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COLAGEM A PARTIR DE BICHOS REVOLUCIONÁRIOS
"Na gravura, vários heróis comemorando entusiasmados a maiúscula e definitiva vitória"
Nova e notável teoria prática das revoluções

Calçado com botinas novas e cantadeiras, Jeca Tatu meteu no embornal meio queijo curado, meio litro de pinga curtida, meio metro de lingüiça fresca e um garrafão de água da cisterna. Fez mais: numa maleta velha organizou duas cuecas, três pares de meia, uma calça jeans desbotada, quatro camisas de cores diversas e um chapéu de aba larga, pra quando precisasse fingir de capiau, nunca se sabe.

Feito isso, deu milho pras galinhas, capim pra vaca parida, chamou o cachorro Pança estalando os dedos, trancou portas e janelas, deixou bilhete no portão informando a ausência temporária e caiu no mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu (e o seu também) coração.

JECA TATU NA AMAZÔNIA
Espertíssimo desde que ficou livre das lombrigas famintas que o comiam vivo, Jeca chegou telepaticamente em poucos segundos a Manaus, mais ou menos por acaso. Perambulou pelas ruas, comeu costela de tambaqui às margens do rio Negro, aspirou o fedor de pirarucu seco e foi passear na Zona Franca, onde comprou um monte de porcarias fabricadas em série e vendidas aos montes e aos trouxas. Não gostou da cidade, mas como estava ali mesmo, resolveu visitar a famosa e vastíssima floresta. Pois muito bem.

500 quilômetros, telepaticamente falando, foram percorridos em segundos. Viu índios doentes, matutos doentes, peixes doentes e macacos doentes. Ah, também viu milhões de árvores encostadas umas nas outras pra não caírem, já que tinham só alguns centímetros de terra junto às raízes e dezenas de metros de altura, vejam só que disparate.

Claro que também viu grandes clareiras e milhares de troncos cortados deslizando rio abaixo, ou rio acima, sei lá. Percorreu telepaticamente outros 500 quilômetros e chegou ao mais fundo da floresta, onde numa clareira enorme, mas enorme em termos amazônicos, isto é, enormérrima, encontrou centenas de bichos em assembléia geral extraordinária ecumênica e universal.

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS
Telepata dos bons, Jeca entendia todas as línguas de todos os bichos, de modo que, mal chegou, foi logo convidado a participar dos trabalhos como Consultor Genérico Para Assuntos Periféricos, o que significava tudo. Ou nada. Talvez. Sentado nas costas de uma anta gorducha, com os pés pousados no pescoço de uma onça suçuarana, apoiou o queixo na mão direita, de modo a ouvir melhor, e firmou o cotovelo direito, que segurava o braço direito, na cacunda de um bicho preguiça dos taludos.

E foi assim que participou da notável reunião de lideranças amazônicas. Amarrado numa árvore gigantesca, com a boca cheia de cipó, o macaco estava proibido de se manifestar, como é usual nas mais representativas democracias. Além de falar demais, primava por falar besteira, no que imitava perfeitamente os homens, de modo que era carta fora do baralho, pra usar expressão desconhecida dos bichos, que não jogavam, sequer possuíam, baralhos. O mesmo acontecia com a arara e o papagaio, isto é, estavam amarrados e de boca entupida de cipó.

E foi assim, livres de tagarelas, senadores, deputados, ministros e vereadores (todos eles macacos, araras e papagaios, como sabemos desde toda a eternidade), que a reunião afinal começou. Tomando a palavra, o senhor Martim Pererê, digníssimo representante dos seres imateriais, míticos e quiméricos, disse o seguinte: - Nobres companheiras e companheiros! Seguiu-se longa pausa, durante a qual olhou silenciosa e soturnamente em volta, de modo a abarcar todos os indivíduos de todos os tipos que, ansiosos, aguardavam suas magníficas declarações.

E foi exatamente isso o que ele fez, abrindo os braços em cruz, virando a cabeça rumo aos céus, e declarando com ardor e profundeza: - Tenho dito! Durante mais de uma hora a floresta pareceu insignificante diante do entusiasmo da multidão de bichos, que riam, choravam, se abraçavam e aplaudiam freneticamente. Sim, senhores, quanta sabedoria! Na verdade, é nos pequenos frascos que se guardam os grandes perfumes. Com certeza, é de pequeno que se torce o pepino. Mais do que nunca, a sabedoria dispensava circunlóquios e divagações infinitas. Sim, senhores, tudo estava dito - e a revolução redentora prestes a ser iniciada.

A MARCHA DOS CRUZADOS
Logo em seguida, tomaram a palavra a coruja- do-pau-oco, a cascavel-de-onze-anéis, a lontra-de-dentes-recurvos e o tatu-de-rabocruciforme, todos concordando, em profunda, solene e inequívoca unanimidade silenciosa, que nada precisava ser acrescentado ao que fora dito pelo nobre Martim Pererê. Restava executar a revolução. Foi o que fizeram, e imediatamente o fizeram.

Também telepaticamente, com Jeca Tatu à frente, partiram zunindo e, em pouco menos de dois segundos marcados no mais eletrônico e confiável dos relógios, desceram em Brasília, exatamente no Salão Dourado das Decisões- Por-Baixo-Dos-Panos que, como se sabe, é o local em que as mais importantes decisões nacionais partidárias e supra idem são tomadas em sessões solenes e secretas...

Ufa! Mas que frase enorme! Até o Word está chiando, com sua falta de humor. Bom, deixa pra lá. Desceram e ocuparam imediatamente as macias, felpudas e gostosas poltronas, expulsando a dentadas, unhadas e grunhidos os nobilíssimos senadores, deputados e amarra-cachorros presentes, que fugiram espavoridos pra Miami, Paris, Nova York, Londres, Roma, Caruaru, Juiz de Fora e Bocaiúva.

CONCLUINDO A REVOLUÇÃO
Todas as revoluções verdadeiras, e por isso mesmo nunca houve revolução verdadeira, são permanentes e sem dono. Mas essa, a dos bichos, conforme nos foi relatado por Jeca Tatu, até que deu certo. Pelo seguinte.

Mal chegados e empossados (ou refestelados, tanto faz), no mais nobre dos nobres ambientes nacionais, puseram-se os bichos a cochilar, coçar pulgas, catar piolhos e inúmeras outras atividades de igual ou até maior importância. E pronto. Sem deputado, senador e amarra-cachorro, tudo estava feito e bem feito, de modo que, feliz da vida e vitorioso, Jeca Tatu voltou pra casa.





O escritor SEBASTIÃO NUNES escreve no Magazine aos domingos.

Publicado em: 05/08/2007

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