Polivalente. Welbert Ramos, o Bart, entre os discos, camisas e cartazes de sua loja, a 53HC, que nasceu também como produtora de eventos e gerou uma gravadora FOTO: Daniel de cerqueira - 13.4.2008
Polivalente. Welbert Ramos, o Bart, entre os discos, camisas e cartazes de sua loja, a 53HC, que nasceu também como produtora de eventos e gerou uma gravadora
Em música, pouca coisa soa mais trivial nos dias atuais do que falar em cena independente. Para que chegássemos a esse ponto, foi preciso que uma mão de obra engajada e obstinada o construísse com bases sólidas. Em Belo Horizonte, um desses "pedreiros" que obraram de maneira quixotesca nessa seara atende pelo nome de Welbert Ramos - ou simplesmente Bart, como é conhecido no meio.
O século XXI ainda não tinha rompido quando ele, sem dispor de grandes recursos, fundou a loja de discos 53HC, que, desde a gênese, opera também como produtora de eventos e, pouco tempo depois, como gravadora. Agora, para celebrar sua primeira década de existência, ela dá início a uma série de shows, que acontecem até o final do ano e cuja largada será dada com mais uma edição do Flaming Night - um dos muitos eventos com a chancela 53HC -, amanhã, no Lapa Multshow.
A escalação das atrações desta que é a 8ª edição do festival inclui as bandas Dead Fish (ES), Autoramas (RJ), Moptop (RJ), Monno (MG) e The Dead Lovers Twisted Heart (MG). Já no dia 4 de julho, acontece outra Flaming Night, no mesmo local, mais uma vez mesclando grupos locais com representantes de outros Estados, abarcando estilos variados dentro do universo do rock independente, o que é uma premissa do evento desde que foi realizado pela primeira vez, em 2007.
"A ideia é mesclar público, somar, por exemplo, o indie do Moptop com o rock de verniz jovem guarda do Autoramas com o hardcore melódico do Dead Fish. Esse é o intuito das produções da 53HC: promover a miscigenação sem preconceitos de estilos dentro da seara do rock", diz Bart, acrescentando que o convite às bandas que participam tem a ver com o momento que elas estão vivendo. "Das bandas de fora, Moptop e Dead Fish estão lançando novos discos, e o Autoramas se prepara para gravar um DVD e seguir em turnê pela Europa. Com relação aos grupos locais, tanto Monno quanto Dead Lovers estão preparando seus álbuns de estreia."
Ele ressalta que o público roqueiro da cidade ainda pode esperar por vários outros shows até o final do ano, quando as comemorações pelos dez anos de atividade culminam com a realização de mais um 53HC Fest - evento que é o carro-chefe da produtora desde sua fundação e que, no ano passado, aconteceu ao longo de três dias em espaços distintos. "Vamos ter o Flaming Night do dia 4 de julho, com o Matanza como headliner, e ainda outro em 15 de agosto, para o qual já estão confirmados o Móveis Coloniais de Acaju e o Canastra. Tem ainda outras coisas até o final do ano, similares ao Flaming Night, mas possivelmente com outro nome e outro conceito. Estamos pensando algo que sirva de preparação para o 53HC Fest, o qual queremos que seja uma coisa de expressão, tão grande ou maior do que o de 2008. Ao comemorar uma década de vida, não dá para ficar parado numa fórmula que já deu certo, tem é que arriscar e andar para frente", diz.
Com relação ao histórico de eventos da porção produtora da 53HC, Bart destaca que o festival homônimo existe também há dez anos (no início batizado com outro nome e, entre 2005 e 2007, realizado em dois dias) e que o Flaming Night, iniciado em 2007, teve quatro edições naquele ano e outras três em 2008. "Claro que nossa perspectiva é crescer, e as possibilidades são infinitas", confia.
Flaming Night*
Programação de amanhã
Dead Fish (ES) Autoramas (RJ) Moptop (RJ) Monno (MG) The Dead Lovers Twisted Heart
Ingressos a R$ 20 (2º lote) e R$ 25 (3º lote)
Programação do dia 4 de julho
Matanza (RJ) Zumbis do Espaço (SP) Os Dinamites (DF) The Folsoms (MG) Estrumental (MG)
Ingressos a R$ 20 (1º lote), R$ 25 (2º lote) e R$ 30 (3º lote)
* Passaporte para os dois Flaming Night a R$ 30.
* Ambos acontecem no Lapa Multshow (rua Álvares Maciel, 312, Santa Efigênia, 3241 2074), a partir das 20h.
Quixotesca é o mínimo que se pode falar da militância de Bart pelo rock independente no Estado. Afinal, em dez anos à frente da loja, produtora e gravadora 53HC, ele sempre tocou suas ações sem dispor de qualquer tipo de patrocínio oficial. Em 2007, aprovou um projeto nas leis de incentivo para a realização do 53HC Fest de 2008, mas não conseguiu captar. Agora, novamente conseguiu que um projeto para sustentar o festival passasse nas três instâncias – municipal, estadual e federal – das leis de incentivo, desta feita com perspectivas mais objetivas de captação.
De resto, foi tudo feito, como diz, na cara e na coragem. “Há uma década que fazemos tudo na raça, é a coisa da mágica do cidadão brasileiro, de se virar com o pouco que tem. Se a loja vendeu bem, a gente investe na gravadora; se um lançamento tem boa saída, a gente reverte para algum evento”, diz, crente em dias melhores. “O reconhecimento chega uma hora.” (DB)
Banda Autoramas se prepara para gravar um acústico
Uma das mais bem-sucedidas bandas do rock independente nacional e presença garantida no Flaming Night de amanhã, o Autoramas – cuja característica marcante é a pegada roqueira que casa jovem guarda e surf music – vai gravar, no final deste mês, um DVD “Acústico MTV”. Não sem antes soltar um “era para ser surpresa...”, o guitarrista e vocalista Gabriel Thomaz confirma a informação dada por Bart e, entusiasmado, diz que os fãs podem esperar por um trabalho que, ele acredita, será um marco na trajetória da banda.
“Estamos com o repertório ensaiado e está tudo muito legal. Apesar de acústico, a coisa está bem rock’n’roll, sem essa de tocar sentadinho, com percussão, cavaquinho, orquestra. É só o trio mesmo, mandando ver, uma coisa que se relaciona com anos 50, com Elvis. Se a gente não achasse que está ficando legal, não faríamos”, diz, acrescentando que a gravação acontece no dia 29. Dois dias depois, o grupo embarca para uma pequena turnê europeia, que inclui oito shows, passando por Alemanha, Holanda e Bélgica, para lançamento de um EP exclusivo para aquele mercado.
Ele aponta que, a despeito de vários flertes pregressos, essa é a primeira vez que o Autoramas participa de um evento da 53HC. Gabriel se diz empolgado com a oportunidade, destacando a pluralidade calculada do festival. “Pela escalação a gente vê que o show de uma banda não tem a ver com o da outra, mas, ao mesmo tempo, não há incompatibilidade. É uma chance que tanto o público quanto os próprios músicos têm de ouvir várias vertentes do rock’n’roll que convivem pacificamente. Existem rivalidades entre estilos musicais, mas, nesse caso, ninguém tem nada de mal para falar do trabalho do outro”, destaca.
Se o Autoramas é neófito nas produções da 53HC, os capixabas do Dead Fish, que está promovendo seu mais recente álbum, “Contra Todos”, lançado em fevereiro deste ano, são velhos conhecidos. O baixista da banda, Alyand, destaca a importância de iniciativas como o Flaming Night ou o 53HC Fest para a cena roqueira em Minas. “O Bart é parceiro de longos anos e, nesse momento em que a 53HC comemora dez anos, a gente tem mais é que dar os parabéns, afinal, há tanto tempo ele vem fazendo uma coisa tão legal, tentando elevar o rock de Belo Horizonte e de Minas Gerais a um nível profissional, de reconhecimento nacional. Ficamos felizes em trabalhar com o Bart e achamos que ele merece tudo o que está colhendo agora”, diz.