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Trio. Eduardo Medeiros, Rafael Albuquerque e Mateus Santolouco são responsáveis pela quadrilogia 'Mondo Urbano'

FOTO: Nathália Turcheti/Divulgação
Trio. Eduardo Medeiros, Rafael Albuquerque e Mateus Santolouco são responsáveis pela quadrilogia 'Mondo Urbano'
Magazine

Quadrinhos. Quadrinhistas brasileiros se unem em selos ou coletivos para viabilizarem seus projetos aqui e no exterior
Um por todos, todos por um
Marcelo Miranda

"Fazer quadrinhos no Brasil é uma coisa que não existe se não for por amor." A frase da quadrinhista Ana Recalde - autora da série "Patre Primordium" - ecoou ao longo de toda a última semana a quem passeou pelos estandes do 6º FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, que termina hoje.

Para além das grandes editoras que lá faziam ponto, o que mais se viu foram grupos de profissionais da narrativa gráfica dispostos a mostrar (e vender) seus trabalhos. Há de tudo: revistas humorísticas a dramas românticos, aventuras espaciais a mistérios policiais, super-heróis a biografias e épicos. A crescente multiplicidade criadora do quadrinho brasileiro foi a grande marca desta edição do FIQ.

Muito de tudo isso nasceu de encontros e parcerias. É o caso de Ana, mato-grossense residente no Rio de Janeiro e roteirista de "Patre Primordium", cujos desenhos são do colega Fred Hildebrand. "Comecei como consumidora de quadrinhos, depois tive loja para vender e agora faço minhas HQs. Na época de só leitora, há uns dez anos, sentia falta de conhecer os independentes", diz Ana. Ela credita a ampliação do acesso ao quadrinho indie às facilidades tecnológicas advindas com a internet e à quantidade de coletivos que foram surgindo na última década.

Ela mesma faz parte de um grupo, o Quarto Mundo, cujo grande propósito é levar quadrinhos independentes a todas as partes do Brasil. Para tanto, o selo integra uma gama enorme de profissionais, responsáveis por, no mínimo, 170 títulos espalhados por vários Estados, literalmente do Paraná ao Amazonas. "Não adianta dizer que não existem bons profissionais de HQs no Brasil. É preciso que os criadores trabalhem em conjunto para que eles mesmos se desenvolvam, amadureçam e apareçam sempre mais", aponta Ana.

Também integrante do Quarto Mundo, o paulista Mário Cau - autor solo do elogiado "Pieces" e um dos responsáveis pela revista "Quadrinhópole", juntamente com Ana Recalde - dá todo o crédito da visibilidade de seu trabalho ao coletivo: "Sozinhos, nenhum de nós teria a força atingida."

A quadrilogia "Mondo Urbano" foi outra a surgir na base da parceria. O trio formado pelos gaúchos Rafael Albuquerque, Eduardo Medeiros e Mateus Santolouco se juntou unicamente para dar vida (e traços) à trama envolvendo uma banda de rock e uma guitarra endemoniada.

"Powertrio", "Overdose", Cabaret" e a recém-lançada "Encore" se tornaram um dos projetos de HQ independente mais elogiados no país este ano. "Se cada um fizesse o seu projeto sozinho, nenhum de nós conseguiria lançar quatro revistas num único ano", comenta Mateus.

O encontro foi fundamental também para cada autor extravasar as próprias ideias, já que os três mantêm serviços "oficiais" no universo dos quadrinhos: Eduardo é ilustrador da coleção de livros infantis Vaga-Lume; Rafael desenhou histórias do Batman e Superman para a DC; e Mateus deu formas a diversos personagens da Marvel.

"Adapto o trabalho de acordo com a necessidade do ‘cliente’", afirma Mateus. "Acho que meus quadrinhos autorais saem mais naturalmente. Sinto a diferença em relação aos de mercado." Por sua vez, Eduardo não percebe tanto o trânsito de um lado a outro: "O que eu sei fazer é uma coisa só, então não tenho distinção." E Rafael se mostra mais direto: "Na DC, mesmo gostando de fazer, não vejo tanto meu trabalho e minhas escolhas, porque existe uma engrenagem que influencia o processo inteiro. Nos independentes, os editores somos apenas nós, então tem um tesão maior."

Os irmãos paulistas Gabriel Bá e Fábio Moon - criadores do fanzine "10 Pãezinhos" em 1997 e hoje com carreira consolidada no mercado nacional e internacional - foram buscar parceria fora do país: uniram-se à italiana (residente nos EUA) Becky Cloonan e ao grego Vasilis Lolos em dois álbuns. O primeiro, a antologia "5" (com participação de outro brasileiro, Rafael Grampá), recebeu nos EUA, no ano passado, o Eisner Awards, maior prêmio dos quadrinhos mundiais.
Na semana passada, o quarteto esteve no FIQ para lançar "Pixu", HQ de terror criada toda em coletivo, sem distinção "assumida" de quem fez o quê. A primeira edição da revista saiu independentemente nos EUA em duas edições. Depois ganhou um encadernado da editora Dark Horse e agora chega ao Brasil pela Devir.

"Fazer quadrinhos é bem solitário e introspectivo, e a maioria dos autores trabalha sozinha", afirma Fábio Moon. "A criação compartilhada torna o trabalho uma diversão, um jogo, uma conversa que sempre nos leva a caminhos novos." O gêmeo Bá - que, com o irmão, desenvolve atualmente a série "Daytripper" para o selo adulto Vertigo, da DC - completa o discurso: "Quando estamos reunidos, é um turbilhão de ideias que surge da sintonia fluente entre nós quatro".



O quadrinhista teve que responder a muitas perguntas pessoais

FOTO: Top Shelf/Divulgação
O quadrinhista teve que responder a muitas perguntas pessoais
Festival de Quadrinhos
Craig Thompson fala da vida e do trabalho no FIQ
Marcelo Miranda
A Sala João Ceschiatti, no Palácio das Artes, ficou pequena para a quantidade de pessoas interessadas em ouvir o quadrinhista norte-americano Craig Thompson, no começo da noite de sábado. Thompson, autor da premiada e adorada “Retalhos” – lançada no Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia – esteve em Belo Horizonte participando da sexta edição do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ). Sempre simpático e solícito, atendeu a todos que o paravam constantemente para autografar exemplares de seu pesado álbum, que tem 600 páginas.

Na conversa diretamente com os leitores, Thompson foi menos questionado sobre sua arte do que sobre sua vida pessoal. É que “Retalhos” trata de experiências autobiográficas do autor, desde a infância e a relação com os pais e o irmão mais novo, até o romance adolescente com uma colega de escola. “No início, eu pretendia captar pequenas experiências humanas, coisas simples, como dividir a cama com um familiar”, disse ele. “Não fazia ideia de que seria lido por tanta gente de tantos lugares.”

Por “Retalhos”, publicada nos EUA em 2003, Thompson levou os principais prêmios de HQs no país, como o Eisner e o Harvey. Modesto, ele assume não entender o por quê de enredos inspirados na vida real ganharem tanto respeito e credibilidade. “Quanto mais mundana e simples a história, mais ela é valorizada. Isso é estranho, porque tramas fictícias são muito mais emocionantes.”

O comentário abriu espaço para as mais variadas perguntas do público, desde algumas simples e diretas (“o que sua família pensou ao ler a história?”) até outras mais estapafúrdias (“o livro foi uma forma de você encontrar o sentido da vida?”). Thompson respondeu (ou tentou) a todas as questões, inclusive relatando detalhes sobre as reações da mãe e do pai ao teor de “Retalhos”, que reconstitui o conservadorismo religioso ao qual o autor foi obrigado a seguir quando criança, criada numa comunidade rural do Estado de Wisconsin . “Uau, quantas perguntas pessoais...”, ironizou Thompson, a certa altura.

Mas ainda houve espaço para ele falar de seu processo de trabalho – e também desmistificá-lo. “Acordo às 9h, desenho pela a manhã, paro durante o almoço, depois volto para o estúdio e fico até o final da tarde”, relatou. “É bem entediante, não tem nada demais”, completou, acompanhado de gargalhadas gerais.

O novo trabalho do autor, em desenvolvimento desde 2004, não terá elementos autobiográficos.

“Habibi”, prevista para ser lançada nos EUA no ano que vem, deve tratar de questões relativas ao Oriente Médio e ao islamismo. “Estou cansado de falar de mim mesmo”, brincou. “Essa nova HQ será algo mais voltado à fantasia, tipo ‘O Senhor dos Anéis’”. Antes que os leitores se assustassem o suficiente com a declaração, Thompson emendou: “Nada tão fantasioso assim, nada de dragões ou essas coisas. Vou inserir algumas questões ligadas à política.”
Publicado em: 12/10/2009



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