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FERNANDO FIUZA
Isolamento mental, in[ter]dependência ou sorte!

ISRAEL DO VALE

OAmapá não tem Internet banda larga. Até hoje. Mas o meio cultural de lá está a anos-luz do de Belo Horizonte (Rio de Janeiro, São Paulo) na capacidade de dialogar com o que há de mais atual e renovador no mercado da música. A provocação é de Pablo Capilé, um dos cabeças do Espaço Cubo, coletivo cuiabano que tem pautado a maior parte das discussões (que fazem diferença) em torno da nova "des"ordem musical e dos seus efeitos (e desafios) num país como o Brasil.

A reviravolta é resultado da implosão de uma lógica que vigorou por um século e hoje não serve mais: um jeito de fazer [esparramar, promover] música [discos, shows] que está em processo de reinvenção. O melhor e o pior disso são a mesma coisa: quem vai dar forma ao que virá é você, eu, todo mundo que cria/ouve/se interessa por música. O que significa que [por mais que seja triste dizer...] não adianta esperar cair do céu. Esta semana tem sido especialmente reveladora do descompasso no cenário mineiro.

E o termômetro se chama StereoCubo, braço reflexivo do projeto Stereoteca [um dos mais relevantes registros da pulsação da nova cena mineira de música], feito este ano em dobradinha com a brigada serelepe cuiabana. Há uma maneira simples de fazer a leitura do momento: o abismo flagrante que divide as pessoas (do universo da música) que vivem de música e para a música. Faz diferença, sim.

Viver de música hoje (aqui ou alhures) é um "estágio privilegiado", desfrutado por poucos e [fora do círculo de imoralidades/ ilegalidades como o jabá, a prática das rádios de só tocar música de quem paga] conquistado a duras penas. Viver para a música é outra coisa: ajudar a construir, tijolo por tijolo, uma condição mais favorável para, quem sabe, um dia poder viver de música. O tijolo, aliás, não entrou na conversa por acaso.

É parte de uma imagem usada por Capilé para descrever o perfil do músico (que quiser viver de música) destes tempos: músico e pedreiro são, hoje, uma mesma coisa - do ponto de vista da necessidade de trabalho braçal. E quem não enxergar isso não vai construir coisa alguma. Outra imagem da lavra de Capilé ajuda a ilustrar o argumento: se um dia a trilha sonora do músico "devotado à causa" foi "caminhando, cantando e seguindo a canção", hoje [na versão remix do novo contexto] ela passa a ser "caminhando, cantando e carregando caixa". Em suma, não há espaço para falso glamour.

E muito menos para paternalismos. De volta para o futuro: dividir a platéia do primeiro dia de debates de um evento como o StereoCubo com uns poucos gatos pingados, num estado como Minas Gerais [em que qualquer árvore que se balance faz cair um cacho de músicos...], é de doer. Seria isso indício da falta de visão (desinteresse? comodismo? indigência mental?) da média de músicos, produtores e [sim!] jornalistas "especializados"? O.k., o.k.: por que, afinal, o meio musical (e cercanias) deveria se mobilizar para pensar?

Bem, há uma frase [de]cantada pelo "filósofo" Chico Science que divide a humanidade em duas, a que está contente com a situação e a que acha que as coisas podem ser diferentes (melhores?): "Um passo à frente e você já não está no mesmo lugar". O Espaço Cubo se filia à segunda leva. A tecnologia inovadora de gestão e mobilização criada pelos cubistas cuiabanos massageia os pontos vitais da cadeia produtiva da música e desata nós históricos que terão que ser enfrentados por quem espera viver de música neste cenário de produção in"ter"dependente. Ninguém precisa acreditar ou se engajar na idéia

Mas o fato é que, daqui por diante, vai ser cada vez mais difícil para o bloco do chororô e do pires na mão ["coincidentemente", este que nunca dá as caras em debate algum] conseguir que alguém lhe dê ouvidos. Há uma segunda chance hoje para que os assoberbados (ensimesmados?) de plantão deixem o conforto de sua pasmaceira mental e dêem-se o direito de compartilhar dessa experiência - e, quem sabe, questionar a [zoo]lógica vigente.

Outro projeto fundamental no cenário da música in[ter]dependente no país, o Rumos Música, do Itaú Cultural, monta acampamento em Belo Horizonte hoje [14h30] e amanhã [19h, com shows de Trio Amaranto, Renato Braz e do sen-sa-cional Samba de Coco Raízes de Arcoverde, de Pernambuco], no Palácio das Artes [programação completa em http://futurodamusica.zip.net]. Capilé estará por lá outra vez, com a contundência que só os resultados visíveis e concretos podem oferecer.

E em boa companhia, com um clã de inquietos originários de regiões variadas - direito a convidado estrangeiro, o argentino Ricardo Salto, coordenador da área de música da Cidade de Buenos Aires. Outro que tem muito a dizer é Paulo André, empresário de artistas como Chico Science e criador do festival Abril Pró-Rock e do imprescindível Porto Musical, hoje também um nome fundamental no processo crescente de exportação da música pernambucana.

Em suma, é hora de desfazer biquinhos, passar por cima de eventuais intrigas e/ou divergências [como tem isso em Belo Horizonte, zeus do céu!], pegar a pá de cimento e botar a mão na massa. Por um motivo bem simples, que a cena musical de Estados como Acre, Pará ou Amapá escancaram sem dó nem piedade: o pior isolamento não é geográfico, mas mental.





Israel do Vale, 40, diretor de programação e produção da Rede Minas, escreve neste espaço aos sábados. israeldovale@uol.com.br

Publicado em: 30/06/2007

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