Ser eleita como melhor cantora pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e indicada como revelação no Vídeo Music Brasil (da MTV) seria impossível para muitas cantoras brasileiras. Afinal, o que o primeiro prêmio tem de "conservador", o segundo tem de "pop". Entretanto, neste ano, um nome conseguiu reunir as duas eleições: Roberta Sá. A potiguar radicada no Rio de Janeiro, que se apresenta amanhã no Freegels Music Hall, só vê benefícios nesse seu bom trânsito entre as premiações, e não se incomoda por ainda ser considerada uma "revelação" na interativa premiação da MTV.
"Eu, com certeza, sou nova pra muita gente que acompanha o canal, pra faixa etária que a emissora atinge, afinal, foi só neste ano que lancei meu primeiro videoclipe. Fico satisfeita em ser lembrada pela MTV e por diversos outros prêmios, isso mostra que consigo ter aceitação em vários públicos", diz ela, que também já disputou o Prêmio Tim de Música Brasileira como melhor intérprete. Revelada para muitos após participar do programa "Fama", da Rede Globo, Roberta talvez seja hoje o nome mais reconhecido e elogiado de todos os que surgiram entre os participantes dos diversos programas que prometem descobrir o novo "ídolo" do Brasil (leia mais na página 2).
Mesmo com o destaque obtido após concorrer no programa global, a cantora ainda não havia decidido se encararia seu dom como ofício: "Foi durante o ‘Fama’ que comecei a pensar na real possibilidade de ser profissional, porque, até então, apesar de adorar cantar, não me imaginava levando isso como profissão. Tanto que voltei a estudar comunicação social quando o programa acabou." Por incentivo dos fãs e amigos, assim que saiu do confinamento da atração (edição que deu a vitória ao mineiro Marcos Vinícius) gravou um CD demo com cinco canções e o distribuiu em diversas gravadoras e entre amigos. Recebeu o retorno de Gilberto Braga (autor de novelas) que gostou de sua voz e pediu para que ela regravasse a canção "A Vizinha do Lado", de Dorival Caymmi, para ser tema de Juliana Paes em "Celebridade". "A partir daí é que realmente as coisas tomaram uma grande proporção e passei a levar o canto como meu trabalho mesmo."
Canções. No repertório de seus shows - que têm lotado espaços em diversas cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, além de reunir mais de 12 mil pessoas em sua apresentação em Natal, sua cidade de origem -, Roberta mescla músicas de seu primeiro CD, "Braseiro", com seu mais recente trabalho, "Que Belo Estranho Dia pra se Ter Alegria", que neste mês completa um ano de lançamento.
"Continuo trabalhando o ‘Que Belo Estranho...’ pelo prazer que ele me dá, pelo retorno positivo que me trouxe"comemora a cantora, autora de uma das faixas do segundo CD ("Jardins", ao lado do marido Pedro Luís, do grupo Pedro Luís e a Parede), mas que afirma ter preferência por buscar composições de outros nomes da música para integrar seu repertório: "Não quero ter CDs que só contemplem as minhas canções. Não pretendo ficar a cara das músicas, mas, sim, que elas estejam na minha frente."
Entre as músicas que interpreta, nomes da nova geração como Moreno Veloso e Marcelo Camelo estão ao lado de compositores consagrados como Carvalhinho, Paulinho da Viola e Dona Ivone Lara. Dos três últimos nomes, Roberta compartilha a imagem de sambista, alcunha que ganhou por parte do público e da crítica. Em vez de incomodar, o rótulo causa certa preocupação. "Me sinto privilegiada por ser taxada como sambista, mas não sou. Pra assumir isso, teria que saber muito do ritmo, coisa que ainda não sei.
Só fico pensativa por talvez muita gente não perceber o que é uma sambista de verdade e uma cantora que também cante samba, como é o meu caso", revela Roberta, que se diz "apaixonada" por cada uma das canções de seu repertório.
Retorno.Voltando à Belo Horizonte após mais de três anos de ausência, Roberta se diz entusiasmada por - além de atender ao pedido de inúmeros fãs da cidade que desejavam um show do novo CD - hoje dominar totalmente o palco, "lugar sagrado" para suas apresentações: "No começo tinha medo de cantar, não tomava conta tão bem do espaço. Acho que isso acontecia porque, pra mim, o palco não é um lugar qualquer. Você tem que saber se vestir pra ele, e não no sentido das roupas, mas da consciência que o público merece o seu melhor. E hoje acho que estou nesse patamar. Ou pelo menos tenho me esforçado muito para isso."
Agenda O que:Show de Roberta Sá Quando: Amanhã, a partir das 21h30 Onde: Av. do Contorno, 3239, Santa Efigênia - 3461 4000 Quanto: Ingressos do primeiro lote por R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Além de conquistar espaço e reconhecimento no Brasil, Roberta Sá tem buscado também o mercado internacional. Com "pouca pretensão" - como a cantora gosta de frisar -, ela acaba de retornar de Portugal, onde divulgou "Braseiro" e "Que Belo Estranho Dia para se Ter Alegria". que foram lançado por lá recentemente, agradando não só os brasileiros que estão em terras portuguesas, mas também estrangeiros admiradores da nossa música.
O próximo projeto da cantora é lançar seus trabalhos no Japão, onde tradicionalmente a MPB é bem recebida. "Estamos começando a construir algo lá fora, mas o Brasil é prioridade", conclui. (RS)
Dos shows para amigos e parentes ao estrelato. Essa é a expectativa da maioria dos participantes dos programas que anseiam revelar ao Brasil o novo ídolo da música. Atualmente, dois canais prometem a fama ao vencedor de suas disputas: a Rede TV! (com “Guaraná Antartica Sound”, aos domingos, 20h), e a Record (com “Ídolos”, às terças e quartas, 23h). Mas será que esses programas têm mesmo o “poder de fogo” de transformar um anônimo em um grande astro?
Leandro Lopes e Thaeme Mariôto, vencedores das duas primeiras edições de “Ídolos” (quando era produzido pelo SBT), não usufruíram tanto sucesso quanto esperavam. Leandro, que durante o programa interpretava canções pop, gravou um CD romântico e hoje é vocalista da banda de axé Rapazolla, confessa ter criado uma falsa imagem após ser nomeado o ganhador da disputa. “Todo mundo falava que eu estava feito, que não ia poder andar nas ruas. Você fica doido, acha que tudo vai ser muito fácil, e não é assim. O programa é uma parte.”
Para ele, que afirma estar feliz ao trocar de estilo musical, a grande dificuldade em sua carreira foi estar sozinho. “Carreira solo, eu acho que é mais difícil. Além disso, quando o programa acabou, as outras emissoras não me chamavam por causa dessa briga maluca entre elas, o que também me prejudicou.”
Já Thaeme, que trabalha seu primeiro CD, lançado pela Sony BMG, assume que não soube aproveitar tão bem a exposição que teve durante e após o programa. “Não posso negar que sou um produto da TV, então deveria ter usufruido melhor dos convites na época. Mas, infelizmente, fiquei esperando a gravadora fazer muitas coisas, o que eles não fizeram. Me deram um CD lindo, mas não trabalharam a divulgação.” Ela espera agora o fim de seu contrato com a Sony BMG para buscar o espaço perdido.
Nem mesmo Vanessa Jackson, que foi vencedora da primeira edição do “Fama” (na Globo), conseguiu tanto sucesso quanto o título do programa sugeria. “Quando acabou eu tive muito destaque, fui em vários programas da emissora, mas ao encerrar o contrato, é como começar do zero, embora o reconhecimento que o programa me deu tenha me ajudado muito”, diz a cantora que, atualmente, se divide entre a produção do terceiro CD e os ensaios para uma peça teatral. Para Marco Camargo – que produz Xuxa e Ivete Sangalo –, jurado do programa da Record, o ganhador pode, sim, chegar a ser um grande nome da nossa música. “É preciso uma junção de interesses entre cantor e produção para que dê certo, além da colaboração da emissora que lança o concurso para divulgar o vencedor em toda a grade do canal”.
Um dos poucos nomes que conseguiu destaque entre os participantes desse tipo de programa, Roberta Sá aconselha, antes de tudo, o aspirante a cantor a ter clareza sobre o que quer fazer na carreira. “Não dá pra você pautar a sua carreira apenas pelo programa. Se você não buscar o que acredita e gosta para interpretar, não adianta, nada vai pra frente”, diz a cantora.