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Magazine

Televisão
A vez dos independentes
Conteúdo criado por produtoras autônomas ganha cada vez mais destaque nas grades de programação das TVs aberta e fechada
Soraya Belusi

Eles são donos de boas ideias, criadores de novos formatos e estão ganhando cada vez mais espaço na grade das TVs paga e aberta. Um novo mercado está em expansão, e as produtoras independentes estão prontas para provar que basta uma oportunidade para agregarem valor artístico ao conteúdo televisivo.

O Magazine conversou com um time de talento formado por produtores autônomos, responsáveis por programas como "Mothern", "Descolados" e "Peixonauta", entre outros, para saber como funciona as parcerias entre esses criadores e as emissoras brasileiras. Na fala de todos eles, uma unanimidade: tanto o surgimento dos canais a cabo quanto a criação de formas de financiamento foram fundamentais para que o atual panorama se configurasse.

"Sem dúvida, esse mercado cresceu muito nos últimos anos", avalia Gil Ribeiro, sócio da produtora Mixer, que assina a criação de programas como "Mothern", do GNT, e "Descolados", da MTV. "O Brasil tem um mercado de TV aberta diferente do resto do mundo. Não tivemos a formação de uma indústria audiovisual consistente aqui, porque as emissoras têm uma forma de produção verticalizada. Mas, 15 anos atrás, quando a TV a cabo chegou ao Brasil, esse panorama começou a mudar. Nesse momento, começam a surgir algumas oportunidades e estamos aproveitando, com programas sendo veiculados em emissoras como GNT, Multishow, Discovery, MTV, Canal Futura e TV Cultura", completa.

Artista dedicada à animação, Célia Catunda, da TV Pinguim, sempre ficou intrigada ao ver apenas desenhos importados nas grades das emissoras. Até que ela própria e seus parceiros de produtora criaram o "Peixonauta", hoje o principal desenho na grade da Discovery Kids em toda a América Latina. "Tentamos vender para várias emissoras, que falavam que o custo era muito alto e não podiam pagar. Lógico que essa resposta é a mais fácil, mas havia um certo descrédito de que talvez o produto não fosse tão bom e, se a pessoa pode comprar um Bob Esponja barato, por que iria se arriscar e ainda gastar mais?", questiona a criadora. "Mas vale muito a pena investir. No caso do ‘Peixonauta’, vimos isso com muita clareza. Ele ficou em primeiro lugar logo na semana de estreia. Até o canal se surpreendeu", afirma. E Célia tem razão. Carla Ponte, produtora do Discovery Networks para a América Latina, já confirma a segunda temporada do desenho.

"O ‘Peixonauta’ é uma coprodução de enorme sucesso não só no Brasil. E percebemos que todas as produções em parceria têm resultados maravilhosos. Ano passado, veiculamos o reality show ‘Enquanto Você não Vem’, que alavancou dez pontos a audiência do People & Arts. E já estamos desenvolvendo um novo projeto, com a Conspiração Filmes, ‘Viver Para Contar’".

Experiência similar tem a MTV, que apostou em "Descolados" como primeira parceria com uma produtora independente. "Resolvemos nesse primeiro momento escolher uma ficção, um conteúdo que tínhamos dificuldade de produzir internamente. E o resultado é que a série está entre os cinco programas mais bem-sucedidos na casa", diz Raquel Affonso, gerente de programação. E o público pode esperar mais. "Gostamos da experiência. No ano que vem temos a segunda temporada de ‘Descolados’ e mais três projetos em andamento".

Veja trailer em inglês da série Peixonauta (ou "Astronaut"):

Veja a abertura em português:

 



Grupo. Cinco diretores da O2, entre eles Fernando Meirelles, se revezaram na direção de 'Som & Fúria'

FOTO: fotos tv globo/divulgação
Grupo. Cinco diretores da O2, entre eles Fernando Meirelles, se revezaram na direção de 'Som & Fúria'
Televisão
Sinal de vida inteligente fora das emissoras
Soraya Belusi

"Uma coisa não anda sem a outra: o mercado está crescendo porque esses produtos estão se destacando, e as emissoras começam a entender que têm um parceiro novo na briga pela audiência". A avaliação de Gil Ribeiro, da Mixer, cai como uma luva para falar da parceria de outra produtora, a O2, com a Globo. Os dois lados têm um contrato de exclusividade na TV aberta.

Tudo começou há oito anos, quando Guel Arraes convidou Fernando Meirelles, um dos sócios da O2, para dirigir um episódio do "Brava Gente", como conta Andrea Barata Ribeiro. "Eles nos disseram que queriam incorporar novos talentos que estavam aparecendo no mercado, mas sabiam que o Fernando, por exemplo, não viria para o quadro de funcionários da Globo. A forma de agregar era abrir uma portinha para a produção independente", explica Andrea, sócia da O2 ao lado de Meirelles e Paulo Morelli.

O primeiro "produto" da O2 na Globo foi o curta "Palace 2". "Foi a primeira vez que TV brasileira mostrou jovens negros, a realidade nas favelas, tráfico de drogas, Exibimos no dia 22 de dezembro. Todo mundo achava que ninguém ia assistir. Foi um sucesso. Acho que isso ajudou para que eles percebessem que existe vida inteligente fora das emissoras. Este ano, ‘Som & Fúria’ foi um luxo, mas ainda é muito pequeno esse espaço na TV aberta se compararmos com a TV paga", avalia.

Os ganhos, segundo Andrea, são gratificantes para os dois lados. "Adoro fazer TV. Quando fazemos um trabalho para a Globo sabemos que 20 milhões de pessoas assistirão ao que criamos. Do lado do canal, agregamos qualidade ao conteúdo dele, acrescentamos valor ao trabalho da emissora e, claro, prestígio".

O modelo de negócio, segundo Andrea, consiste na apresentação de projetos da O2 que a Globo aceita bancar ou não. "A gente bola um projeto, leva uma ideia ou um roteiro já pronto e eles embarcam ou não. Estamos desenvolvendo duas séries para eles nesse momento", conta. "Quando fomos assinar o contrato com a Globo, achávamos que eles só queriam nos tirar do mercado, nos colocar na geladeira. Mas foi tudo ao contrário. A relação é de respeito e de confiança; é mais fácil trabalhar com Globo que com qualquer estúdio internacional", afirma ela.

Mas se o espaço ainda é pequeno, o que falta para as portas se abrirem? "Faltam leis que regulamentem esse espaço", diz Andrea.



Regulamentação
Silvio Da-Rin, secretário do Audiovisual, analisa mercado

Ao analisar o mercado de produção independente, duas premissas parecem ser fundamentais para o crescimento de tais parcerias: a implementação de formas de financiamento - o que já vem acontecendo via lei de incentivo e linhas de financiamento do BNDES para a animação - e a urgência de uma regulamentação específica, como acontece em outros países.

Silvio Da-Rin, secretário do Audiovisual, concorda com tal necessidade e, em entrevista ao Magazine, ressalta outros mecanismos que podem estimular o mercado. "Na última década houve um grande amadurecimento da produção audiovisual independente brasileira. Aumentou muito o número de empresas produtoras, boa parte delas dedicada exclusivamente ao mercado de televisão. Um passo importante foi a organização das empresas em torno da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão - ABPITV, que está prestes a completar dez anos", avalia o secretário.

Ele afirma que esse crescimento também está aliado a dispositivos do Ministério da Cultura para esse tipo de parceria. "Programas especiais e séries como ‘Alice’, ‘9MM’ e ‘Cidade dos Homens’ têm alcançado sucesso, tanto na televisão por assinatura quanto na TV aberta. Isso se deve, em grande parte, aos dispositivos de renúncia fiscal, como o Artigo 3-A da Lei do Audiovisual e o Artigo 39 da MP 2.228-1. Esses mecanismos permitem que sejam investidos em produção brasileira parte dos impostos incidentes sobre a remessa ao exterior de royalties devidos por obras estrangeiras veiculadas em nossa televisão".

O secretário defende ainda a ideia de regulamentação para limitar o conteúdo produzido pelas próprias emissoras. "As tentativas de regulamentação, no Congresso Nacional, têm sofrido forte oposição dos grupos concessionários, que não admitem interferência em seus negócios", afirma. "Mas não há dúvida alguma de que a parceria com a produção independente é capaz de promover uma crescente diversidade na programação, nos formatos, no modo de fazer televisão. Muitos países, entre eles os EUA, limitam a produção própria das emissoras em um determinado percentual. Isso é saudável, tanto pelo efeito sobre a programação, quanto pela irradiação econômica na sociedade", avalia. (SB)

Como o senhor avalia o mercado de produção independente para a TV no Brasil? Na última década houve um grande amadurecimento da produção audiovisual independente brasileira. Aumentou muito o número de empresas produtoras, boa parte delas dedicada exclusivamente ao mercado de televisão. Um passo importante foi a organização das empresas em torno da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão - ABPITV, que está prestes a completar dez anos. A Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura mantém parcerias com a associação. A principal delas é o programa Brazilian TV Producers, que tem possibilitado a presença sistemática de produtores brasileiros nos principais mercados e festivais internacionais, ampliando significativamente as coproduções.

O senhor acredita que houve um crescimento na parceria entre as TVs paga e aberta com as produtoras? Se sim, a que se deve isso? Nos últimos anos houve um grande incremento de negócios entre as televisões brasileiras e as produtoras independentes. Programas especiais e séries como Alice, 9mm, Cidade dos Homens e Mandrake têm alcançado sucesso, tanto na televisão por assinatura quanto na TV aberta. Isso se deve, em grande parte, às políticas públicas praticadas pelo Ministério da Cultura, especialmente os dispositivos de renúncia fiscal, como o Artigo 3-A da Lei do Audiovisual e o Artigo 39 da MP 2.228-1. Esses mecanismos permitem que sejam investidos em produção brasileira a maior parte dos impostos incidentes sobre a remessa ao exterior de royalties devidos por obras estrangeiras veiculadas em nossa televisão.

Este ano, foi lançado um edital para esse tipo de produção. O que o senhor pode falar sobre esse edital, qual tem sido a adesão e procura, e que resultados a secretária do audiovisual pretende atingir? A Secretaria do Audiovisual tem lançado chamadas regulares para produção de conteúdos audiovisuais para serem veiculados na televisão pública. O DocTV já completou quatro edições e foi responsável pela realização de 170 documentários de 52 minutos, além de oficinas de formatação e desenvolvimento de projetos. O AnimaTV está em fase de produção de 17 pilotos, que resultarão em duas séries completas de animação. O FicTV, realizado no contexto do Programa Mais Cultura, também está na etapa de produção de oito pilotos, que resultarão em séries completas de teledramaturgia. Recentemente, lançamos o Nós na Tela, edital específico para participantes ou egressos de projetos sociais com formação em audiovisual, para produção de 20 curtas que resultarão em programa de TV veiculado pelos canais comunitários. Cada uma dessas chamadas públicas recebe centenas de inscrições e as comissões de seleção têm dificuldade crescente em escolher os melhores projetos, dado o aumento da qualidade das propostas apresentadas.
Recentemente, a EBC lançou edital para recebimento de projetos de produtores independentes. É um passo importante para o estreitamento das relações entre a TV Brasil e as empresas produtoras.

Porque o modelo de TV no Brasil é tão diferente de outros países como França e EUA, por exemplo? Na Europa a televisão começou pública e só décadas depois começou o processo de privatização. Isso formou entre os cidadãos a plena consciência de que a televisão é um serviço de comunicação, informação e entretenimento de grande importância social. Ainda que esse serviço venha a ser explorado pela iniciativa privada, os objetivos são públicos.
A televisão norte-americana nasceu como um serviço comercial, privado, mas a indústria cinematográfica nacional desenvolveu diversas formas de associação com as redes de teledifusão. Em todo o hemisfério norte, a TV é um parceiro fundamental do cinema, não como janela de exibição somente, mas como associado em diferentes modalidades de negócios que capitalizam e potencializam a indústria audiovisual em seus diversos segmentos - home vídeo, telefonia móvel, Internet, licenciamento de produtos; enfim, toda a cadeia produtiva, que tem se ampliado enormemente no domínio digital.
No Brasil, historicamente, produziu-se um divórcio entre esses dois ramos da atividade audiovisual. Desde o surgimento da televisão, os canais foram concedidos pelo Estado de modo clientelístico, premiando grupos empresariais aliados dos sucessivos governos. A televisão brasileira extrai suas receitas da publicidade e desenvolveu-se voltada para dentro, com produção própria, que é complementada pela aquisição de produtos estrangeiros, em grande parte norte-americanos, que são comercializados em escala global. Essa produção já chega aqui praticamente amortizada, o que resulta em preços impossíveis de serem praticados pelos produtores locais.
O cinema brasileiro viveu períodos longos de ampla aceitação popular. Um deles foi exatamente o momento do surgimento da televisão, que, paradoxalmente, apoiou-se mais no rádio para desenvolver seus formatos de programação, como as novelas, os noticiários e os programas de auditório. Para o cinema, ao contrário de uma ampliação de suas possibilidades de comunicação e crescimento econômico, a televisão converteu-se em forte concorrente, entretendo os cidadãos em casa. Para enfrentar a crise decorrente da diminuição do público comprador de ingressos, o cinema pediu ajuda ao Estado. A sociedade brasileira sempre compreendeu a necessidade de o país manter uma indústria cinematográfica, como fator de identidade nacional e afirmação internacional de seus valores culturais. Por isso, nas últimas décadas o Estado desenvolveu políticas públicas de fomento à atividade cinematográfica, antes por meio de empresas e institutos públicos, como a Embrafilme; hoje, por meio da renúncia fiscal.

Os produtores, de maneira geral, reivindicam uma regulamentação no setor, ao molde de outros países. O que o senhor pensa sobre isso? A comunicação social é objeto do capítulo V da Constituição, que entre outras coisas determina, no Art. 221, a preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; a promoção da cultura regional e o estímulo à produção independente. O que os produtores independentes reivindicam é a regulamentação desses princípios. As tentativas de regulamentação, no Congresso Nacional, têm sofrido forte oposição dos grupos concessionários, que não admitem interferência em seus negócios. Mas, o espectro eletromagnético onde circulam os programas de televisão é um ativo da sociedade, um bem público, concedido pelo Estado mediante condições que precisam ser reguladas e periodicamente revistas, na medida em que evoluem as tecnologias de comunicação e informação.

Pessoalmente, o senhor acredita que esse tipo de parceria pode elevar o nível do conteúdo na TV? Não há dúvida alguma de que a parceria com a produção independente é capaz de promover uma crescente diversidade na programação, nos formatos, no modo de fazer televisão. Muitos países, entre eles os Estados Unidos, limitam a produção própria das emissoras em um determinado percentual. Isso é saudável, tanto pelo efeito sobre a programação que chega ao telespectador, quanto pela irradiação econômica na sociedade, por meio do fortalecimento de empresas produtoras, que se tornam capazes de gerar emprego e renda.

Publicado em: 25/10/2009



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