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FOTO: Rodrigo Clemente
Magazine » Entrevista de domingo

Entrevista. Por dentro do Move Berlim
Wagner Carvalho ator, bailarino e criador do festival "Move Berlim"
Mineiro de Belo Horizonte, Wagner Carvalho trafega entre as culturas brasileira e alemã, desde a época de estudante. Idealizador e diretor artístico do Move Berlim, único festival de dança contemporânea brasileira na Alemanha, com edições bienais, ele está,desde o início do mês, no Brasil selecionando grupos para a programação de 2009.
MARIANA MÓL

Você é ator e sua formação começou em Belo Horizonte. Como foi parar na Alemanha?

Nasci em Belo Horizonte, em 1966, e, na infância, me mudei para Santa Luzia. Comecei no teatro aos 12 anos, dentro de um processo muito engajado e político com o Teatro do Oprimido, no final dos anos 70, com o espetáculo "Lupo - Lutas Populares". Aos 19, já era profissional. Atuei no movimento sindical e fui coordenador artístico do NET, antes de ir para a Europa. Fiz balé clássico no Centro Mineiro, dança contemporânea no Cefar, e afro-brasileira com Marlene Silva. Minha formação é bem diversa e, em 1987, ganhei uma bolsa do Instituto Goethe para aprender alemão e fiz intercâmbio na Alemanha. Retornei a Belo Horizonte e, na década de 90, voltei para Berlim.

E, agora, está de volta para produzir a programação do Move Berlim?

Estou no Brasil para realizar a programação da quarta edição do Move Berlim, que acontecerá de 16 a 26 de abril de 2009, na Alemanha. Cheguei este mês e já passei pelo Rio de Janeiro, Ipatinga e Juiz de Fora. Aqui, vivo um processo cotidiano de ir a ensaios, assistir a espetáculos e dialogar com as instituições e órgãos culturais que ensinam dança no Brasil.

E o que viu aqui na cidade?

Vi o Balé Jovem do Palácio das Artes, a Mimulus Cia. de Dança, o 1º Ato, o novo espetáculo do Movasse, o ensaio do Grupo Camaleão. Conversei com Arnaldo Alvarenga sobre sua pesquisa acerca da história da dança e do Klauss Vianna. Voltei ao NET para rever os colegas antes de seguir viagem, que acaba em novembro, para os outros Estados.

Como o festival surgiu?

Sou o idealizador, criador e diretor artístico do festival, que surgiu quando estudava ciências centrais na Freie Universtität Berlin (Universidade Livre de Berlim), de 1996 a 2001. Nos processos dos estudos, ficava muito insatisfeito com a forma com que o Brasil era apresentado, principalmente a dança contemporânea, que sempre era tratada com clichês e jargões. Além da concentração de informações do eixo Rio-São Paulo. E, poxa, nasci na Santa Casa de Misericórdia de Santa Efigênia, e sei que Belo Horizonte é um grande centro de manifestações culturais, seja na dança, teatro, música, artes plásticas ou literatura. Sempre falava isso para eles. Um dia, um dos meus professores, o Björn Dirk Schlüter - que era diretor artístico do Teatro Hallesches Ufer e agora é meu parceiro na direção do festival - me disse: "faça alguma coisa, que eu tenho o teatro!". Aí comecei a falar que a partir da metade da década de 90, o Brasil tinha uma cena contemporânea de dança, acentuava os aspectos teóricos e falava sobre o Klauss Vianna. Até que ouvi de uma série de pessoas: "Se fizer algo, te daremos apoio". Daí, calei a boca e passei três anos e meio preparando o primeiro.

Daí começou o trabalho de verdade?

Passei a conversar com mundos e fundos em Berlim e no Brasil. Batia nas portas mesmo, para falar sobre a idéia e aí fizemos o primeiro Move Berlim em 2003. Foi um trabalho de grão em grão, com apoios da Alemanha e do Brasil.

E Como foi a primeira edição?

O festival foi aberto com o espetáculo "Coreografia pra Ouvir", da Quasar, que impactou todas as pessoas: profissionais, jornalistas e também o público leigo. Aquela linguagem e estética desenvolvidas por eles com as músicas de rua mexeu mesmo com todo mundo. A partir dessa estréia, o festival teve um crescimento que foi impressionante. Ao final, as pessoas que diziam que não conseguiria realizar um festival de dança contemporânea brasileira em Berlim já me perguntavam da próxima edição.

O impacto, então, gerou uma expectativa?

Uma enorme expectativa e curiosidade. Depois da Quasar, o festival não tinha mais nenhum ingresso para outras atrações. Isso foi muito positivo, porque nos deu poder de fogo para negociar as outras edições.

O festival também pensa no trabalho inverso: trazer alemães para o Brasil?

A partir da presença dos grupos brasileiros em Berlim, fazemos o intercâmbio dos artistas berlinenses para o Brasil. Os primeiros foram a Cena 11, de Florianópolis, que selecionou três bailarinos berlinenses e, juntos, no Brasil, criaram o espetáculo "Skinnerbox", que estreou na Alemanha em 2005. A idéia do Move Berlim é, sempre que possível, fazer com que um grupo que tenha participado do festival volte à Berlim e tenha alguma possibilidade de troca mais profunda com os alemães. Isso dinamiza a relação entre os dois países e possibilita que o próprio público berlinense se aproxime da linguagem que foi apresentada e demonstra o desenvolvimento das companhias.

Quais são os critérios de seleção dos grupos para o festival?

O festival trabalha com a idéia de descentralização do eixo Rio-São Paulo. Porque reconhecemos que o Brasil é um país de tamanho continental e que é diverso. Dentro desse aspecto, nós colocamos em questão a mudança do foco do olhar do público berlinense, do crítico. O segundo eixo do nosso trabalho é a pluralidade e a diversidade, que privilegiamos na seleção dos grupos. A palavra é complexa, mas o Brasil é isso: diversidade.

O Move Berlim é uma referência da atual dança contemporânea brasileira?

O nosso festival mostra as potencialidades do Brasil. No cotidiano em Berlim, quando se fala de dança contemporânea brasileira, todos têm o Move Berlim como exemplo, assim como tudo o que passou pelo festival virou referência das possibilidades da dança no Brasil. O festival é uma possibilidade de compreensão das linguagens, das culturas, porque você tem um contato direto com as pessoas que estão em produção no Brasil e a troca de idéias é real.

A Alemanha é uma das pioneiras na dança contemporânea. Por sua experiência, o Brasil está em que patamar?

O Brasil é ponta. No sentido da possibilidade de experimentar e por não ter receio de ser patético. Existe uma expressão em alemão, "não perca a sua cara", que quer dizer: não se torne patético, não demonstre sentimento. A sociedade alemã foi construída nesse aspecto de contenção, e, de repente, chega um trabalho brasileiro que coloca o sentimento em primeira instância. Não num jorro de emoções que levam ao melodrama, nem é nada gratuito. É a manifestação emocional como conseqüência e profundidade que encanta e emociona todo mundo. O meu papel, então, é propor o entendimento das diferenças entre essas duas culturas.

Qual é o nosso diferencial?

Um aspecto que acho muito marcante na dança contemporânea no Brasil é o fato dela dialogar com o clássico, o contemporâneo, a capoeira e as várias linguagens regionais que estão inseridas nos contextos de cada companhia. Isso torna o Brasil múltiplo e único. Além de uma competência corporal e técnica que é impressionante. É singular sendo plural. E posso te dizer com conhecimento que a dança contemporânea hoje na Alemanha passa por uma crise, que não sabe pra onde vai.

Publicado em: 28/09/2008



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