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Seguidores de Zelaya dentro da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa

FOTO: esteban felix/associated press
Seguidores de Zelaya dentro da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa
Mundo

Privação. Diplomata que foi responsável pela representação brasileira até ontem fala sobre cansaço
Crise hondurenha amarga vida de brasileiros na embaixada
Semana foi marcada por falta de comida, bebida e condições básicas de higiene
Alexandra Martins

A Embaixada do Brasil em Tegucigalpa é atualmente a casa dos horrores. Abriga um presidente deposto e seus 60 correligionários há seis dias sob as mais precárias condições de sobrevivência. O ministro-conselheiro Francisco Catunda Resende, diplomata até ontem responsável pela representação brasileira na capital hondurenha, contou à reportagem na última sexta-feira que emagreceu e que lutava para não se abater. No lugar de Catunda, o representante brasileiro na Organização dos Estados Americanos (OEA), Lineu Pupo de Paula, entrou na embaixada e será o responsável pelo prédio e pelos seus ocupantes neste fim de semana.

"Não está sendo fácil e não sei quando isso vai terminar", desabafou Catunda na sexta-feira. Ele contou que tomava banho com água fria e se enxugava com papel até o dia em que o governo interino de Roberto Micheletti permitiu a entrada de roupa e comida. "Foram três dias de muita privação, inclusive com lixo ao nosso redor", lembra.

Quando ele pensou que a situação fosse melhorar, piorou. Dois dias após orgulhar-se do frango ensopado preparado por sua mulher, Catunda fraquejava. Em nossa última conversa, na última sexta-feira, o diplomata brasileiro descreveu um cenário dantesco, confirmando o que o presidente deposto Manuel Zelaya havia adiantado à reportagem sobre o estado de saúde de alguns de seus convidados: pessoas vomitando, tossindo e desconfiando de terem sido vítimas de um ataque com gás tóxico. "Olha, me desculpe, mas não posso falar muito. A situação é péssima. O dia está sendo muito complicado", falava Catunda com voz embargada.

Isso tudo ocorre enquanto a ONU, OEA, União Europeia, Human Rights, os hondurenhos antagonistas, o mediador Oscar Árias, Hillary Clinton e o Itamaraty tentam chegar a uma solução pacífica do conflito. Catunda e seus funcionários estão sendo grandes vítimas desse imbróglio, juntamente com os seguidores de Zelaya hospedados no sitiado território brasileiro. Eles não passam fome - quase -, mas estão vivendo uma epopeia provocada por um hóspede impopular em seu país, segundo relato de brasileiros e, claro, de representantes do governo interino, como o ministro da Informação, René Zepeda.

Catunda não está autorizado a falar oficialmente sobre a participação do Brasil nessa contenda dramática. "Meu trabalho é atender o senhor Zelaya. Ele e sua equipe estão muito bem equipados com comida. Até me impressiona como seu pessoal articulou bem essa manutenção", diz. Dá a impressão de que a dívida golpista sobrou mesmo para os quatro brasileiros sitiados no minúsculo território nacional. Ossos do ofício, dirão muitos, mas o embaixador antes responsável pelo espaço, Brian Neele, que foi chamado de volta ao Brasil, está em sua casa no Leblon e não quer dar entrevistas. Catunda deveria investigar se Zelaya tem visto para permanecer em território nosso.



Oposição
Colônia brasileira repudia abrigo a presidente deposto

A Colônia Brasileira de San Pedro Sula, en Honduras, repudiou a decisão do governo brasileiro de abrigar o presidente deposto, Manuel Zelaya, em sua embaixada na capital Tegucigalpa. A agremiação independente reúne 18 famílias residentes no país hondurenho. "Lamentamos e nos envergonha profundamente a atitude do nosso ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e do governo do nosso país ao permitir a presença do sr. Manuel Zelaya na sede da Embaixada do Brasil, em Tegucigalpa. Repudiamos veementemente as ações do Itamaraty que marcaram um retrocesso nas relações diplomáticas entre o Brasil e esse digno povo hondurenho e seu governo atual", diz o manifesto. Uma das signatárias do documento, a carioca Sandra Pacheco Araújo, defendeu a tese de que não houve um golpe de Estado, mas um afastamento em obediência à Constituição. "Ele não é querido por 90% da população. O mundo inteiro o defende por desinformação. Aqui dentro a realidade é outra", relata a enfermeira brasileira.

Seu marido, o médico hondurenho Gustavo Bueso, disse que o presidente Lula está seguindo uma agenda chavista ao defender Zelaya. "Isso pode sair muito caro para o Brasil, ao defender um corrupto, que não tem apoio de seu povo. O Brasil está perdendo a liderança na geopolítica mundial. Aliar-se a Chávez é um perigo." (AM)



Minientrevista
“Zelaya usa a Embaixada do Brasil para promover uma insurreição com vandalismo”
René Zepeda Ministro da Informação do governo interino

Vai haver eleições mesmo sem o restabelecimento da democracia? Claro, estamos trabalhando para isso. As eleições estão sendo organizadas pelo governo autônomo. Vão ser justas, transparentes e democráticas, com a participação de todos os partidos políticos e presença maciça da população. Existem seis postulantes, dos quais dois são seguidores do movimento de Zelaya. Todos eles vão participar sem nenhuma restrição.

Existe discordância sobre o número de mortos durante os confrontos no início da semana. Quantos morreram? Apenas uma pessoa. O senhor Zelaya disse que os hospitais estavam cheios e que havia perdido quatro homens seus. É mentira e uma injustiça, tudo manipulação midiática.

Vocês vão investigar a morte dessa pessoa? Estamos abertos a isso. Podemos fazer uma investigação do tipo da munição que matou esse homem. O disparo saiu dos seguidores de Zelaya. É o dinheiro de Hugo Chávez que está movendo tudo isso. Seu governo tentou, inclusive, “comprar” alguns homens do Exército, que acabaram não aceitando esse negócio escuso. Desde o início, Chávez vem ameaçando Honduras, inclusive, falando que vai invadir nosso país.

O senhor acredita que Hugo Chávez emprestou avião a Zelaya? Sim, o avião que transportou Zelaya em um dos trajetos era da Venezuela. Zelaya quer se disfarçar de Hugo Chávez, e a comunidade internacional não está se dando conta disso, nem o Brasil, que é um país que defende sua Constituição, como Honduras.

Como o senhor avalia a posição do Brasil neste conflito? Foi uma intromissão em nossos assuntos internos. Me estranha muito que o Brasil, que tem Lula como presidente, empreste sua embaixada para esse homem (Zelaya), permitindo que ele use politicamente a representação brasileira, chamando a insurreição em Honduras através de atos de vandalismo.

Zelaya sairá fortalecido? Não, porque nós estamos unidos no país. Noventa por cento da população não o quer de volta. O hondurenho não quer ser escravo do socialismo do século XXI.

Qual é a solução para o conflito? Que o senhor Zelaya aceite o que dita a Constituição, ou seja, que ele se apresente ao Tribunal de Justiça do país. Ele infringiu a Carta ao pretender mudar artigos pétreos, como o 239, que proíbe um candidato de se reeleger. (AM)



Houve golpe?
“Analisada a questão sob o ponto de vista jurídico, distante dos interesses político-ideológicos, a conclusão a que se chega é a de que esse pequeno país da América Central tem sido punido por cumprir as normas constitucionais ali imperantes. Se boas ou ruins, é tema que não vem à baila neste momento. De acordo com a Constituição de Honduras, o mandato presidencial tem o prazo máximo de quatro anos (artigo 237), vedada expressamente a reeleição. Aquele que violar essa cláusula ou propuser-lhe a reforma perderá o cargo imediatamente, tornando-se inabilitado por dez anos para o exercício de toda função pública. É alarmante o poder da desinformação.”

Lionel Zaclis, doutor e mestre em direito pela USP
Publicado em: 27/09/2009





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