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Magia. Como define a própria criadora de 'Noite do Sertão', em seu livro, lançado pela CosacNaify, 'os animais aparecem do escuro, coloridos, meio furta-cor'

FOTO: reprodução
Magia. Como define a própria criadora de 'Noite do Sertão', em seu livro, lançado pela CosacNaify, 'os animais aparecem do escuro, coloridos, meio furta-cor'
Cynthia: 'dentro de casa posso ir a outros lugares pelas imagens e palavras'

FOTO: daigo oliva/divulgação
Magazine

Livro. Artista plástica paulista Cynthia Cruttenden lança segunda obra, agora inspirada no universo de Guimarães Rosa
O sertão noturno de Cynthia
Ricardo Ballarine
Especial para O TEMPO
Assim começa: "É tão forte o silêncio do sertão...". E vai terminar com uma citação de "Grande Sertões: Veredas", de João Guimarães Rosa: "Sertão: é dentro da gente". No recheio, um sertão escuro, de seres com contornos coloridos, lúdicos, em que uma poesia vai transpassando como a dar vozes aos bichos que habitam o agreste.

"Noite de Sertão", segundo livro de Cynthia Cruttenden, busca transportar a atmosfera da zona seca para o universo sonhador das crianças. "É como se simbolizasse algo que eu levo dentro de mim, uma essência que está ligada a uma poética", diz a autora, para explicar a escolha da epígrafe do livro, que tem a quarta capa assinada pelo escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Na entrevista a seguir, Cynthia, paulista, formada em artes plásticas pela USP, fala de suas inspirações, de noites no sertão e de Guimarães Rosa.

O sertão passa a sensação de ser quase monocromático e muito claro. Como foi transformá-lo em algo escuro e colorido, sob o luar?
O sertão dá essa sensação mesmo, do sol, da claridade, mas quando eu vi a foto do homem a cavalo na capa do disco "Música Popular do Nordeste", da gravadora Marcus Pereira, eu já imaginei algo noturno, talvez porque à noite há um maior mistério, um certo clima de perigo, de coisas estranhas e mágicas que possam acontecer. Em "Noite do Sertão", os animais aparecem do escuro, coloridos, meio furta-cor.

No livro, você escreve que a inspiração surgiu numa noite passada nos sertões mineiro e baiano. Como foram essas experiências?
Essas viagens sempre foram muito importantes para todo o meu trabalho artístico, são cenas, momentos, sensações que ficam guardadas e vão contribuindo para algumas ideias já existentes. Para mim, estar em certos lugares em que a natureza é tão presente dá uma vontade de ver o que acontece quando não estamos lá. Ficar à espreita esperando algum animal passar é uma forma de, pelo menos, ter a sensação de que isso está acontecendo.

As ilustrações de abertura e fechamento do livro lembram as imagens de TV quando elas saiam do ar nos anos 70/80. Fazem alusão a um episódio que pode ser um sonho, que começa e termina....
É verdade, lembram mesmo! Essa sensação de que é um sonho que começa e termina tem muito a ver. Como uma passagem. O cavaleiro entra e sai de algo meio mágico e inexplicável. Durante a sua corrida, ele pode simplesmente estar se deparando com todos aqueles animais no meio da noite, ou então, transformando-se neles, como se aí começasse um outro estado de consciência. Sempre me interessei por relatos de experiências xamânicas, principalmente indígenas. Pode ser que, para mim, essa seja uma maneira de me aproximar da natureza e de mim mesma também.

Como o sertão entrou na sua vida?
Sou uma paulista que já pensou muitas vezes em morar em outro lugar, no sertão da Bahia, na Chapada da Diamantina, por exemplo. Mas, no final, acabei não indo. Por motivos, práticos, financeiros, por inseguranças... enfim, acho que fazemos o que dá para fazer, somos meio contraditórios mesmo, pode ser que algum dia eu saia da cidade para morar em outro lugar, ou então fique aqui, mas continue a fazer minhas viagens, não sei. Só sei que, mesmo aqui, de dentro da minha casa ou de qualquer outro lugar posso ir a outros lugares através das imagens e das palavras e isso já é muito bom.

Você é leitora de Guimarães Rosa? Como chegou a ele?
Uma vez, há alguns anos, não me lembro bem como, caiu nas minhas mãos "Manuelzão e Miguilim" (reunião de novelas lançadas originalmente em "Corpo de Baile") e me emocionei muito com "Campo Geral" (uma das novelas de "Manuelzão"). Depois fui ler "Meu Tio o Iauaretê" (de "Estas Estórias"), li e reli quando estava trabalhando em "Noite do Sertão", achei que poderia me ajudar com o livro e realmente foi muito importante, me deu força. Apesar de ter lido bem pouca coisa de Guimarães Rosa, essas duas histórias me marcaram. O que me encanta no universo dele é o seu poder de transcendência.

Agenda

O QUE: "Noite de Sertão".
De Cynthia Cruttenden. CosacNaify, 32 págs, R$ 35

O Sertão de Rosa

Todos os livros lançados pela Nova Fronteira

"Estas Histórias" (284 págs, R$ 37,90)

"Grande Sertão: Veredas" (624 págs, R$ 59)

"Sagarana" (414 págs, R$ 46)

"Manuelzão e Minguilim"* (260 págs, R$ 32)

"No Urubuquaqua, No Pinhem"* (314 págs, R$ 36)

"Noites do Sertão"* (260 págs, R$ 35)

* Os títulos compõem o livro "Corpo de Baile", atualmente esgotado

Publicado em: 20/11/2009





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