Vistas com desconfiança por não acreditarem em Deus, pessoas sem fé se sentem acuadas
Andréa Castello Branco
Sem contar com grandes recursos financeiros, apoio governamental e muito menos com a ajuda divina, a Associação Brasileira de Agnósticos e Ateus (Atea) está planejando uma campanha publicitária que certamente irá causar muita polêmica. Seguindo os mesmos moldes dos anúncios publicados em países europeus, a campanha terá frases como "Você precisa de um deus para ser bom? Nós não", "Duas mãos trabalhando fazem mais do que mil orações", "Sou feliz sem crer em nenhum deus", e "Sorria! O inferno não existe".
Daniel Sottomaior, diretor executivo da Atea, diz que o objetivo é dar visibilidade aos ateus e denunciar o preconceito contra as pessoas que não creem em nenhuma divindade. "Não queremos mais ser discriminados e para isso precisamos influenciar a sociedade. Para muitas pessoas, a opção de ser ateu não está colocada na mesa, queremos dizer que essa possibilidade existe. A campanha também tem um caráter afirmativo, de forma que os ateus se sintam mais à vontade com a sua opção", afirma.
A campanha de arrecadação de fundos foi lançada há um mês e, até agora, conta com R$17 mil entre anuidade e doações. Além do baixo orçamento, a Atea está tendo que contornar outros empecilhos, como a resistência de órgãos públicos e empresas privadas. O metrô de São Paulo recusou a campanha alegando que regras internas impedem a propaganda política e religiosa, e várias empresas de ônibus recusaram o anúncio ateísta. "Algumas disseram que há uma legislação que não permite, mas ninguém sabe dizer que lei é essa. O nosso entendimento é que restringir a liberdade de expressão é anticonstitucional", afirma Daniel.
Acuados. Embora não seja uma minoria insignificante - estima-se 1,4 milhão de brasileiros -, os ateus se sentem acuados e muitos preferem omitir que não acreditam em Deus e nos princípios religiosos para evitar constrangimentos, embora essa seja uma opção pessoal que não envolve o caráter ou a competência da pessoa.
O geólogo A.C.B. concordou em dar entrevista desde que seu nome fosse preservado. "Eu represento algumas empresas e isso pode me trazer complicações profissionais. As pessoas ficam horrorizadas quando você diz que não acredita em Deus", justificou. Sua opção pelo ateísmo aconteceu quando ele foi apresentado à teoria de Darwin. "Está tudo ali. Não tem transcendência, força superior, nada disso. Para você fazer o bem não é necessário religião. Fiz parte da resistência à ditadura sem religião", diz.
Sem arrependimento. Apesar de saber que o ateísmo é visto com maus olhos, Antônio Carlos Girodo não faz questão de anonimato e diz que não tem "nada a perder". Nascido numa família católica - ele é neto de italianos -, Girodo diz que o caminho para chegar ao ateísmo foi longo. "Ainda criança, com uns 7 anos, eu achava uma injustiça uma criança não batizada não ir para o céu. Não entendia aquele castigo. Minha família frequentava muito a igreja e ali fui vendo muita coisa errada", conta. No ginásio, ele conheceu a teoria da evolução e achou sensacional. Foi estudar física e depois geologia, o que só aumentou a sua falta de fé. "Os livros sagrados dizem que a Terra tem 6.000 anos, quando é comprovado que são 4,7 bilhões. Fui pela lógica pura e simples", diz.
Casado com uma católica, ele diz que seu ateísmo nunca interferiu no relacionamento. "Muitas pessoas procuram a religião por medo. O grande problema que pode haver é essas pessoas serem manipuladas. Certas seitas desacreditam a medicina, isso é irresponsabilidade", afirma. Ele conta que há dois anos teve um sério problema de saúde e que se lembrou da frase sempre repetida pelos amigos: "No dia em que você precisar, você vai apelar para Deus". Mas Girodo não fez nenhuma prece. "Não teve nada disso, fui e voltei da cirurgia na maior tranquilidade."
Estigma. Existem poucos dados a respeito dos ateus no Brasil. Entre eles, está um levantamento feito pela CNT/Sensus, que revelou que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente da República, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% aceitariam votar em um homossexual e apenas 13% votariam em um candidato ateu.
Mas, ao que parece, a repulsa não é apenas uma questão política. No ano passado, a Fundação Perseu Abramo perguntou a 2.014 pessoas acima de 15 anos o que elas sentiam ao encontrar desconhecidos de diferentes "grupos sociais". Os ateus aparecem empatados em primeiro lugar com os usuários de drogas (17%) no quesito "repulsa/ódio". Eles também são os que despertam mais "antipatia", sentimento de 25% dos entrevistados. Somados esses dois dados, os incrédulos contam com 42% de rejeição entre a população brasileira.
Estado e Religião. Uma das coisas que mais incomodam os ateus é o fato de o Estado brasileiro ser laico, mas manter práticas religiosas nos espaços públicos. Na Câmara Municipal de Belo Horizonte, a sessão ordinária é aberta com uma quase-oração: "sobre a proteção de Deus e em nome do povo de Belo Horizonte, declaro aberta a sessão", repete diariamente o presidente da casa.
Seguindo a mesma lógica religiosa, repartições públicas, postos de saúde e salas de audiências judiciais mantêm símbolos em suas paredes e em todas as notas da moeda brasileira está escrito "Deus seja Louvado". O movimento Brasil para Todos pede o fim desse tipo de prática. No site do movimento é possível encontrar a justificativa: "A presença dos símbolos religiosos em repartições públicas viola um dos princípios básicos das democracias modernas, que é o da separação entre Igreja e Estado.
Em 2006, em uma ação inédita, o Ministério Público obrigou a Universidade de São Paulo (USP) a retirar um crucifixo colocado na sala de espera da clínica odontológica após receber queixa de uma pessoa incomodada com o objeto.
Sutil diferença
Ateísmo é a ausência de crença em quaisquer divindades. Os ateus entendem que nenhum dos argumentos religiosos se sustenta e, em alguns casos, também veem argumentos contrários ao teísmo.
Agnosticismo é a incerteza sobre veracidade de uma proposição. O agnóstico afirma que a questão da existência de divindades ainda não pode ser decidida porque os argumentos em favor do teísmo não são suficientes para decidir a questão.
Espanhóis e ingleses já embarcaram em ônibus com anúncios ateístas. Tudo começou quando a jornalista inglesa Ariane Sherine se deparou com um anúncio ameaçador: "Você será condenada a separar-se de Deus e passará a eternidade em tormento no inferno". Sherine decidiu contra-atacar e lançou uma provocação à altura para estampar os mesmos ônibus vermelhos de sua cidade.
"Provavelmente, Deus não existe. Agora, pare de se preocupar e curta a vida". A ideia inicial era colocar pôsteres em 60 ônibus durante um período de quatro semanas. Precisava de 5.500 libras, o equivalente a cerca de R$ 18 mil. Mas a campanha ganhou o apoio da British Humanist Association, um grupo que promove causas ateístas no Reino Unido, e do acadêmico britânico Richard Dawkins, autor do livro "Deus, um Delírio". Em uma semana, a campanha arrecadou mais de R$ 375 mil, cerca de 20 vezes o valor esperado.
Na Itália, a história foi diferente. A associação italiana União dos Ateus e Agnósticos Racionalistas (Uaar) foi proibida de divulgar uma campanha publicitária semelhante nos ônibus de Gênova. A concessionária de publicidade dos meios de transporte públicos IgpDecaux considerou que o slogan "Má notícia: Deus não existe. Boa notícia, você não precisa dele" é provocatório e não se enquadraria no código de ética da propaganda italiana.
Três perguntas
1) O que prega o ateísmo?
ateísmo não possui textos sagrado ou doutrina. A única coisa que os ateus têm em comum é a ausência de crença em deuses.
2)Todo ateu é antirreligioso?
Não. Há ateus que veem a religiosidade positivamente, outros a entendem como uma posição inofensiva e há aqueles que consideram a religião um mal.
3) É possível ser ateu e religioso?
Sim. O jainismo e algumas formas de budismo não incluem o teísmo entre seus princípios.