Se antigamente consumir era considerado um pecado, hoje consumir se transformou numa necessidade.
Diminuiu o consumo de produtos supérfluos, aparentemente supérfluos para quem os consome, mas indispensáveis para a sobrevivência de quem os produz e os comercia, e a crise econômica tomou asas. Os setores supérfluos passaram a demitir trabalhadores, os demitidos tiveram que diminuir forçosamente suas compras de produtos de primeira necessidade.
Entende-se, sem rodeios, que os produtos "supérfluos" no sistema consumista geram oportunidades de emprego com o mesmo valor que qualquer outro emprego, por necessário e meritório que seja.
Óbvio que nesse círculo os níveis dos salários tendem a se encolher, já a oferta de braços e mentes supera em muito a demanda. Ladeira abaixo demite-se um empregado com salário mais alto e emprega-se outro com salário mais baixo. Repetindo-se esse procedimento no mundo inteiro o nível de consumo se adapta à massa salarial circulante. Sendo menor, menor será o consumo e mais gente conhecerá assim a dureza do desemprego.
Pois é. O desastre já estaria garantido pelos fatores objetivos e substanciais, porém age como acelerador no processo o baixo nível de confiança das pessoas. Claro: quem tem emprego teme perdê-lo, bota as barbas de molho e reduz suas compras, economizando como faz a boa formiguinha que se prepara para a escassez.
Os governantes das potências econômicas perderam o bonde, mais precisamente a oportunidade de segurar as rédeas do fenômeno quando ainda dava os primeiros passos, agora como corcel assustado depende mais do imponderável que de medidas estudadas na prancheta. Disparou sem rumo, deixando ineficazes as medidas adotadas nos últimos tempos, dosadas aquém da gravidade que pretendiam combater.
A tarefa se agiganta no período invernal, que neste ano começou mais cedo no hemisfério norte, retendo em casa os consumidores já "assustados" pelas perspectivas e agora congelados pelas baixas temperaturas.
Entende-se também que um prazo mais longo de retração acentuará o aprofundamento da crise e mais esforço deverá ser gasto para a recuperação dos níveis anteriores ou, pelo menos, de níveis satisfatórios das atividades econômicas.
À frente tem mesmo uma enorme interrogação, de um lado e de outro a certeza, igualmente monumental, da necessidade de amplas e revolucionárias mudanças de um sistema que promoveu o supérfluo ao patamar do "absolutamente necessário".