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FOTO: Agência Platinum/Divulgação
Magazine » Esotérico

Rezando pela cartilha verde

Ana Elizabeth Diniz
Especial para O TEMPO

André Trigueiro
Jornalista e escritor

Partindo do entendimento de que a doutrina espírita ofereceu, há pelo menos cem anos, subsídios para a reflexão sobre os graves problemas ambientais que a humanidade está atravessando, André Trigueiro, um espírita, esmiuçou o assunto e escreveu "Espiritismo e Ecologia", livro que ela acaba de lançar em Belo Horizonte, dentro do Projeto Sempre Um Papo.

Por que escrever um livro sobre espiritismo e ecologia?
São dois assuntos extremamente interessantes, atuais, complementares, e que remetem a uma visão sistêmica da realidade. São duas áreas do conhecimento que oferecem preciosas ferramentas para a compreensão das múltiplas crises que nos assolam (econômica, social, ética, ambiental). Entendo que o livro alcança não apenas o segmento de espíritas e simpatizantes, mas a todas as pessoas interessadas naquilo que se convencionou chamar de teologia ambiental, ou seja, na capacidade de as diferentes tradições espirituais revelarem a presença do sagrado na natureza.

Allan Kardec teria sido um precursor da ecologia interior?
Não entendo dessa maneira. Mas é possível afirmar que todas as religiões ou tradições espirituais que realizam o nobre trabalho de nos tornar pessoas melhores, mais éticas e justas, promovem esse estado de equilíbrio interno que é algo muito importante também nos estudos e práticas da ecologia interior.

Onde espiritismo e ecologia dialogam?
Espíritas e ecologistas defendem a vida, o uso sustentável dos recursos naturais e uma nova ética nos padrões de consumo. Ambas as correntes de pensamento percebem o problema da poluição. Enquanto ecologistas estudam os diversos gêneros de poluentes e seus impactos sobre o meio ambiente, os espíritas percebem a poluição que geramos na psicosfera, no ambiente que nos cerca, através dos pensamentos de baixo teor vibratório. Espíritas e ecologistas também reconhecem - cada qual a seu modo - o valor das diferentes espécies que compõem a teia da vida, a biodiversidade.

Qual a visão espiritual da sustentabilidade?
Equilíbrio. Quem busca o caminho espiritual - da forma que melhor desejar - também busca esse equilíbrio. Entendo que não seja possível cultivar valores espirituais sem ser sustentável. 

A destruição ambiental, em alguns casos, vem sendo respaldada por falsos argumentos de sustentabilidade econômica. Como você vê essa questão?
Não há sustentabilidade econômica onde a destruição ambiental é o princípio do lucro, da geração de emprego e de renda. Se até o Comitê Central do Partido Comunista Chinês, no país que ostenta os mais impressionantes indicadores de crescimento do PIB no mundo, passou a considerar como prioridade o desenvolvimento sustentável - enquadrando o crescimento da economia dentro da capacidade de suporte do meio ambiente - quem teria coragem de defender um modelo que já se esgotou, que é ecocida, e que foi descrito no documento final da Rio-92 como "ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto"?  
      
Onde entra o livre-arbítrio?
Nesse momento em que experimentamos uma crise ambiental sem precedentes na história da humanidade, é importante reconhecer a nossa responsabilidade, como espécie "mais evoluída", na destruição dos recursos naturais não renováveis fundamentais à vida. Mudanças climáticas, escassez de recursos hídricos, produção monumental de lixo, destruição sistemática e veloz da biodiversidade, crescimento caótico e desordenados das cidades em que vive a maior parte da humanidade, transgenia irresponsável são problemas causados por nós, pelo estilo de vida, comportamentos e padrões de consumo. É o nosso livre-arbítrio em ação, determinando escolhas que têm pressionado a resilência (capacidade de superar tensões criadas por perturbações externas) do planeta e o conforto ambiental da espécie que se considera no "topo da cadeia evolutiva". Alguns pesquisadores preferem usar a expressão "ecocídio" para designar as condições que suportam a vida no planeta. Somos nós os predadores do ambiente que nos acolhe. Não se trata de uma fatalidade, castigo divino ou de outra razão mística qualquer. Estamos hoje sofrendo os efeitos das escolhas que fazemos no dia-a-dia. Se somos a causa dos problemas, também é verdade que as soluções precisam partir de nós. Devemos buscar as alternativas, novos conceitos de gestão, nova economia e nova ética civilizatória baseada na sustentabilidade.

Para os espíritas não existe ação sem consequência. A falta de respeito com o planeta pode incorrer em dívida espiritual?
A lei de causa e efeito, ou de ação e reação, é inexorável. Convém despertamos para a responsabilidade que nos cabe na auto-gestão, nos relacionamentos interpessoais, e no cuidado que devemos ter para com o planeta. Essa é a nossa casa, e precisamos cuidar bem dela. É assunto nosso. 

O imediatismo e o materialismo são, na sua opinião, os responsáveis pela crise da humanidade?
Esse é um assunto complexo sobre o qual eu não teria aqui espaço para discorrer com a devida profundidade. Mas se experimentamos uma crise ética-moral, onde os valores e as virtudes são por vezes menosprezados, é evidente que o imediatismo e o materialismo respondem em grande parte por essa dificuldade em estabelecer outras metas, outros prazos, outras disposições. Importante dizer que muita gente que fala de espiritualidade comete abusos. E existem materialistas que fazem a diferença em favor de um mundo melhor e mais justo. Não devemos julgar as pessoas, ou rotulá-las como usualmente fazemos. As aparências enganam.
     
O espírita, por ter conhecimento e crença em uma realidade que transcende a matéria, incorre menos em crimes ambientais?
O espiritismo é apenas uma ferramenta. O uso que se faz dela é assunto de cada um. Não basta ser espírita para incorrer em menos crimes ambientais. A disposição que move o espírita na direção do autoconhecimento, da reforma íntima, do dificílimo exercício de superação de suas imperfeições, poderá determinar uma nova postura também em relação aos assuntos ambientais.  Ser espírita no Brasil e promover a gestão inteligente e sustentável desses preciosos recursos - do ponto de vista ecológico ou moral - constitui um dos nossos grandes desafios deste início de milênio.

Qual a sua proposta para um mundo melhor?
Todos sabemos o que fazer. Creio que tudo o que há de importante sobre esse assunto já foi dito. O que falta na verdade é atitude. Precisamos ter atitude.  

Kardek e a ecologia

Por que nem sempre a Terra produz bastante para fornecer ao homem o necessário?
É que, ingrato, o homem a despreza. Ela, no entanto, é excelente mãe. Muitas vezes também acusa a natureza do que só é resultado de sua imperícia ou da sua imprevidência. A Terra produziria sempre o necessário, se com necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ele emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário.

Citação de Alan Kardec no "Livro dos Espíritos"

Publicado em: 27/10/2009



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