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É lugar-comum dizer que, na vida real, os bons morrem cedo e os maus continuam

Não se tornou um pedante, muito menos um chato, mas também não se esforçou para ganhar espaço

Um dos caçulas de nossa turma, foi com sede ao pote, absorvendo o que pode ser captado em sinais de fumaça

A história mostra muitos exemplos de autores que, a certa altura da vida e da obra, concluíram que bastava, que nada mais havia para acrescentar

Comece com um jornalista chamado Dirceu Dumont, cínico, mulherengo e vagamente sentimental, metido numa trama confusa e barroca. Acrescente a paisagem de Ouro Preto e duas estranhas musas de nomes poéticos, Marília e Bárbara. Adicione chantagem, corrupção, algum sexo, pequenas e grandes sacanagens, muita bebida, um pouco de cocaína e meia dúzia de pessoas fracassadas. Então você terá todos os ingredientes para escrever um bom romance, se souber escrever como gente grande. Jaime Prado Gouvêa sabe escrever, e escreve como gente grande.

Em sua geração, que foi também a minha, embora eu seja alguns anos mais velho, Jaime conviveu com pesos-pesados com Murilo Rubião, Wander Piroli, Oswaldo França Júnior, Sérgio Sant’Anna e Humberto Werneck, entre muitos outros. Um dos caçulas de nossa turma, foi com sede ao pote, absorvendo o que pode ser captado em sinais de fumaça, pausas, intervalos, silêncio. Com Murilo, aprendeu, por exemplo, que literatura é coisa séria e deve ser levada às últimas consequências. E também que quantidade não é qualidade, invertendo uma das muitas fórmulas dos concretistas para justificar a geleia geral da música popular, ao mesmo tempo em que procuravam assar o biscoito fino de Oswald de Andrade, numa contradição impossível de resolver. Com o olhar agudo de Piroli, viu que os homens se dividem quase todos em otários e canalhas, assumindo, como o mestre, clara predileção pelos otários. Bom aluno, aprendeu o que tinha de aprender, nem mais nem menos. Não se tornou um pedante, muito menos um chato, mas também não se esforçou para ganhar espaço a golpes de caratê, mau-caratismo e marketing, como tantos outros de tantas épocas e lugares.

A DAMA MISTERIOSA
Certo dia, Dirceu recebe a visita de escorregadia senhora, que entra e sai da história sem deixar rastros, exceto por um punhado de pontos de interrogação e um pacote de velharias, guardadas até então com ciúme de avarento. São crônicas sem o mínimo valor (como irá descobrir), de um autor absolutamente desconhecido, tanto para ele quanto para qualquer pessoa medianamente bem informada.

Intrigado e excitado, o jornalista Dirceu Dumont consegue licença do jornal em que trabalha e se põe a explorar os sinais quase apagados do misterioso personagem. Objetivo? Escrever um romance sobre o hipotético, talvez platônico e com certeza truncado, caso de amor, envolvendo Álvaro Garreto, o poeta-cronista da capital, e a Marília misteriosa, discreta e recatada esposa de um político da antiga Vila Rica, que recebe em sua casa, como representante do prefeito, o ilustre visitante. A narrativa assim imaginada se avizinha perigosamente do folhetim. Mas então entram em cena outro jornalista, este frustrado e rancoroso, uma mulher fulgurante e destroçada e, enredada neles, uma trama que muda radicalmente a vida do ex-futuro-biográfo-romancista. E o lança na cratera de um vulcão que vomita lava, podridão e sujeira, expondo as vísceras de um passado não de todo irreal, talvez até real demais.

DA ÁGUA PARA O CONHAQUE
Amparada no cinismo reflexivo e reticente de Dirceu Dumont, que vê seu mundo ser revirado pelo avesso, a história sai de repente do devaneio histórico e da velha Ouro Preto chuvosa e escorregadia para uma Belo Horizonte atual, porém ainda mais escorregadia, porque agora é no submundo que a vida rasteja.

E continua rastejando. Depois de um dia-noite caótico com a bela Bárbara, nada idílica ou poética, Dumont vai mofar num hospital, quase aos pedaços, depois de um acidente grotesco, e ali reaprende lentamente a viver, ou melhor, a sobreviver.

Daí em diante é uma sucessão de golpes que desmontam sua vida a acabam por transformá-la numa sobrevida dolorosa, plantada no alto de um morro de Ouro Preto, cidade que o ex-jornalista escolhe como refúgio.

Bárbara está morta, Dirceu está aposentado e alcoólatra, uma perna mais curta que a outra, capaz de andar apenas escorado numa bengala. Descobre uma birosca que é a réplica ouropretana de antiga birosca belorizontina que Jaime e sua turma frequentaram durante longos anos, e que foi referência e ponto de encontro para sua geração, que ali marcava presença todas as tardes: a Petisqueira Munhoz.

VIDA E LITERATURA
O pano de fundo é autobiográfico, como quase toda a literatura. Uns disfarçam mais, outros menos, mas é impossível escapar da armadilha da própria experiência. O que engrandece Jaime nessa empreitada é sua capacidade de transformar gente viva de carne e osso em gente viva na imaginação de quem lê. Seu amigo durante mais de 40 anos, sei o que é ficção ou realidade, pelo menos acho que sei. No entanto, ao reler essa pequena obra-prima (pouco mais de 200 páginas), foi impossível separar o real do fictício, por mais que eu me esforçasse. Gente que não existe se torna tão real quanto gente que conheci, assumindo uma grandeza que talvez nem tivessem numa vida real, porque comprimidas no que possuem de mais característico e mais típico, sem escorregar na bidimensionalidade tão comum nos autores menores. Como a extraordinária Elisa, tão viva que quase a ouvimos respirar.

Jaime é um escritor de poucos livros e literatura talvez minimalista, não porque repita interminavelmente os mesmos temas, mas porque escreve pouquíssimo, e nem ao menos tem a vaidade da publicação e do foguetório. Há pouco reuniu todos os seus contos em um único volume, "Fichas de Vitrola & Outros Contos", relançando agora, quase 20 anos depois, "O Altar das Montanhas de Minas", seu único romance, ambos pela Record. Como ele mesmo diz, sua obra está terminada. Pessoalmente, lamento muito, mas sei que dificilmente a ela será acrescentada mais alguma coisa, já que o autor detectou, sabiamente, que já existe literatura demais no mundo.

A história mostra muitos exemplos de autores que, a certa altura da vida e da obra, concluíram que bastava, que nada mais havia para acrescentar. Jaime Prado Gouvêa é um deles. É lugar-comum dizer que, na vida real, os bons morrem cedo e os maus continuam nos atormentando. Em literatura também é assim.

Ilustração: Colagem a partir de capas de livros e foto do autor
Apenas dois livros, mas com mais densidade do que muitos calhamaços famosos



Publicado em: 07/03/2010

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