Em 1344, o reverendo Richard de Bury, bispo de Durhan e chanceler do rei inglês Eduardo III, escreveu o primeiro tratado de amor aos livros. O título grego, "Philobiblon", que veio a dar nosso "bibliófilo", diz bem do conteúdo dessa litania apaixonada, em 20 capítulos curtos. Não se trata de obra-prima. Numa época em que a sabedoria se ocultava nos conventos, a Europa reaprendia a pensar - e a escrever - depois da ruína de Roma e da catastrófica decadência em que todo o Ocidente mergulhou durante séculos. Muito já se falou sobre a Idade Média como a Idade das Trevas. Não é bem verdade. É certo que o papado concentrou poderes extraordinários, inclusive de repressão a idéias novas. Também é certo que a civilização, no sentido de riqueza material, social e cultural, sofreu violenta retração. A sofisticação grecoromana foi substituída por multidões esfarrapadas e famintas, que assaltavam campos e burgos. Mas é também verdade que, especialmente entre árabes, hindus, chineses e os religiosos europeus (sem referir as avançadas civilizações ameríndias, mais tarde dizimadas pelos espanhóis), a cultura e a erudição livrescas continuaram vivas e em permanente efervescência. Na alta Idade Média o homem ocidental reaprendeu a refletir, a analisar e a deduzir, com os escolásticos e seus labirintos verbais. Foi um longo e doloroso trabalho de remontagem das engrenagens cerebrais, a partir de Platão e Aristóteles, que resultou, ao fim de extenuante e quase silencioso processo, na fulguração renascentista, a incipiente e vigorosa explosão de modernidade cujos relâmpagos e trovões chegaram até nós, e continuam a nos empurrar rumo ao futuro, o que de Bury adoraria saber.
AS DORES DO PARTO
Tenho acompanhado com curiosidade e impaciência a barulhenta polêmica provocada pelo livro virtual, surgido há pouquíssimo tempo, e que muitos já reivindicam como o inevitável sucessor do livro impresso. Será?
Voltando ao passado remoto e à Grécia antiga, o primeiro livro escrito pra ser lido mentalmente, e não em voz alta, foi a "História", de Heródoto, que data do século V a.C. Até então, os hábitos orais de pensamento e expressão predominavam, só lentamente cedendo lugar a manifestações escritas e "silenciosas". Foi uma mutação longa e difícil. Primeiro repetindo-se baixinho as palavras, depois apenas movendo os lábios, até que finalmente a leitura se fez puramente mental.
Nesse tempo, os livros eram únicos, coroados pela aura da individualidade. Em rolos de papiro ou pergaminho, bem diferentes dos que Gutenberg e a imprensa botaram em circulação, custavam caríssimo. A partir do século VIII, especialmente, tornaram-se obras de arte. Os sobreviventes, pois a imensa maioria se perdeu, estão hoje trancados a sete chaves nos mais importantes museus e bibliotecas do mundo. Reis e nobres pagavam fortunas por exemplares únicos, como o chamado "Evangelho de Otto III", que tem capa dourada coberta de dezenas de jóias, cercando minucioso baixo relevo em marfim. Mas já estavam transformados nos chamados códices, constituídos por folhas dobradas em cadernos, ou seja, quase os livros que existem hoje.
Tempos depois, no final do século XIX, o poeta inglês William Morris (1834-1896) ressuscitou o espírito pré-Gutenberg, criando a Kelmscott Press e imprimindo preciosas obras-primas, em que buscava recuperar, tipograficamente, a beleza dos manuscritos iluminados, como existiram nos tempos do bispo de Durhan. Embora impressos, parecem códices medievais e são também peças de museu hoje em dia.
VIRANDO AS PÁGINAS
Uma das críticas mais constantes ao livro virtual é a dificuldade de leitura. Um dos louvores mais freqüentes é o da facilidade de multiplicação de leitores. Todos têm razão. Não é fácil ler cem páginas na tela de um monitor, mesmo no famoso pdf, ou "passando" as páginas, com o mouse simulando o movimento dos dedos no canto superior, como em livros de papel, técnica recente que tem sido utilizada em diversas publicações virtuais. São livros "animados". Por outro lado, qualquer poeta, contista ou ensaísta pode ter sua obra publicada e literalmente jogada no espaço, disponibilizada para leitores de qualquer parte do mundo.
O problema parece ser outro. Nós, os que fomos criados na cultura livresca, estamos habituados ao ritual de abrir o livro físico, ler numa posição confortável, passar com as pontas dos dedos as páginas e, finalmente, fechar o volume. Mas tudo isso, exceto pelo brilho da tela e pelo inusitado dos movimentos, pode ser feito no computador. Para as novas gerações, as que se formarem e evoluírem diante das telas, tudo será mais fácil. Mas será mesmo?
O AMOR FACILITADO
Até a primeira metade do século XX raros autores chegavam a ter seu nome impresso na capa de um livro. Claro que já eram muito mais numerosos do que os autores gregos ou pré-renascentistas, mas não muito mais do que os escritores dos primórdios da imprensa. Já no século XVI vários deles tiveram duas ou mais edições de seus textos, com milhares de exemplares cada. Mas o problema básico sempre foi o custo das edições, que terminava privilegiando autores ricos ou com influência junto aos editores, ainda que não necessariamente os melhores.
Com a Internet tudo isso mudou. Quem quiser pairar nos espaços siderais não precisa pedir favor. Basta registrar um domínio.com, pagar R$ 30 pela exclusividade do nome, hospedar- se num provedor, contratar um web master - e pronto. Durante um ano inteiro - mas só um ano - será uma estrela nos céus literários.
SIM, MAS E DAÍ?
Real ou virtual o livro sobrevive. A mensagem é maior que o meio. Passamos das tabuinhas de argila ao papiro, ao pergaminho, ao papel de trapos e de polpa de madeira, numa longa cadeia de experimentação e aprendizado que durou 3.000 anos. No entanto, o problema fundamental persiste. Como fazer o livro, virtual ou real, chegar às mãos das incontáveis multidões de não-leitores, muitos dos quais odeiam livros?
O escritor SEBASTIÃO NUNES escreve no Magazine aos domingos.