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No momento em que escrevo esta crônica, minha casa se encontra fechada. Motivo? Pretinha, claro!

Pretinha de novo? (ai, meu Deus!)

Pensei que nunca mais fosse escrever sobre a Pretinha, mas não tem jeito, ela sempre apronta alguma que acaba virando crônica - acho que esta é a terceira ou quarta.

Sei que vocês não devem mais aguentar minhas histórias de cachorros, macacos e outros bichos. Fazer o quê, se vira e mexe eles estão presentes no meu dia a dia?

No momento em que escrevo esta crônica, minha casa se encontra hermeticamente fechada. Todas as portas. Sem exceção. Motivo? Pretinha, claro!

Para quem nunca ouviu falar da cuja, conto alguns detalhes: chama-se Pretinha obviamente porque tem os pelos negros. Magrelinha, esperta até onde pode, carrega algumas manchas marrons nas patas e nas orelhas. Segundo o veterinário, uma vira-lata, não tão autêntica, já que é descendente direta do fox paulistinha.

Vive conosco há cerca de cinco anos, quando, caminhando na rua, percebi que estava sendo seguida. Apressei o passo e ela também. Virei de supetão e encontrei dois olhos muito vivos olhando para mim com aquela cara de "me leva junto!" que não teve jeito. Pensei que fosse ter problemas com as outras inquilinas, afinal, donas do pedaço, não costumavam aceitar intrusas. Surpresa! Ela não só se enturmou em questão de minutos, como transformou cachorrinhas pacatas e matronadas em alegres e elétricas companheiras. Enfim, Pretinha revolucionou a minha casa com sua alegria, seus pulos de cabrito pelo basculante da cozinha, arremessos de gambás e investidas gastronômicas à mesa (quando, escondida, escalava cadeiras para usufruir depois das travessas recheadas). Custamos a descobrir o mistério dos pães desaparecidos e das bandejas remexidas. Até que, numa noite, antes do jantar, a encontramos "passeando" entre a sopa e o feijão. A partir desse dia, nunca mais nossas cadeiras ficaram desgrudadas da mesa. Nascida e crescida na rua, adquiriu virtudes dos sobreviventes. É a única de nossas cadelas que saberia sobreviver fora dos muros sem morrer atropelada ou de fome. A esperteza é sua marca registrada.

Mas, voltando ao início da história, lembro que meu último fim de semana foi "daqueles"!

Além da absurda zoeira noturna dos clubes vizinhos, com direito a música ao vivo e locutores tão empolgados, quanto desafinados, seguidos pelo foguetório na madrugada adentro, tínhamos que aguentar a Pretinha enlouquecida. Explico: de dez em dez segundos, ela se atirava na porta do meu quarto que dá para a varanda onde costuma dormir. A cada foguete, o arremesso de corpo era maior. Depois, somente com as patas, continuava sua percussão. Os foguetes cessaram, e ela não. E isso foi a noite inteira.

Na manhã seguinte, com peso na consciência, fiz carinho e convidei-a para entrar. Espichou-se no tapete e dormiu. Nessa hora pensei que a insistência da noite anterior, além dos foguetes, poderia ser devida ao frio intenso que fez. Magrelinha e quase sem pelos, devia estar congelando. Acarinhando sua cabeça pequena, mas cheia de grandes ideias, prometi a ela que nessa noite dormiria dentro de casa, como tantas vezes já fez escondida. E dane-se o xixi no tapete que, invariavelmente, adora fazer.

Tudo resolvido entre nós até que...

No finalzinho da tarde, jogando bola com o Vittorio e a minha filha mais velha, escutamos latidos, ganidos e grunhidos, além dos gritos da filha mais nova. Sem saber que confusão era aquela, corremos para ver. No escuro, uma outra "bola" girava no gramado onde era impossível distinguir quem era quem. Separá-la era um desafio. Até que, após vários rolamentos, finalmente se dissolveu. Parte dela, um desajeitado e corpulento gambá, conseguiu escalar o tronco de uma árvore, sumindo entre folhagens. A outra metade, Pretinha, ainda com os pelos eriçados, latia enlouquecida. Em pouco tempo percebemos o desastre. Pretinha cheirava a gambá num raio de dez metros. Santo Deus!!! O que é isso???

Para quem não sabe, gambás possuem um mecanismo de defesa: ao se sentirem ameaçados, expelem um líquido fétido e impregnante. Com certeza, das coisas mais medonhas que já respirei na vida.

Para resumir a história, quebrei minha promessa. Pretinha dormiu no jardim, enquanto nós, trancafiados em casa, desistimos de jogar bola.

fernando fiuza





LAURA MEDIOLI escreve no Magazine às terças-feiras. laura@otempo.com.br

Publicado em: 07/07/2009

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