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Opinião » Entre Aspas

A mão invisível do mercado
Haroldo Santiago
Pesquisador em filosofia - harolsan@ig.com.br

As atuais intervenções marcam uma mudança considerável de atitude dos governos em relação aos mercados. Elas variam de país para país, mas apresentam três elementos centrais: a) o Estado vai investir nas instituições financeiras; b) as garantias governamentais aos depósitos bancários foram ampliadas; e c) estão sendo feitas provisões para sustentar as atividades creditícias.

Todavia, alguns executivos dos bancos sob intervenção estão aproveitando o desafogo para antecipar suas aposentadorias milionárias. Se a questão é eticamente condenável, ela está respaldada nos contratos firmados no passado e que garantem tais direitos. Isso nos obriga a criticar a noção de "mão invisível" tal como foi elaborada pelo pai do liberalismo financeiro, Adam Smith (1723 - 1790).

"Mão invisível" é o termo criado por Smith para a habilidade que os mercados livres têm de alocar de forma favorável os fatores de produção. Se todo ato tiver como interesse o lucro, a economia nacional será mais eficiente do que se obedecesse a propósitos políticos.
Realmente, em "Riqueza das Nações", está escrito: dirigindo seus interesses a fim de obter as maiores vantagens, "o empresário pensa em seu próprio lucro; nesse caso, ele é conduzido por uma mão invisível para alcançar um fim que não está em absoluto nas suas intenções". Ou seja, os seres humanos egoístas são freqüentemente levados por uma mão invisível, sem que o saibam e sem que tenham essa intenção, a promover o interesse da sociedade.
A economia liberal trabalha com duas hipóteses, ambas buscando desqualificar o controle do Estado sobre o mercado: a) A alocação ótima de recursos escassos em relação a interesses alternativos. Uma qualidade que ela vê nos mercados é o elemento de racionalidade que introduz na vida econômica. Daí a identificação da análise econômica com toda conduta racional: e b) No mercado se dá a concorrência perfeita. A busca da maior lucratividade fará com que no médio prazo haja equilíbrio entre oferta e procura.

Contrariamente, o momento atual tem reafirmado uma postura da economia política clássica: o egoísmo do homem econômico é de natureza ética, mas seus excessos precisam ser controlados pela política. O caso é que os empresários vêem-se enredados em duas situações involuntárias: o involuntário dos acidentes que podem lhe suceder e o involuntário do prejuízo que eles produzem para os outros sem que o tenham pretendido. Estamos vivendo situações em que o pretenso caráter positivo da racionalidade empresarial escapou aos seus cálculos.

Se é impossível governar sem ouvir os empresários, é inaceitável sobrepor seus interesses particulares aos coletivos. Sendo assim, devemos considerar que nos Estados democráticos a soberania é do povo e não se deve permitir que os dirigentes econômicos passem por cima dessa soberania.

Ou seja, a economia privada deve retornar à posição secundária em relação às políticas públicas. 



Trabalho aviltado
José Avilmar L. da Silva
Diretor da Associação de Ginecologistas e Obstetras de MG

O atual modelo dos sistemas de saúde no Brasil tem sido alvo constante de críticas, seja pelos usuários, seja pelos próprios médicos, cujo trabalho é desvalorizado com o pagamento de remuneração defasada. No caso do ginecologista e obstetra, depois de seis anos de faculdade em tempo integral, mais três de especialização e, às vezes, dois a quatro de mestrado e/ou doutorado, restam míseros R$ 2,40 por consulta médica pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Pelo convênio, não é muito diferente. Os profissionais realizam consultas com duração de 40 minutos, trabalhando oito horas por dia e cinco dias por semana, e ainda assim, no final do mês, o valor recebido dos convênios é inferior às despesas do consultório. Assim, os médicos acabam pagando para trabalhar.

Esta realidade levou a Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais a lançar uma campanha pela valorização da categoria que vai ao ar no Dia do Ginecologista, comemorado hoje. É um começo, só um começo. A luta não deve ser somente do profissional, mas também de toda a sociedade. Afinal, é ela a parte mais fraca e prejudicada na situação. A população precisa exigir que o seu direito de atendimento médico seja respeitado.

Em relação à saúde pública, o ideal é eleger representantes que realmente estejam empenhados em proporcionar melhores condições de trabalho e remuneração digna para os médicos e os demais trabalhadores da saúde.

O paciente do SUS pode e deve exigir que o atendimento seja realizado por um médico e não por outros profissionais da área, que, muitas vezes, têm ocupado o espaço ou até substituído o médico. Atualmente, mais de mil municípios brasileiros não possuem serviço médico profissional e os especialistas disponíveis, aos poucos, têm deixado de atender pelo SUS. Isto reflete o descaso com que a categoria tem sido tratada pelos dirigentes do Brasil.

É por isso que todos nós devemos fiscalizar para que o dinheiro destinado à saúde não seja desviado.

No sistema de saúde suplementar, ao adquirir um plano, população e empresa devem priorizar aqueles que valorizam seus parceiros (médicos, clínicas, hospitais) e não somente levar em consideração o fato de ser mais barato ou caro. Trata-se de calcular melhor o custo/benefício. Um conselho: sempre desconfie de quem oferece muito e cobra pouco. Esses quase nunca cumprem o prometido e, quando cumprem, retiram sua margem de lucro do honorário médico.

Nessas circunstâncias, é provável que o profissional esteja insatisfeito e preste um atendimento que deixe a desejar, ou diminua o tempo de consulta para aumentar o número de pacientes. Algo impensável para a maioria dos ginecologistas ou obstetras.

O barato, então, acaba saindo muito mais caro. Sem atendimento de qualidade, é impossível que a população tenha uma saúde digna. Os médicos, por sua vez, querem ser parceiros do sistema de saúde e não mais se sentirem explorados.



Crise psicológica?
Arthur Virgílio
Senador (AM) e líder do PSDB - arycmribeiro@hotmail.com

Estava me lembrando do tempo em que o Brasil recebeu seu segundo investment grade e se projetavam mudanças para 2009, com dados que ainda são positivos, mas que precisam ser analisados porque as previsões são mais sombrias, se olharmos com clareza o quadro que se desenha à nossa frente.

Suponho que certos indicadores serão rebaixados em decorrência de análises concretas e conscientes que serão feitas. Os dados relacionados ao mercado financeiro já evidenciam deterioração, apesar do que disse o ministro Guido Mantega, de que essa crise só tem efeito psicológico. Não é hora de quem quer que seja, no governo, brincar com a crise. O presidente Lula não pode mais dizer que é uma marolinha, porque é um tsunami. Seus efeitos começam a se fazer sentir no país.

As bolsas tiveram queda de mais de 58% desde a máxima do dia 20 de maio, quando o Índice Bovespa atingiu 73.500 pontos. Juros futuros: alta de 22,8%. Contrato de janeiro de 2010, o mais negociado, projetava taxa de 13,07% para 30 de maio daquele ano. Ela já está em 16,04%. O risco-país, que estava em 178 pontos em maio, sofreu alta de 216%. Está em torno de 560 pontos, basis points.

Muito bem. Temos, agora, os dados recentes da balança comercial. De janeiro a outubro, o superávit foi de US$ 20,4 bilhões, quase 50% menor do que o total do ano passado, que foi de US$ 40 bilhões. Se juntarmos a isso o fato de que há um déficit pesado em transações correntes, com a expectativa de que possa ser, na pior das hipóteses – torço para que não seja isso –, superávit zero de balança comercial em 2009, estaremos diante de um quadro complicado, ainda mais agravado pela crise fiscal.

Venho aborrecendo meus colegas no Senado ao advertir para o excesso de gastos de custeio. Semearam e agora está aí a colheita tormentosa: crise fiscal que só agravará o cenário brasileiro.

O governo costuma dizer que o Brasil tem reserva de US$ 200 bilhões, como se isso resolvesse todos os problemas do mundo: está com dor de cabeça, então tem reserva; está sentindo cólica, tem reserva. Reserva virou panacéia. Essas reservas não foram criação brasileira. Os países emergentes aproveitaram o período de bonança e também as reforçaram. A Rússia acumulou US$ 1 trilhão. Não obstante, há dias foi colocada em posição de outlook negativo pela Standard & Poor’s. Pode vir a ser rebaixada em função da crise financeira.

Quando reinava a euforia com o grau de investimento, eu dizia que o país tivera avanço, mas isso não significava que estivesse livre de retrocesso se não consertasse a parte fiscal. O governo encantava-se com a idéia de criação de um Fundo Soberano e eu dizia que era tolice pensar nisso com as contas que o Brasil apresenta e sem ter em mãos o petróleo do pré-sal. Agora o governo já percebe a tolice.

Enfim, não acho bom ter estado certo. Preferia que estivesse errado. Mas os fatos estão aí. Tempos duros estão vindo. E não são simplesmente psicológicos.

Publicado em: 30/10/2008



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