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O dilema do momento não é oferecer acesso, mas permitir apropriações pelo cidadão, não pelas corporações.

Fernando Fiuza
O governo eletrônico e o cidadão digital

ISRAEL DO VALE
israeldovale@uol.com.br

Quem diria. Neste momento, um país pobre [ah, vá lá: em desenvolvimento] e meio desengonçado bate no peito, adota ares de nação estável [pimenta no banco dos outros...] e se apruma para os novos rumos da humanidade.
 
Fosse pouco, coleciona [em certas áreas] índices inimagináveis menos de duas esquinas atrás. Sim, é dele queu estou falando... De um país que, enquanto você leu até aqui, colocou dez novos computadores para funcionar.

Isso mesmo: 30 segundos atrás, a população brasileira era dona de dez computadores a menos. Mas a gente ficou aqui de conversa mole, o tempo passou e quando se viu... Bem, a fila tinha andado [E eles agora já são 15!]

O fato é que ao final deste parágrafo o Brasil terá em operação outros seis a mais. É isso mesmo: a cada minuto que passa, 21 novos computadores são ligados na Terra Prometida [e raramente cumprida...] do País das Maravilhas [abençoado por Zeus e bonito por teimosia - que ironia!]

E é claro que isso não caiu do céu. A expansão da malha tecnológica no Brasil é fruto, sim, de um conjunto de políticas públicas que reflete, na ponta final, o processo de desoneração do computador - ou seja, o barateamento do equipamento por meio da redução de impostos.
Mas um computador sozinho não faz verão. E o que se busca em ações encabeçadas pelo poder público, de norte a sul do país, é multiplicar as ferramentas de suporte ao ensino e as condições de acesso à internet - na escola ou em casa.

Há muito a avançar, evidentemente. Mas a cada dia é possível enxergar um novo passo adiante: laptop popular, computadores gratuitos para professores da rede pública [como acaba de fazer o estado de Sergipe], multiplicação de telecentros [90% dos municípios brasileiros estão habilitados a receber seu kit do Governo Federal], alastramento de lan houses.

Sim, a realidade continua sendo cruel. Basta notar que 60% dos municípios brasileiros acessam a internet por linha discada. Mas aí também há alvíssaras. Esta semana o Senado deu novo alento para minorar o impacto disso, com parecer favorável à permissão de que chamadas interurbanas para acessar a rede a partir de cidades sem provedor, sejam tarifadas com preço de chamada local.

Simbólico, sem dúvida. Mas essencial. Ao menos até que se tenha condições plenas de acessar a web por meio da televisão - com a implantação do canal de retorno e de aliados como o Ginga, conversor digital e plataforma de interatividade desenvolvidos no Brasil para acesso às [misteriosas...] maravilhas da TV digital.

Nunca é demais lembrar: quando alcançar todo o país, a TV digital trará junto de si nada menos que três quartos da população para a Internet[BANDA LARGA!]. Uma tsunami de acessos massivos - e a potencial descoberta, no atacado, do admirável mundo novo digital para dezenas de milhões de brasileiros.

Até lá, uma infinidade de projetos ajuda a expandir a chamada nuvem wi-fi, esparramando o sinal sem fio gratuitamente por determinadas regiões [no Rio, Copacabana será um dos primeiros bairros a ter isso] e até cidades inteiras.

Este cenário mutante traz novas questões à baila, como acentua o intrépido Claudio Prado, entusiasta do software livre e homem de frente do ex-ministro Gilberto Gil na implantação de políticas favoráveis à expansão da cultura digital.

Tive com Claudio Prado mais uma conversa estimulante dia desses. Que mostra como o homem enxerga além. O dilema do momento, no entendimento dele, não é oferecer acesso, mas permitir [E ESTIMULAR]apropriações pelo cidadão, não pelas corporações.

Em miúdos: a expansão da nuvem sem fio de banda larga gratuita será bem-vinda, claro, mas quem tende a ganhar com isso no primeiro momento são as empresas [que já têm base instalada e equipamentos adequados], não as pessoas.

Prado defende uma mudança de conceito no que diz respeito ao relacionamento do governo com o cidadão. Acredita que o [EMBRIONÁRIO]e-gov [a governança eletrônica] já precisa de upgrade. E a chave da questão é o compartilhamento e a tomada de decisões de forma participativa. Que ele chama de d-gov.

O exemplo é simples: porque é preciso haver uma área responsável por identificar e mandar tapar buracos de uma cidade inteira, se quem vê primeiro o buraco é vizinho dele?

Nesta lógica, Prado acredita que a solução seria criar instâncias localizadas de representatividade [uma radicalização das subprefeituras, com responsáveis para cada bairro ou até mesmo quarteirão...], oferecer acesso rápido a recursos pré-destinados e autonomia para resolver o problema. E que a Internet é a melhor maneira de assegurar a gestão disso.

Seria algo tão distante?




Israel do Vale, 41, é gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil, e escreve neste espaço aos sábados. israeldovale@uol.com.br

Publicado em: 18/10/2008

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