O terremoto no Haiti transformou-se em grande tragédia porque atingiu um povo que enfrenta todas as mazelas de um país com problemas econômicos e institucionais decorrentes de 311 anos de domínio colonial e outros 207 de ingerência externa, pois não construiu um Estado com instituições suficientemente sólidas. Sua história está, portanto, marcada por disputas internas e submissão a interesses alienígenas, embora tenha proclamado sua independência, em 1803, seguindo os ideais de liberdade, fraternidade e igualdade, que foram definidos, pouco antes, pela França, sua metrópole.
Vivendo, então, inúmeras turbulências políticas, como o domínio norte-americano entre 1915 e 1934 e o regime cruel dos Duvalier sob tutela da superpotência mundial, as crianças foram sempre as maiores vítimas, pois sofriam carências materiais em seu ambiente familiar e não contavam com organizações estatais para suprir suas dificuldades, como um sistema educacional que lhes oferecesse qualificação plena para a cidadania e o mercado de trabalho. Há, também, muitos órfãos em tenra idade porque a taxa de mortalidade materna atinge níveis insuportáveis para o mundo moderno.
As crianças transformaram-se, então, em meio aos escombros do último terremoto, alvo preferencial de ações pretensamente humanitárias, mas seus autores não têm respeitado princípios legais, pátrio poder e soberania de uma nação, ao retirá-las dali e encaminhá-las para adoção por famílias de outros países. A mídia denunciou, desde os primeiros dias, sequestro de menores, sem identificação dos pais e sem autorização dos órgãos oficiais. A prisão de dez norte-americanos, no último domingo, escancarou, portanto, ações nebulosas sob pretexto de resgatar os pequenos da miséria, pois 33 crianças entre 2 meses e 12 anos viajavam sem documento que esclarecesse sua origem e seu destino. Isso implica muitos riscos, mesmo que elas sejam aguardadas por famílias com a indispensável generosidade para oferecer-lhes afeto, conforto material e autonomia plena quando se tornarem adultas.
Todos reconhecem o pesado ônus para criação de filhos e isso é razão fundamental para redução de natalidade nos países desenvolvidos. Há também crescente opção dos casais pela não-fecundidade. Se existe forte rejeição à geração da própria prole, qual seria a verdadeira motivação para adotar uma criança sem vínculo genético, étnico e cultural? Diante de frequentes flagrantes de trabalho escravo, pedofilia e prostituição compulsória, essas crianças seriam destinadas a esses "mercados", que grassam nos países desenvolvidos? Indispensável lembrar também a crueldade de destituição da cidadania haitiana, além das experiências fundadas na cultura dos pais, sem garantia de que a criança não sofrerá, em qualquer tempo, preconceito étnico.
A catástrofe haitiana remonta ao desrespeito a uma nação, desde que os arawaks e tainos foram dizimados pelos espanhóis que estabeleceram ali um perverso sistema colonial e cederam a possessão, em 1697, para a França. Esse país beneficiou-se bastante, no século XVIII, com a comercialização do açúcar, sem reconhecer os direitos da população por uma vida digna, mesmo após a independência em 1803. Desde então, as grandes potências não mudaram sua postura em relação aos países pobres.
Resta saber se os contingentes alienígenas instalados no Haiti prestarão, realmente, ajuda humanitária ou estão apenas se acomodando para dominar mais um território e, consequentemente, a população local.
