas uma alerta sobre a responsabilidade individual: quanto melhores os indivíduos, mais excelsa a sociedade.

Para um Estado coroado de justiça social, a elite intelectual e econômica do país, do alto de seu pedestal, deveria se devotar ao crescimento das pessoas menos afortunadas. Cada um assumindo responsabilidades. Lá onde se resgata o mais grave, mais ganhos serão contados para todos.

Hoje, o acesso ao conhecimento é limitado a quem tem o privilégio de exemplos familiares, de uma boa educação e de condições econômicas que facilitem a satisfação de necessidades fundamentais. Poucos, portanto. A sociedade só se estrutura, em nossa época, vencendo a miséria, estripando a ignorância.

Dante Alighieri nos deixa entender, na celebre obra do Inferno, por meio das palavras de Ulisses, a importância do conhecimento. Algo que não possui idade nem limite de adoção. Ulisses se privou da agradável família para atender seus deveres, saiu pelo mundo afora e voltou sábio depois de muito sofrer e conhecer. E Dante interpreta o ímpeto do herói dizendo: "Considerais a vossa semente humana: feitos não fostes para viver como brutos, mas para seguir virtude e conhecimento”. Virtude: grande quimera que só tem valor quando exercida com lealdade aos seres humanos e à causa.

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