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Morte equivocada. Fragmento da capa do livro "Elza, a Garota", de Sérgio Rodrigues, já nas livrarias

FOTO: Nova Fronteira/reprodução
Morte equivocada. Fragmento da capa do livro "Elza, a Garota", de Sérgio Rodrigues, já nas livrarias
Magazine » Livros

Memória e ficção. Elza, a Garota’ narra a vida de uma jovem assassinada por comunistas
Romance recupera marca triste da nossa história política
Rafael Rodrigues
Especial para O Tempo

Zuenir Ventura - alguém que dispensa apresentações - finaliza assim a orelha do romance "Elza, a Garota", de Sérgio Rodrigues: "Um livro indispensável para quem não conhece a tragédia da garota Elza e para quem a conhecia de ouvir falar". Talvez essas palavras soem exageradas para o leitor, mas a verdade é que nem mesmo a afirmação capital de Zuenir expressa o tamanho da importância desse romance histórico publicado pela editora Nova Fronteira.

A Elza que dá título ao livro é mais conhecida como Elza Fernandes, mas seu nome verdadeiro é Elvira Cupello Calônio. Personagem esquecida da nossa história, entre os anos 1934 e 1936, Elza foi amante do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, Antonio Maciel Bonfim, cujo codinome era Miranda.

Sua história é cercada de incertezas, o que dificultou bastante chegar a uma conclusão a respeito de informações primárias, como por exemplo a idade que Elza tinha quando foi executada, no início de 1936, por membros do Partido: "Tinha 16 anos. Ou assim dizem. As versões variam. Em algumas, Elza é mulher feita, vinte e um. Na maioria tem 16".

O que não deixa de ser curioso, porque o próprio Miranda, em entrevista datada de 1940, "conta que conheceu Elza menina, ‘treze para quatorze anos’". E apesar de "a garota" (como na maioria das vezes os "camaradas" se referiam a Elza) não ter se envolvido de maneira direta com o Partido, ela foi uma das tantas vítimas das "justiças" patrocinadas pelos comunistas.

Talvez a vítima mais lamentável, porque Elza nada tinha a ver com a revolução que Luís Carlos Prestes, Miranda e companhia planejavam fazer no Brasil. Ela era apenas uma menina que gostava daquele homem frequentador da residência humilde de sua família para conversar com seus irmãos, que eram comunistas. E, por causa dele, considerado um dos maiores traidores do Partido Comunista do Brasil, ela foi covardemente assassinada, num dos crimes políticos mais equivocados, gratuitos e constrangedores da nossa história.

Por ter esse caráter documental e, em muitos pontos, revelador - porque Elza é, hoje, uma completa desconhecida até mesmo para a maioria dos estudantes de história -, a veia ficcional do livro corre o risco de ser colocada em segundo plano pela crítica. Portanto, é importante ressaltar o viés romanesco da obra, que, aliás, se aproxima da sua própria gênese: Molina, jornalista de 43 anos, resolve se dedicar apenas à carreira literária e "estava em busca de uma história que valesse a pena contar".

Ele é premiado com uma oportunidade que todo escritor pede a Deus: uma história que não apenas vale a pena ser contada, mas precisa ser contada. Quem "premia" Molina é Xerxes, um senhor de 94 anos que conheceu Elza, e com ela teve um rápido e marcante envolvimento amoroso. (A aproximação se deve por duas razões: Sérgio Rodrigues tem pouco mais de 43 anos e foi procurado pela Nova Fronteira para escrever um livro sobre Elza.)

Homem no mínimo excêntrico, Xerxes encontrou Molina - ou foi encontrado por ele - através de um anúncio que pôs num jornal, procurando um "redator-jornalista-roteirista com amor pela história e paciência com os achaques de um velho revolucionário derrotado, para ajudá-lo a escrever suas memórias". A relação entre os dois é curiosa: a idade avançada não impede que o velho Xerxes seja enérgico com Molina, muito menos o contrário. A diferença é que este último se irrita com as ironias do primeiro, enquanto que o inverso não acontece.

Assim como a história real e embaçada de Elza, a parte ficcional de "Elza, a Garota" é vertiginosa e paradoxal: de um lado temos um homem que teve quase um século de vida e as experiências mais variadas; do outro há um homem que, aos 43 anos de idade, parece ainda não ter começado a viver.

Ao explorar uma realidade esburacada, preenchendo seus vazios com uma irrepreensível pesquisa e uma ficção desconcertante, Sérgio Rodrigues nos lega obra importantíssima para o entendimento do Brasil.

Afinal, é preciso conhecer e entender o passado para compreender e analisar o presente. "Elza, a Garota" é peça fundamental para qualquer um que deseja fazer isso.

Agenda

O QUE:
"Elza, a garota", de Sérgio Rodrigues. Editora Nova Fronteira, 240 págs., R$ 29,90 3

O autor

Na Flip

Sérgio Rodrigues
é mineiro de Muriaé, nascido em 1962 e residente no Rio há 30 anos

Publicou os livros "O Homem que Matou o Escritor" (Objetiva, 2000), "What Língua is Esta?" (Ediouro, 2005), "As Sementes de Flowerville" (Objetiva, 2006)

É convidado da Flip, em Paraty, no mês de julho

 

Publicado em: 30/05/2009



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