A fragilidade humana fica evidente no longo período de imaturidade dos indivíduos, pois as crianças não conseguem assegurar sua subsistência, dependendo, por muitos anos, de intensa supervisão dos adultos. Isso aumentou, consideravelmente, nas sociedades urbano-industriais, pois surgiram muitas exigências para a plena adaptação social e os custos da qualificação adequada são muitos elevados. Algumas mulheres não suportam, então, o pesado ônus da maternidade, principalmente quando não têm apoio efetivo do genitor ou da rede de parentesco, não conseguem conciliar a maternagem com suas atividades profissionais ou são estigmatizadas porque não cumpriram os requisitos mínimos para legitimação da concepção. Premidas por essas dificuldades, elas não cuidam diligentemente de suas crias, impingindo-lhes maus-tratos com consequências dramáticas.
O Estado criou, então, instituições para acolher as crianças submetidas a situações degradantes ou ao abandono. Elas se tornaram também abrigo para os órfãos que não foram assumidos pelo seu grupo de parentesco. Essas casas não constituíram, entretanto, a solução definitiva para os menores sem aporte familiar porque a carência material e, sobretudo, afetiva tornou-se um dos ícones da tragédia humana. As taxas de mortalidade ainda são elevadas e os traumas emocionais marcam a história de vida dos egressos, dificultando sua inserção social quando precisam sair para o mundo após a maioridade. Tenta-se, então, incentivar a adoção por adultos, que passam por avaliação técnica quanto às suas qualificações para assumir todas as responsabilidades inerentes à formação plena de um cidadão. Surgem, entretanto, várias dificuldades, pois alguns adotantes procuram escolher a criança como um produto de supermercado, estabelecendo critérios muito além do que se obtém na geração de um filho. Querem cercar-se de cuidados para viver apenas experiências gratificantes decorrentes da beleza, da saúde e do temperamento dócil de um estranho, sem questionar que isso não é possível no processo natural, diante das incertezas da genética ou de incidentes durante a gestação.
As motivações são também discutíveis, pois alguns casais pretendem criar uma imagem de generosidade por assumir uma tarefa gigantesca, esperando que o adotado manifeste perene gratidão pelo altruísmo de seu gesto, pois sua presença acarretou implicações profundas no cotidiano de uma família. Precisam superar, ao mesmo tempo, a censura de parentes ou amigos que preservam o preconceito quanto aos riscos de adoção de alguém que tenha "sangue ruim", pois acreditam que isso condicionará o caráter, independentemente da educação e do afeto oferecido pelos pais adotivos. Qualquer decepção relativa à experiência prazerosa com custo mínimo e trabalho reduzido pode transformar-se em argumento para devolver a criança ao abrigo público, conforme matérias divulgadas rotineiramente na mídia. Trata-se de uma atitude perversa, pois o trauma emocional aumenta bastante para o imaturo, que se sente rejeitado mais uma vez. É também uma solução muito cômoda dos casais que desistem da adoção, pois o relacionamento pais/filhos naturais não transcorre num mar de rosas nem o vínculo genético é garantia de que a prole acatará os projetos dos seus genitores. Mesmo assim, os adeptos dos princípios da paternidade responsável não abandonam seus descendentes, assumindo todos os encargos inerentes ao seu papel de pais, mesmo nas ocasiões em que as lágrimas escorrem pelo seu rosto.
