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Em literatura, como em qualquer outro tipo de arte, não existe virtude, exceto a de escrever bem. De preferência, muito bem.

Colagem a partir de foto anônima
"Ri o roto do esfarrapado, o sujo do mal lavado - e os mortos dos que vão morrer"
Compaixão, o estigma dos grandes escritores

SEBASTIÃO NUNES

A literatura - como qualquer outro tipo de arte - sopra onde, quando e como quer. Temos excelentes escritores ladrões, assassinos, alcoólatras, sádicos, masoquistas, loucos, drogados. Nenhum grande escritor é obrigado a fornecer atestado de moralidade ou de bons antecedentes ao escrever ou publicar seus livros. Muitos deles, cercados de admiração e estima por suas obras, exibem biografias digna das páginas policiais. Ao contrário, a maioria das pessoas bem comportadas, corretas, honestas e consideradas exemplos de civilidade, ética e cidadania, raramente consegue alinhavar duas linhas que prestem.

Por outro lado, não é entre os pilares da corrupção, do cinismo e do banditismo político, social e econômico que encontraremos bons escritores. Então, como resolver esta charada? A virtude está no meio? Ou não existe virtude? Talvez a resposta esteja por aí: em literatura, como em qualquer outro tipo de arte, não existe virtude, exceto a de escrever bem. De preferência, muito bem. No entanto, e na medida em que tentamos encontrar um fio condutor para sair do labirinto ético da literatura, a palavra compaixão ganha força - e se torna a mola propulsora, se não de todos, pelo menos de boa parte daqueles que se tornam grandes.

PONTINHOS DESCARTÁVEIS

Camus, Dostoievski, Graham Greene - eis alguns escritores em que a compaixão permeia todos os livros e ilumina cada página. Muitas vezes, seus textos são apelos desesperados, buscando respostas para questões lançadas no vazio. Questões sobre o sentido da vida, por exemplo. Ou sobre a razão pela qual crianças sofrem, e morrem, sem qualquer culpa, exceto se considerarmos a existência com brincadeira do acaso ou mera diversão de um deus totalmente cego e indiferente à sorte humana. E por que não? Camus era ateu, Greene se converteu ao catolicismo, Dostoievski escolheu a redenção pelo sofrimento. Num de seus livros menores, "O Terceiro Homem", escrito como roteiro de filme, o vilão de Graham Greene, justificando a morte de milhares de pessoas por penicilina falsificada, diz ao amigo que o trairia mais tarde: "Você sentiria realmente pena de um daqueles pontinhos, se ele parasse de se mexer para sempre? Se eu dissesse que você receberia vinte mil libras para cada pontinho que parasse, você me diria para eu ficar com meu dinheiro?"

Estavam no alto de uma roda-gigante, olhando a multidão. E continua: "Ora, eu ainda acredito, meu caro. Em Deus, na misericórdia e tudo mais. Não estou machucando a alma de ninguém com minhas atividades. Os mortos são mais felizes mortos. Não estão perdendo grande coisa, pobres coitados."

O personagem do livro não era sentimental. Sabia que a vida não vale grande coisa, como o autor também sabia. Somos todos pontinhos inúteis e insignificantes, exceto para nós mesmos. É ou não é?

SER NÃO SENDO

Sim e não. O que desesperava os três autores citados e uma multidão de outros é exatamente isto, o fato de sermos, todos nós, pontinhos insignificantes e inúteis. Então a vida não tem sentido? Desta pergunta nasceu o Existencialismo. Se a vida tem um sentido, qual é ele? A tentação maior é responder no ato, como os epicuristas: viver da melhor maneira possível. Ou, ao contrário, aquela outra resposta, preferida pelos caridosos: o sentido da vida é nos ocuparmos com a vida dos outros.

Essa segunda resposta leva ao famoso ditado: de boas intenções o inferno está cheio. Utopistas e revolucionários de todos os tempos se massacraram mutuamente - e massacraram o próximo - em defesa de suas "boas intenções". Certos especuladores orientais, famosos por sua indiferença à dor e à piedade, afirmam que para a natureza tanto faz o bem quanto o mal. Um compensa o outro e do confronto de ambos nasce a harmonia do Universo. E se o mal equivale ao bem, em termos de resultado final, de finalidade última, cada qual tem liberdade suficiente para escolher como prefere viver: fazendo o mal sem olhar a quem, fazendo o bem quando lhe dá na telha, ou praticando bem e mal indiferentemente, por capricho, satisfação pessoal, tédio.

O HOMEM ÉTICO

No entanto, vivendo o duro embate da vida diária, caminhamos no escuro, nos movemos em círculos, esbarramos em todas as paredes e caímos em grotescas armadilhas. Não há nada que nos obrigue a agir desta ou daquela maneira, exceto uma pequena praga que nos atormenta desde a idade das trevas absolutas, há milênios: o medo. O homem ético é o que tem medo. Os personagens mais lúcidos e frios de Dostoievski, Camus e Graham Greene sempre colocam seus interesses acima do bem e do mal, justificando a própria maldade com a insignificância da vida humana.

Se vamos todos morrer mais cedo ou mais tarde, se depois de algum tempo tudo estará terminado, qual o sentido de ficarmos nos preocupando em fazer o certo ou o errado, exceto para usufruir, gozar, enriquecer e sermos felizes enquanto possível?

Não há nenhuma resposta, exceto esta: a humanidade se divide em corajosos e covardes. Mas não estou pensando na coragem menor ou na pequena covardia. Para fazer jus a minha divisão, é preciso pensar na coragem radical e na covardia absoluta. A coragem radical topa tudo, aceita todos os riscos. A covardia absoluta se esconde debaixo da cama em todos os atos da vida, mesmo nos sonhos.

Mas se o homem ético é o que tem medo, ele não é nenhum dos radicais. Nem o corajoso radical, que se torna grande bandido qualquer que seja seu campo de ação, nem o covarde absoluto, que treme de medo ao respirar e se torna saco de pancadas do corajoso radical. O medo do homem ético está em todos os pensamentos e ações, espontâneos ou não. Viver é ter medo. Viver é correr riscos, tremendo de medo. A consciência dessa vida de riscos e de medo permeia o comportamento do homem ético. Ou como disse o personagem radical de Graham Greene, no momento da morte: "Perfeito idiota!"

E despencou no vazio, sem esclarecer quem era o perfeito idiota. Se ele, se o amigo traidor, ou se cada um de nós, eu e você incluídos.




O escritor SEBASTIÃO NUNES escreve no Magazine aos domingos.

Publicado em: 14/09/2008

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