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FOTO: Paulo Lacerda/divulgação
Magazine

Lúcia Camargo. Presidente da fundação Clóvis Salgado
O Palácio na cesta básica
Quando 2009 chegar, serão completados dois anos que a curitibana Lúcia Camargo assumiu o posto de presidente da Fundação Clóvis Salgado (FCS). Em sua gestão, deu continuidade a projetos já bem-sucedidos, como o Teatroencontro.com, e bancou novas ações como a abertura do Palácio das Artes aos domingos. Com uma trajetória que abarca a diretoria de órgãos culturais como o Teatro Municipal de São Paulo e a curadoria do Festival de Teatro de Curitiba, ela faz um balanço de sua gestão e fala sobre a cena cultural mineira na entrevista abaixo.
SORAYA BELUSI

Que avaliação a senhora faz da sua gestão nestes dois anos?

Assumi o cargo, na verdade, já em meio a uma gestão, que estava sendo feita pelo Chico Pelúcio. Nesse sentido, procuramos dar continuidade aos projetos que já estavam sendo implementados, como o Teatroencontro.com. E ao mesmo tempo procuramos reforçar outras questões. Um exemplo disso é o projeto Terças Poéticas, que ganhou uma vestimenta que não tinha anteriormente, com um espaço com cadeiras para receber o público, e trouxemos pessoas bem bacanas para trocar com os artistas daqui. Nosso pensamento é que quando se junta coisa boa com coisa boa, os dois lados saem ganhando. E ainda trouxemos exposições em vários suportes, como as do Gringo Cardia, o acervo do Roberto Marinho, Niemeyer e Brennand.

E para 2009? Qual é o planejamento?

Para o próximo ano, a pedido da comissão que está preparando o Ano da França no Brasil, estamos voltando nossa programação para essa conexão. O evento, se não me engano, começa no dia 21 de abril e vai até 15 de novembro. Já estão confirmadas grandes ações, principalmente na área de artes plásticas. Vamos trazer a exposição "Pax De Deux", que é uma mostra das obras de Camille Claudel e Rodin quando eles viviam juntos. E fiquei muito feliz quando estive na França para conhecer o acervo e a responsável me perguntou se eu era a presidente do Palácio das Artes. Ela ainda perguntou ‘é aquele que fica no meio da floresta?’. Tenho pra mim que será um momento muito rico essa oficialização do intercâmbio que já acontece entre França e Brasil. E, além disso, apostamos na circulação dos nossos corpos artísticos que, neste ano, visitaram 300 cidades, 90 a mais que no ano passado.

Que conquistas a senhora acredita ter feito e o que ainda não foi possível fazer?

Abrir o Palácio das Artes aos domingos foi uma luta nossa. E provamos que ele fica ‘incólume’. Partimos do princípio de que o Palácio tem de estar próximo do ponto de encontro das pessoas. Já conseguimos fazer essa abertura em 2008 duas vezes por semana, e queremos ampliar para todos os domingos, mas isso vai depender dos nossos apoiadores. E a outra meta é fazer com que, cada vez mais, o Palácio das Artes faça parte da cesta básica do belo-horizontino. Queremos que as pessoas se apropriem desse espaço.

A senhora abriu espaço para eventos como o Festival Mix Brasil. O que a motivou?

Fui motivada pelo simples fato de que a diversidade cultural existe e precisa ser contemplada. Não no sentido de ser arte feita por gays ou para gays. Mas essa mensagem mais implícita em respeito e a favor da diversidade.

Que tipos de desafio a senhora teve que enfrentar, por não ser daqui, para conquistar a confiança das pessoas e mostrar seu conhecimento sobre a produção cultural mineira, embora a senhora já tenha atuado em terras mineiras em outros momentos?

Em primeiro lugar, se eu disser que houve um senão, estarei mentindo. Fui muito bem recebida. Eu trabalho em contato com Minas desde 1995, além de ser curadora do Teatro de Curitiba. E eu sempre tive um olhar de curiosidade e procurei me apurar, vestir a camisa e fazer com que as coisas daqui sejam vistas. Inclusive, hoje, as pessoas brincam que tudo que eu falo tem sempre no meio Rio, São Paulo e Minas Gerais. Não que eu tenha esquecido a minha terra, Curitiba. E, além do mais, a cena mineira, indiscutivelmente, desperta uma grande curiosidade.

E por qual razão a senhora acredita que isso vem acontecendo? Mudou alguma coisa na produção ou no olhar das pessoas?

O olhar das pessoas foi e está sendo puxado para cá. Por todo esse trabalho que vem sendo desenvolvido aqui, pelas mostras da cena mineira, como aconteceu recentemente em São Paulo. Tudo isso tem chamado atenção. Este ano, que na mostra principal do Festival de Curitiba foi o Luna Lunera, a gente viu o que rendeu. Mas o mais importante é que eles não foram sozinhos. Tinham mais seis ou sete grupos daqui lá, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura. Isso mostra o que é uma cena e não apenas um espetáculo. Sempre digo que a idéia de gerir a cultura é não atrapalhar nunca.

Por que? A senhora acha que tem muito gestor que atrapalha?

Muita gente quer fazer, mas quer inventar, em vez de perguntar como é que faz. Tem que olhar o que a música está fazendo, e o teatro, e o cinema. E aí, sim, criar estruturas que favoreçam para que essas coisas aconteçam. E isso eu tenho sentido aqui. Todo mundo preocupado realmente em fazer com que as coisas aconteçam. E isso não é bairrismo. Acho que o mineiro valoriza o que é feito aqui e isso está correto.

A senhora conhece espaços e instalações dos mais diversos. A senhora acha que estamos bem servidos? O belo-horizontino frequenta esse espaço como poderia?

Fizemos este ano uma série de eventos a R$ 1. E acontece uma coisa que a própria bilheteira nos atentou. Uma senhora outro dia comprou 11 ingressos. Ela pôde com R$ 11 trazer a família inteira. E as pessoas se comportam maravilhosamente bem. Isso é muito legal. Não que elas tenham que se portar desta ou daquela maneira. Mas isso demonstra que as pessoas já estão se habituando. E por que não é de graça? Porque isso é a questão de cidadania, você pode pagar para ver o que quer.

Na sua opinião, qual a missão de um órgão como a Fundação Clóvis Salgado?

Formação e informação. A informação vem através dos espetáculos que traz, dos cursos que promove, abrindo as portas, por exemplo, para eventos como a Campanha de Popularização do Teatro. Este ano, infelizmente, o Grande Teatro não será cedido ao evento, porque ele está passando por uma reforma no ar-condicionado durante o mês de janeiro.

A senhora circula pelos outros espaços da cidade, acompanha as produções?

Vou sim, sempre que possível. Porque eu tenho por hábito receber as pessoas, então fico muito aqui na Fundação. Fico na porta olhando, vendo, orientando. A gente brinca que de dia trabalha e, à noite, faz a ronda. Aqui temos três salas de teatro, mais o que acontece nos jardins, no cinema.

Ano que vem, qual sua perspectiva para o Festival de Curitiba?

Só faremos a reunião da curadoria em janeiro. Mas acho que será um ano atípico, no sentido de que estamos enfrentando o fato de as leis de incentivo estarem paradas, já que ninguém captou ainda. Isso vai ser notado nessa edição. E tudo indica que a ópera "O Castelo do Barba Azul" (dirigida por Felipe Hirsch), uma produção do Palácio, deve estar na mostra principal. E isso não tem influência minha.

E sua relação com Belo Horizonte. O que você faz nas horas vagas?

Adoro essa cidade. Moro no centro, na Tupis com Amazonas, ao lado do mercado central. Ando no parque municipal, na Raul Soares. Vou sempre na Bonomi e adoro os restaurantes. Aliás, aqui, qualquer butequinho tem um torresmo bem feito.

Publicado em: 21/12/2008



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