Cristiana Guerra transforma em livro o blog que criou para apresentar a Francisco o pai que morreu antes de ele nascer FOTO: Fotos divulgação
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Um livro sobre o amor e a falta
Michele Borges da Costa
Cris e Gui tinham muitos planos. Ele iria pintar o quarto do filho que crescia na barriga dela. Ela escolheria as cortinas. Tirariam fotos quase que diárias para registrar aquele milagre. Sempre que pudesse, ele passaria um tempo na cozinha, preparando afagos para os mais queridos. Ela ficaria por conta das piadas. Aos sábados, comeriam feijoada no Baltazar. E haveria presentes fora de hora, jantares a dois, e-mails carregados de carinho.
Depois que Francisco nascesse, ele o faria dormir, ela o acordaria com beijos. Iriam fazer uma viagem de navio, providenciar uma cota do clube, construir uma casa na Serra do Cipó. E um dia, comprariam uma casinha bem bonitinha para reformar e morar. Ficariam velhinhos nela, mas dançariam no meio da sala até que as pernas agüentassem.
Francisco nasceu no dia 21 de março de 2007, dois meses depois da morte de Gui.
Para dar conta do que sentia, Cristiana Guerra começou a escrever. Tinha uma urgência em falar para o Francisco sobre o seu pai. Tinha medo de esquecer. Mas fez isso da maneira como costuma levar a vida, sem pudor em se mostrar, e criou um blog. "Eu queria falar com meu filho, mas também precisava gritar para o mundo o tamanho da dor que estava sentindo", conta Cris (ela prefere ser chamada assim) durante uma conversa sem cerimônias na última terça-feira.
"Para Francisco", o blog, nasceu no dia 17 de julho de 2007: dois anos depois que Cris e Gui (ambos publicitários) começaram a namorar, um ano depois que ela descobriu a gravidez, seis meses depois que ele morreu. "Foi um processo curativo não planejado, mas perfeito. Encontrei uma maneira de manter o Gui vivo e, ao mesmo tempo, confrontar a dor que eu sentia". Cris só não previa que encontraria eco em tanta gente. Não é raro encontrar entre os comentários relatos de quem leu o blog compulsivamente, "com o coração apertado, com os olhos cheios d’água", como escreveu Carolina Arêas. Assim, os textos visitados por mais de 2.000 pessoas diariamente viraram notícia nas páginas dos jornais e revistas, ganharam matéria na televisão e chamaram a atenção dos editores de livros.
Este mês, "Para Francisco" chega às livrarias. Com 192 páginas, traz boa parte do que foi postado na internet, alguns textos inéditos e uma carta para Guilherme, "escrita de uma vez só", como conta Cris. Ele mantém o formato do blog, com cartas que funcionam sozinhas como retratos de uma memória afetiva ou que podem ser lidas como peças de um quebra-cabeça sobre o amor e a falta. "Não podia perder o aspecto espontâneo do blog, queria respeitar o sentimento que existia no momento em que escrevia cada um daqueles textos", diz.
Sobre o que há de novo para quem já acompanha o "Para Francisco", Cris explica que são textos que existiam como esboço e que não tinham virado post. Depois que recebeu o convite da editora Arx, guardou uma coisa ou outra, mas nada que fosse urgente ser dito. "Não trairia Francisco em nome de um livro." Sua maior preocupação na hora de escolher o que pôr, o que tirar, foi contar uma história que fizesse sentido "para quem está chegando."
Sem ainda ter certeza de quem será seu novo público, ela confia que encontrará leitores que não têm o hábito (ou paciência) de navegar na internet. E aos 38 anos, Cris tem certeza que começou uma nova profissão. "Sei que vou continuar escrevendo. É claro que é um aprendizado, mas estou exercitando."
Costuma ser assim: alguém indica o blog, você resolve dar uma olhada e, quase que imediatamente, percebe que nunca mais será o mesmo. Aconteceu comigo, aconteceu com Pedro Silveira, que produziu as fotos desta matéria, aconteceu com um bocado de gente que foi parar no "Para Francisco" comovido pela história triste e acabou encontrando mais que isso. É que é difícil sair ileso dos textos de Cristiana Guerra, ou Cris, ou Pequena. E vai ser difícil encontrar prateleira para o livro que será lançado em Belo Horizonte terça-feira: auto-ajuda, memória, história de amor? Vai depender de quem lê.
Está certo que os ingredientes são dignos de um choroso dramalhão. A perda de Gui foi a mais recente na vida de Cris. Antes, ela perdeu a avó que era amiga e que dava colo. Antes ainda, sofreu dois abortos e imaginava que ser mãe não era para ela. Só que para começar, ela perdeu pai e mãe. Se Cris quisesse ter feito de seus dias um vale de lágrimas, estava mais que justificado, mas o que ela vê é uma "vida cheia de detalhes interessantes, uma história de renascimento e um ânimo gigante para continuar". É claro que tem textos tristes de doer, mas também tem muito humor, um tanto de otimismo e um jeito leve de vasculhar as lembranças.
Quem for atraído pelo enredo precisa saber que livro e blog têm outras armadilhas. Sem mais nem menos, você se pega com saudades do Gui. "É que ele realmente era uma pessoa muito especial. Ele fez diferença na vida de todo mundo por qual passou", diz Cris. Os trechos inéditos que estão na versão impressa revelam muito sobre a relação que os dois tinham. Se ficar juntos não foi simples, Gui e Cris eram donos de uma afinidade difícil de ser encontrada.
De fora, ela preferiu deixar os textos de que alguma forma explicavam como Gui morreu. "Eu queria focar mais em quem ele era do que em como ele foi". (Aos curiosos, a morte súbita em uma manhã ensolarada não foi esclarecida nem pelos médicos). Mas estão lá os e-mails, algumas letras de música, as fotos da barriga crescendo tiradas em frente à imagem dos pais de Cris (assista ao vídeo em www.otempo.com.br).
Independente de rótulos, o que Cris escreve é de uma lindeza incontestável. Porque é simples, mesmo quando profundo; porque é delicado, mesmo quando doído. E, além de tudo, esconde preciosos mapas. Se o blog ajuda a encontrar saídas vida afora, a sina do livro parece ser a mesma. O que impressiona é a transparência com que a moça se apresenta. A arte da Cris é ser ela mesma. E ela são muitas.
Agenda o que: Lançamento de "Para Francisco", de Cristiana Guerra Quando: Dia 18, às 20h. Onde: Botica (rua Pouso Alto, 106, Serra)
Sem saída
"É assim todo dia. Toda vez que ouço a sirene de uma ambulância. Sentada ao volante do carro, parado ou não, ao ouvir uma sirene me lembro daquela que eu sabia ser em vão. De uma reação que não pensa, não raciocina, de um impulso que só faz correr para salvar. Lembro dessa burrice bonita de que é feita a última esperança. Eu me lembro de insistir em não acreditar no que meus olhos gritavam para eu ver. Lembro de um buraco na porta, de uma porta que era só uma das coisas que naquele momento me separavam dele. Lembro de finalmente conhecer o que seria capaz de nos separar, o que seria capaz de me fazer desistir dele. Eu me lembro de lembrar do medo e, então, tudo fazer sentido... Eu me lembro de não entender. E de ter a certeza de que ele não estava mais ali. Entre mim e seu pai, a vida. A morte. Entre você e seu pai, eu."