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Identidade. Para o jornalista e historiador Marcos Guterman, é preciso 'perceber que o brasileiro compreende suas limitações e seu poder por meio do futebol'

FOTO: arquivo ap
Identidade. Para o jornalista e historiador Marcos Guterman, é preciso 'perceber que o brasileiro compreende suas limitações e seu poder por meio do futebol'
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Livro. Em “O Futebol Explica o Brasil”, Marcos Guterman relaciona essa paixão brasileira com a nossa vida política
O esporte que é a cara do país
Ricardo Ballarine
Especial para O TEMPO

Em 1989, a seleção brasileira ganhou a Copa América após 40 anos. Naquele mesmo ano, os eleitores puderam escolher o presidente um quarto de século depois do início da ditadura. Mesmo credenciada pelo título, a seleção foi à Copa do Mundo de 1990, na Itália, insegura com o técnico Sebastião Lazaroni. Quando Fernando Collor assumiu, em 15 de março do mesmo 1990, também havia um pé atrás com o então "caçador de marajás".

O Brasil foi eliminado por um drible de Maradona e, diz a lenda portenha, uma água batizada oferecida aos jogadores brasileiros na beira do gramado durante a partida contra a Argentina. Collor nem deu chance de esperança. Sequestrou a poupança logo após a posse. Durante seu mandato de pouco mais de dois anos, enfrentou denúncias de corrupção até sofrer o impeachment.

Esse é um dos paralelos do livro "O Futebol Explica o Brasil", do jornalista e historiador Marcos Guterman. Em sua dissertação de mestrado em história, o autor tratou da relação do governo do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) com a Copa de 1970, vencida pelo Brasil, em plena ditadura militar. O livro surge como extensão daquele trabalho. "Minha pesquisa mostrou que a coisa não foi bem assim (a suposta manipulação do povo), porque a relação do futebol com os brasileiros é muito mais complexa. A partir dessa constatação, eu pensei em estudar toda a história do futebol brasileiro usando como ponto de vista seus efeitos e reflexos na vida nacional", diz Guterman, que foi editor executivo de O TEMPO em 1997 e atualmente é editor de primeira página de "O Estado de S. Paulo". O lançamento do livro ocorre segunda-feira, às 18h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping (zona oeste), em São Paulo.

Primórdios. A obra tem como ponto de partida a influência inglesa na sociedade brasileira na virada do século XIX para o XX. Simultaneamente aos investimentos em infraestrutura (ferrovias e energia, principalmente), o futebol aporta no país, iniciativa de Charles Miller.

Dos anos 1910 aos 2000, cada capítulo entrelaça a história e o desenvolvimento do futebol com fatos políticos. Termina com a conquista do pentacampeonato em 2002, na Copa do Japão e da Coreia do Sul, e a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, analisada no trecho: "A eleição de um ex-torneiro mecânico, que soube moldar-se às circunstâncias e cuja retórica estava impregnada de simbolismo sobre a real capacidade do brasileiro, representava a esperança de um novo ciclo na história do país, em que gente pobre como Cafu, Ronaldo e Rivaldo talvez tivesse outras oportunidades de ascensão social muito além do velho e bom futebol".

Bibliografia. O livro de Guterman soma-se a uma fornada de títulos que começam a explicar o futebol como elemento fundamental na cultura nacional. Obras como "A Dança dos Deuses", de Hilário Franco Júnior, e "Veneno Remédio", de José Miguel Wisnik, fogem do padrão de lançamentos sobre o esporte, antes restritos a biografias e histórias de clubes.

Para Guterman, o tricampeonato mundial é determinante na posição arredia da academia. "A visão que a intelectualidade brasileira tem da Copa de 70 ajuda a explicar um pouco essa má vontade acadêmica em relação ao futebol. Desde que se concluiu que a ditadura se aproveitou da conquista do tricampeonato para impor seus projetos ufanistas, ficou claro para uma parte do pensamento nacional que o futebol deveria ser tratado somente como ‘ópio do povo’. Só muito recentemente é que parte da academia acordou para a importância do futebol como representação plena dos ideais brasileiros".

Ao relacionar a história com o universo do futebol, o jornalista abre um novo espaço para discutir o esporte de forma emblemática, sem sisudez. "Falta à inteligência brasileira perceber que o futebol é uma autêntica manifestação de identidade nacional, perceber que o brasileiro compreende suas limitações e seu poder por meio do futebol e de suas alegorias".

Mais futebol nos livros
"A Dança dos Deuses". De Hilário Franco Júnior. Companhia das Letras, 472 págs, R$ 56,50. O historiador busca as origens do esporte para dar tratamento sociológico e antropológico ao futebol

"História do Lance!". De Mauricio Stycer. Alameda, 320 págs, R$ 46. O jornalista escreve sobre a implantação do diário esportivo e a prática do jornalismo esportivo

"Veneno Remédio". De José Miguel Wisnik. Companhia das Letras, 448 págs, R$ 41. Ensaio em que o autor cruza as ideias de intelectuais com histórias de craques

"A Bola Corre Mais que os Homens". De Roberto DaMatta. Rocco, 210 págs, R$ 27,50. Coletânea de ensaios e textos escritos durante as Copas de 94 e 98

AGENDA
O que. "O Futebol Explica o Brasil", de Marcos Guterman, editora Contexto, 272 págs, R$ 39

Publicado em: 14/11/2009





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