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Para bom comerciante, tanto faz chuchu quanto apartamento de luxo. Ou cachorro quente na esquina e melancia no mercado

Há 560 anos (ou 580, não sei bem) acompanho o desenrolar dessa surda batalha em favor do livro-mercadoria contra o livro-cultura

O mundo virou isso: um imenso super-hipermercado, mas eu não sou desse mundo. Eu sou de um mundo que já era. Ou que já foi. Ou que sifu

Quando leio o que se tem escrito sobre o futuro do livro e da leitura, reconheço que estão falando da venda de geringonças

Continua a briga de foice no escuro

Sebastião Nunes

Acirrada como nunca, prossegue a guerra santa sobre o futuro do livro e da leitura, iniciada desde que a internet se tornou popular. Como escritor, volta e meia tenho de meter minha colher no mingau, e disparar uns torpedos. Afinal, literatura faz parte de minha vida, da mesma forma que venda de livro faz parte da vida dos editores. E é exatamente aí que mora o perigo.

Exceto em tempos já remotos, há muito idos e vividos, editores só enxergam livro como mercadoria, noves fora as (relevem o chavão) raríssimas exceções. Para bom comerciante, tanto faz chuchu quanto apartamento de luxo. Ou cachorro quente na esquina e melancia no Mercado Central. Vendedor bom de papo vende a sogra caquética como se fosse princesa de conto de fadas e tijolo por lingote de ouro fino. Assim também a maioria dos editores. Existiam, nos primórdios brasilianos, editores que gostavam mesmo de livro, como bem lembrou meu amigo Romério Rômulo em conversa recente. Entre eles, o pioneiro Monteiro Lobato e seus sucessores José Olympio e Ênio Silveira. Esses davam gosto. Lobato vendeu fazenda para fundar editora, lançou muita gente importante (inclusive ele mesmo), criou o mercado editorial brasileiro e faliu uma ou duas vezes. Seu objetivo maior não era vender o produto livro, mas levar cultura em forma de livro ao país inteiro. A diferença é gigantesca. José Olympio era amigo de seus editados, que frequentavam a casa nos fins de tarde pra bater papo e ouvir novidades. Ênio enterrou três heranças com sua teimosia de excelente editor e péssimo comerciante. Bons tempos!

QUE DIABO É KINDLE? Não vou explicar, quem quiser procure na - ai! - internet. Só digo que é uma geringonça imitando livro, mas não posso ir muito além disso, ou gasto todo o meu rico espaço explicando o inexplicável. Digamos que é uma tentativa de livro eletrônico, e basta. Aliás, não é muito mais do que isso.

Mas o problema não mora exatamente no Kindle. Digamos, repito a expressão, que mora nos híbridos que pipocam nas lojas. E é claro que a classe média não deixa por menos: compra tudo quanto é porcaria, funcione ou não. É até melhor que não funcione, assim não é preciso muito esforço.

E que são esses híbridos? Ah, são aquilo que os celulares já colocam sob as patas de qualquer trouxa disposto a pagar pra ter e exibir: texto, imagem e som. Alguma novidade? Quase nenhuma. Já na televisão era assim, só que não se podia escolher o que ver, ler e ouvir. Nos celulares também não, mas o Grande Irmão não deixa que você fique sabendo que não tem escolha. Comprar um já é cair de joelhos, abraçar o inefável e louvar o mistério. Mas quem decide é ele, o GI, ou o BB, você só repete os cacoetes e os comandos que ele mete em sua cabeça oca.

QUE DIABO É VOOK? Trata-se da geringonça referida acima, se é que você entendeu. Confesso que eu mesmo não entendi muito bem, exceto que se trata de mais um facilitário com dois objetivos básicos: primeiro, vender a geringonça. Segundo, distanciar o leitor da leitura, misturando alhos (a dita leitura) com bugalhos (acessórios para "facilitar" a entrada do texto na cabeça do leitor). Digamos - de novo! - que tais bugalhos sejam imagens e sons bem convincentes, dignos daquele lá em cima, o GI, que nos reduziu a trapos, em termos de inteligência, iniciativa e coragem de pensar pelos próprios miolos, se é que os temos. Pra saber, é só dar uns pulinhos. Se alguma coisa chacoalhar lá dentro...

Mas é isso que eles, os vendedores, buscam: mais coisas pra vender e mais otários pra comprar. No entanto, argumentará você, o mundo virou isso: um imenso super-hipermercado, onde tudo se vende e tudo se compra. Sim, virou, mas eu não sou desse mundo. Eu sou de um mundo que já era. Ou que já foi. Ou que sifu.

QUE DIABO É CADUQUICE? Caduquice é aquela situação peculiar, comuníssima na vida dos mortais quando ficam velhos, em que você acha que está dizendo novidade, inventando a bússola, a pólvora e o macarrão, todos ao mesmo tempo (acho que já escrevi isso, há meses), quando não inventou nada, apenas requentou o macarrão grudento e estourou um traque dos mais vagabundos, incapaz de assustar pulga ou espantar barata.

Digamos - mais uma vez - que seja isso o que estou fazendo: caducando. Mas quando leio o que se tem escrito sobre o futuro do livro e da leitura, reconheço de cara que ninguém está falando de livro ou leitura, mas da venda de geringonças.

O MUNDO QUE HERDAMOS. Há 560 anos (ou 580, não sei bem) acompanho o desenrolar dessa surda batalha em favor do livro-mercadoria contra o livro-cultura. Briga boa, essa. De um lado, os que empunham espadas, lanças, arcos e flechas, espingardas, fuzis, metralhadoras, canhões, mísseis e estilingues em defesa do livro-mercadoria. Do outro lado, os que empunham as mesmas armas em defesa do livro-cultura. No meio, os juízes, que não entram na briga porque não são bobos. Ficam só na deles, espiando, e não julgam nada, só espiam, assuntam, prestam atenção. Tomam partido? Também não. Na deles.

Enquanto isso, eu aqui, bocó que nem eu só, bato o pé, faço beicinho, levanto o dedo, peço a palavra, chuto a mesa, dou socos no ar, acuso, me defendo. E não mudo nada, claro, afinal é mesmo desses embates que o mundo vive. Ou morre (perdão, mas não resisto ao prazer de um paradoxo).

Enfim, de Kindle, wooks e outras geringonças é feito o mundo atual, essa pipoca em que vivemos, pulando na panela do tempo. Não faz mal. Já houve o tempo do linotipo, da serigrafia, da litogravura. Cada um deles era um bicho-papão que assustava os ímpios e fazia rejubilar os crentes. Crentes na mercadoria, claro. No fim ficava tudo com era. Mudanças? Quase nenhumas. Guerra é guerra, batalhas são batalhas e, entre mortos e feridos, salvam-se todos. Ou não se salva, e é o mesmo.

Quem melhor argumenta são os céticos. Bem e Mal existem para o triunfo do Equilíbrio Primordial (ou do Uno). Churrasquear a mãe ou rezar cem dias ajoelhado em caroços de milho têm o mesmo valor. No fim dá tudo certo. Amém.

Colagem a partir de manuscritos medievais
Pode ser até que inventem alguma coisa melhor que o livro, mas vai demorar muito





O escritor SEBASTIÃO NUNES escreve no Magazine aos domingos.

Publicado em: 11/10/2009

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