Num país onde o excesso de burocracia e de fiscalização, a pesada carga tributária e o obsoleto regime trabalhista conspiram impiedosamente contra a sobrevivência das empresas, constitui um acontecimento extraordinário uma empresa chegar aos 80 anos, especialmente quando pertence a um segmento ainda mais castigado pelas adversidades, como é o de bares e restaurantes. A empresa em questão é a Tip Top, o simpático bar da rua Rio de Janeiro, que iniciou os festejos pelas oito décadas que completa em novembro. A façanha ganha ainda mais relevância quando se observa que outros bares e cafés que ajudaram a fazer a vida boêmia, cultural e social de Belo Horizonte no século passado desapareceram há muitos anos, com o Trianon, a Confeitaria Elite, o Café Estrela e o Bar do Ponto.
Como mostra o livro comemorativo dos seus 80 anos, a trajetória do Tip Top se confunde com a história e o desenvolvimento da nossa capital. Fundada por Paula Huven, o bar surgiu em 1929, época em que o mundo enfrentava os efeitos da primeira grande crise econômica mundial, desencadeada pela quebra da Bolsa de Nova York. Em 1942, quando Getúlio Vargas declarou guerra ao Eixo, fazendo o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial, em Belo Horizonte várias casas e estabelecimentos comerciais pertencentes a alemães, italianos e japoneses foram depredados por turbas de nacionalistas exaltados. O Tip Top escapou de ser destruído graças à atuação do garçom Augusto Gilbert e dos vizinhos comerciantes, que convenceram os depredadores de que os proprietários do bar não eram alemães - Paula viera da Thecoslováquia e seu Adolfo Huven, da Romênia.
Na heroica trajetória dos 80 anos do Tip Top dói constatar como, neste longo percurso, as mudanças desfiguraram a bela e moderna cidade que era Belo Horizonte até o final dos anos 50. No livro do Tip Top, o jornalista Acir Antão lembra os vários prédios de arquitetura francesa que foram demolidos nas décadas de 60 e 70 para dar lugar a monstrengos que só serviram para deixar a capital mais feia, como a atual rodoviária, que substituiu o majestoso prédio da Feira Permanente de Amostra.
A especulação imobiliária acabou com o córrego do Leitão, um riacho que corria pelo bairro de Lourdes, penetrava na zona do Mercado Municipal, virava à esquerda na avenida Amazonas e desaguava no Arrudas. O córrego do Leitão, onde as pessoas nadavam e pescavam, foi coberto pelo asfalto.
O Tip Top sobreviveu a tudo isto mantendo a tradição do atendimento pessoal e afetivo da época de dona Paula e a fama de servir o melhor chope de Belo Horizonte.
Numa cidade que perdeu tantas marcas importantes em seus 111 anos, o aniversário de 80 anos de um de seus bares mais antigos merece um brinde carinhoso. Longa vida ao Tip Top!