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 História de caminhoneiro. Entre as influências de Mesmo Delivery está o cinema de Sam Peckinpah FOTO: Desiderata/Divulgação |
| História de caminhoneiro. Entre as influências de Mesmo Delivery está o cinema de Sam Peckinpah |
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MagazineQuadrinhos. Rafael Grampá lança sua primeira história em quadrinhos, "Mesmo Delivery", depois de vencer o Eisner Awards
Em busca do traço próprio
Mariana Mól
Especial para O Tempo
O quadrinhista Rafael Grampá acaba de entrar para a história dos quadrinhos brasileiros. Em parceria com a dupla de irmãos paulistas Gabriel Bá e Fábio Moon, da norte-americana Becky Cloonan e do grego Vasilis Lolos, Grampá é um dos autores da HQ "5", que venceu o Eisner Awards 2008 na categoria Melhor Antologia.
O Eisner é o maior prêmio da indústria dos quadrinhos nos EUA. Embora brasileiros já tivessem recebido indicações, esta é a primeira vez que artistas do país saem ganhadores.
Grampá começou a desenhar aos três anos de idade em sua cidade natal, Cachoeirinhas (RS).
"Quando moleque lia Mônica e Disney, como toda criança. Mas, na verdade, me interessavam mais aqueles desenhos de porta de loja, como sorvetes com rosto, bonecos e personagens fofinhos", conta Grampá, que também assume o fato de seu primeiro desenho ter sido provavelmente o de um picolé sorridente que estampava a entrada da Sorveteria Esquimó, em Cachoeirinhas.
Sobre quando se deu sua entrada no universo das histórias em quadrinhos, Grampá diz não saber precisar muito bem. "Quando me perguntavam o queria ser quando crescer, sempre respondi: desenhista."
O quadrinhista diz que se aventurava por outras histórias, mas manteve ao longo da trajetória o desejo de criar as suas próprias histórias e o seu próprio traço para os personagens.
Apesar de gostar de desenhar, Grampá nunca cursou aulas de arte. Depois de realizar alguns trabalhos de ilustração para empresas e de trabalhar como diretor de arte na RBS-TV, em Porto Alegre, mudou-se para São Paulo em 2003. No estúdio Lobo, atuou como diretor de arte e criou peças para empresas como Cartoon Network, Nickelodeon, Coca-Cola, Diesel, dentre outras. A decisão efetiva pelas HQs foi recente.
Na ocasião de um trabalho na Lobo, conheceu os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon, que já mexiam com quadrinhos. Depois de mostrar alguns de seus desenhos, Grampá recebeu o incentivo que precisava para começar a escrever e desenhar as próprias histórias.
Coletivo. Sobre ter vencido o Eisner naquela que pode ser considerada sua estréia profissional nos quadrinhos, Grampá diz estar realmente surpreso e "felizão". "Para ser muito sincero, o prêmio Eisner foi inesperado. Achava que devia demorar mais, sabe?", tenta explicar. Grampá diz que receber um prêmio tão importante é um orgulho para sua carreira profissional. "Imagina você lançar a sua primeira HQ com um pedigree desses?!", exalta.
O quadrinhista destaca que "5" foi uma criação coletiva, e a sua participação individual no trabalho se deu nos desenhos das capas que ligavam as histórias realizadas pelos outros quatro integrantes. "Foi uma produção entre amigos. Apesar de não conhecer pessoalmente a Becky e o Vasilis, fizemos tudo por meio do MSN. Uma história feita pelo desejo de realizar algo juntos e pela paixão aos quadrinhos."
Ele credita o mérito do trabalho ao "young blood" do grupo. "Acho que os norte-americanos viram sangue novo, independente. Não tínhamos uma grande editora, não somos tão conhecidos lá e, como nos EUA a indústria dos quadrinhos já está saturada, acho que eles reconheceram o nosso trabalho pela novidade".
Nas bancas. Aos 30 anos, Grampá acaba de lançar sua primeira graphic novel (edição de luxo), "Mesmo Delivery". O lançamento aconteceu primeiro nos EUA, na San Diego Comic Con 2008, pela AD House Books - mesma editora que publica os livros de arte de Paul Pope e a série "Process Recess", de James Jean.
No Brasil, "Mesmo Delivery" será lançada pela editora Desiderata, em outubro. Nas próprias palavras de Grampá, a HQ é um "road thriller". Ele pegou influências de sua infância e colocou " para fora". "Até mesmo para que outras surjam", explica.
Entre as referências estão o seriado de TV "Além da Imaginação" e as brincadeiras de caminhoneiro que tinha quando criança.
Agora depois do Eisner, Grampá conta que novas oportunidades estão surgindo. "Vou ilustrar uma das histórias de Constantine, do Alan Moore. E um dos compradores da Mesmo Delivery lá nos EUA foi o Mike Mignola, criador do Hellboy, que disse adorar o meu trabalho."
"Mesmo Delivery" será adaptado para o cinema
Mariana Mól
Especial para O Tempo
A primeira graphic novel criada por Rafael Grampá, “Mesmo Delivery”, teve os direitos vendidos ao produtor Rodrigo Teixeira, que pretende levar a história para o cinema. Quem apresentou Grampá a Teixeira foi o escritor Joca Reiners Terron, que conheceu o gaúcho por meio de seu blog (furrywater.wordpress. com).
A trajetória de um caminhoneiro transportando uma carga misteriosa que não pode ser aberta é narrada com boas doses de suspense e ação. Para Grampá, o trabalho está muito influenciado pelo cinema. “Sou um cinéfilo e, para as histórias em quadrinhos, os bons filmes que eu vejo me influenciam também”.
O gaúcho conta que entre suas influências cinematográficas estão Quentin Tarantino, Brian de Palma (“um mestre”) e o maior de todos para ele: o italiano Sergio Leone. “Bebo nas fontes do design, motion graphics, essas coisas me influenciam bem mais do que quadrinho em si. No cinema gosto de muita coisa, mas uma coisa é clara: Sergio Leone em ‘Era Uma Vez na América’ não tem nada a se comentar. É simplesmente maravilhoso. Não consigo dizer um filme melhor que esse até hoje.”
Sobre a adaptação de “Mesmo Delivery” ao cinema, Grampá diz estar muito contente pelo interesse de Teixeira, que também produziu o filme “O Cheiro do Ralo”, inspirado nos quadrinhos de Lourenço Mutarelli. “Acho que essa história de levar as histórias em quadrinhos para o cinema é um reflexo de Hollywood, meio uma moda mesmo, mas ainda assim acho que fizeram filmes muito bacanas.”
Nas telas. De acordo com Grampá, a transposição da linguagem dos quadrinhos para a do cinema não é motivo de preocupação. “Não ligo para essas coisas de o filme colocar o mesmo detalhe que estava na HQ. O que me interessa é se o diretor vai saber contar uma boa história, como em ‘OldBoy’ ou no novo ‘Batman’”.
Outra conseqüência do trabalho relacionado à sétima arte é que Grampá também vai estrear em breve no cinema. Ele será desenhista de produção de “O Dobro de Cinco”, mais uma adaptação de Lourenço Mutarelli.
Publicado em: 22/09/2008