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Guloseimas típicas de Minas, muitas feitas a base de milho, ainda sobrevivem na região do Alto Paranaíba

Hélvio
"Broas, pamonhas e biscoitinhos são alguns dos atrativos gastronômicos de Patos de Minas e entornos"
DELÍCIAS DO INTERIOR
Pela resistência das quitandas

LEO NORONHA
CRÍTICO DE GASTRONOMIA

Desaparecerão as quitandas, quando morrer a última avó quitandeira? Assusta-me o que tenho visto no interior do Estado. O rápido abandono da cozinha pela mulher ameaça a cultura culinária, entregue a franquias de lanchonete e bufês ordinários de comida a quilo. Aqui e ali, geralmente em ambientes mais humildes, como a casa de dona Teresa, perto da rodoviária de Patos de Minas, pode-se encontrar uma gostosura à moda antiga. A pelota na lata é um exemplo.

Almôndega sem molho, pretinha e crocante por fora, úmida por dentro, para comer com farinha e feijão amassado. Deve-se garimpar esse tipo de preciosidade, assuntando com motoristas de táxi, porteiros de hotel, frentistas de posto de gasolina.

Antes que me acusem de empedernido chauvinismo, aceno para a alternativa condizente com os novos tempos: o poder público investir fortemente na qualificação de mão-de-obra especializada, de modo a criar fontes de emprego e renda baseadas nas raízes históricas e no que há de gostoso para levar à mesa do turista. Prefeitos e vereadores, em vez de trocarem pé-de-moleque por asfalto nas vias históricas, apostem no franguinho caipira com quiabo de amanhã!

Patos de Minas ainda é privilegiada em matéria de broa de fubá, pão de queijo, biscoito de queijo e de polvilho... Humm, e as pamonhas!?
O queijo canastra é abundante na região e, bem feito, trata-se da variedade suprema de queijo Minas.

Pratinha, Campos Altos, Araxá, Ibiá e Patrocínio, entre as procedências mais recomendáveis, deviam unir-se para a criação de uma zona demarcada. O emprego do polvilho doce é outro dado primordial, assim como a ciência antiga, indígena, na lida com o milho. Tudo isso explica as quitandas imbatíveis do Alto Paranaíba.

O Triângulo e o Noroeste fazem coisas semelhantes, às vezes. Mas que horror o pão de queijo branco por fora e cinza por dentro, puxento, de polvilho azedo, provado nas bandas de Lagoa Dourada e São João Del Rey, ou na maior parte das padarias belo-horizontinas! A Zona da Mata, o Rio Doce, o Norte e o Sul de Minas, o Jequitinhonha nada entendem de pão de queijo. Não é sem razão que tem feito sucesso em Belo Horizonte o pão de queijo do supermercado Verde Mar.

Sabem quem forneceu a receita? A mãe de minha amiga Cristina Bicalho, lá do Carmo do Paranaíba...

Essas delícias vão se tornando raras. O Hotel Center Patos tem lá seus defeitos, agravados pelo preço abusivo. Seu maior mérito é servir quitutes soberbos na mesa de café da manhã, diferentemente do Hotel HZ, aliás, que não honra a tradição da cidade nesse quesito. O Milharal, um enorme estabelecimento próximo da prefeitura, apesar da pinta de fast food do milho, e a Pamonharia do Aguinaldo, na saída para Belo Horizonte, são referências seguras. O curau é delicioso, frio ou quente, mole ou duro. Mas a pamonha frita com recheio de lingüiça é campeoníssima.

Em matéria de restaurantes, Patos de Minas tem pouquíssimas alternativas. No Hotel Antares, a carta de vinhos supera a média interiorana, a preços razoáveis. O ambiente é agradável e o atendimento, cordial, embora um tanto desinformado sobre as sutilezas do cardápio. O melhor a fazer é evitá-las.

Não faça como eu, que ousei pedir sofrível perdiz, marinada em mel, gengibre e especiarias. Até a guarnição de arroz com castanhas e requeijão veio doce! O chef deve achar que é chique. E certamente não tem muita chance de ir além da prosaica picanha, paixão do sertão brasileiro. O quibe cru de carne de cordeiro, com molho de hortelã, estava gostoso. Já o pão árabe, nem tanto.

Em Paracatu, a empada é imbatível e peculiar. Massa fina, macia e delicada. Indefectível recheio de frango com azeitona, molhadinho e levemente apimentado. Como nas festinhas de aniversário da minha infância. Nunca achei nada igual em Belo Horizonte. E as de massa podre, por melhores que possam ser, ficam devendo.

Os restaurantes são ainda menos expressivos que em Patos. Melhor comer numa churrascaria ou embrenhar-se rumo a Guarda-Mor, para uma refeição na Pousada das Traíras, a 40 quilômetros, onde a enorme piscina de água natural, ao lado de uma vereda digna de Guimarães Rosa, abre o apetite para a comidinha caseira. O doce de leite da dona Tiana é magnífico e o pão de queijo, também!


Publicado em: 25/04/2008

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