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Naquela época, Bruce Willis tinha cabelos, era mais magro e mais bonito, apenas o charme sobreviveu aos anos

Fernando Fiuza
Cine Poltrona

Outro dia na TV, eu e meu marido assistimos pela segunda vez (a primeira foi há uns 20 anos) ao filme que deu início à série "Duro de Matar". Apesar do tempo, nos lembramos de detalhes, como a cena em que o ator principal, Bruce Willis, escalando os cabos de um elevador, consegue se safar de metralhadoras enlouquecidas. Naquela época, Bruce Willis tinha cabelos, era mais magro e mais bonito, apenas o charme sobreviveu aos anos.

No ano passado, assistimos no vídeo ao quarto e último filme da série que, segundo um amigo, em vez de "Duro de Matar", deveria se chamar "Impossível de matar", afinal, nada é mais sacado que aquilo. Se caísse uma bomba atômica em cima do policial "John McClane", além de não morrer, provavelmente, ele ainda a devolveria ao remetente. Chegamos à conclusão que em matéria de cinema não se tem mais nada o que inventar. Um carro subir num viaduto partido ao meio e literalmente voar derrubando um helicóptero, nem 007 nos seus dias de inspiração máxima. Enfim, concluímos que o primeiro da série foi o melhor de todos, sacado, claro, mas com mais enredo e menos efeitos.

Pra bem dizer a verdade, esse tipo de filme não exige muito raciocínio, a ação contínua em que os personagens são movidos à overdose de adrenalina oferecem a nós, espectadores, duas horas de diversão. Nada mais que isso.

Lembro-me de quando não existiam vídeos, DVDs e a facilidade de assistir a um filme sentado na poltrona de casa. De certa forma, uma época saudosa em que ir ao cinema era "O Programa", mesmo que tivéssemos de enfrentar filas quilométricas. E eu vivia lá -- nas filas. Fila pra comprar e fila pra entrar. O pior é que muitas vezes eu simplesmente não entrava. Só na fila do "Tubarão" (que dobrava o quarteirão) foram quatro tentativas. Todas com um salto altíssimo, batom vermelho e cara de decidida, achando que era gente. Segundo meu irmão, a própria boneca pintada. Fazer o quê? Não tinha completado 14 anos (a censura da época), e muito menos parecia ter. Minhas amigas, mais novas que eu, entravam todas, enquanto eu...

- Documento!

- Hiii, moço!

- Sinto muito.

- Moço, pelo amor de Deus, tem duas horas que eu tô nessa fila...

- Sinto muito garota, só com documento.

Pois é, ter 13 anos e meio com cara de nove era um problema. E o filme para mim virou uma obsessão. Muito tempo se passou quando finalmente pude assisti-lo. Achei o máximo! Tanto que depois adquiri o DVD e assisti várias vezes - para o espanto de minhas filhas.

- Mãe! De novo essa bobajada?

- Como bobajada? Esse filme é ótimo!!!

Pois é, hoje, com toda tecnologia, informação e efeitos especiais, os filmes que nos impressionavam no passado, fazem rir os nossos filhos. Exemplo? "O Exorcista". Tinha tanto pavor do dito que quando assistia fechava os olhos e tampava os ouvidos. Nada mais aterrorizante que a voz de capeta da menina Linda Blair. O pânico era tamanho que sequer ia para o quarto sozinha, grudava-me no Vittorio que, achando graça, protegia-me de meus fantasmas, diabos e outros horrores. Já minhas filhas... Hum!!! Morrem de rir.

- Mãe, eu não acredito que você tem medo disso...

Isso porque não sabem do Drácula. Aquele sujeito desbotado, cheio de dentes e capa preta que já me tirou várias noites de sono. Quando garota, meu irmão, com uns dentes postiços comprados em banca de jornal, corria horrores atrás de mim, fez desmaiar a empregada e me deixou um trauma de infância. Vampiros? Deus me livre! Tô fora.

Embora ame os policiais, o que gosto mesmo são dos filmes leves, poéticos, sensíveis... Filmes que, mesmo sem grandes recursos, são feitos com a alma. Exemplo? Os iranianos "Baran" e "Filhos do Paraíso". Simples e belos.

E o melhor de todos - o meu recorde de audiência -, que eu e minha família não cansamos de assistir e nos emocionar: o italiano "Cinema Paradiso". Quem ainda não viu essa "obra de arte" de Giuseppe Tornatore, assista - é impossível não chorar.

Voltando ao início da crônica, quando me referia ao tempo em que filmes eram somente vistos no cinema, dá sim para ter saudades. Ali compartilhávamos as pipocas, os dropes, as jujubas e o prazer enorme de viver momentos de alegrias, tristezas e medos num ambiente de grandes dimensões para grandes emoções.

Confesso que hoje, mais acomodada e cansada do batente da semana, curto mesmo é ficar em casa. À noite, de camisola, banho tomado e com as luzes apagadas, sento-me na poltrona com meu marido que, de mãos dadas comigo, divide momentos alegres, tensos, tristes, divertidos - momentos que um bom filme, no aconchego da casa, nos propicia. E viva quem inventou a sétima arte!!! Maravilha!!!




LAURA MEDIOLI escreve no Magazine às terças-feiras. laura@otempo.com.br

Publicado em: 03/03/2009

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