Opinião » ArtigosBattisti e os anos de chumbo na Europa
Antonio Julio de Menezes Neto
Cientista social e político; professor universitário (UFMG) - antoniomenezes02@gmail.com
Como foi salientado pelo colunista Vittorio Medioli (Política, 26.11), o "regime democrático sobrevive no contraditório". Assim, queria apresentar o contraditório do caso Cesare Battisti, lembrando que a Europa conheceu, entre 1970 e 1980, os chamados "anos de chumbo". Nesses anos, em diversos países, jovens pegaram em armas sonhando implantar o socialismo. É o caso do Grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, ou das Brigadas Vermelhas, na Itália. Também existiram grupos menores, como o Proletários Armados para o Comunismo, ao qual pertenceu Cesare Battisti. Apesar do caráter político desses grupos, a Itália nunca admitiu esse conturbado período político, taxando esses ativistas de "criminosos comuns".
Na época, o Congresso italiano criou "leis de exceção" e, mesmo passados 30 anos e a Itália ter se consolidado tanto no plano político democrático quanto na economia e nas leis de proteção social, essas leis dos "anos de chumbo" ainda continuam vigorando como lembranças dos conturbados anos 70 e 80.
Assim, jovens que pegaram em armas, naquele período, para a luta política, não foram anistiados e continuaram sendo tratados como "criminosos comuns". Atitudes diferentes tiveram os países latino-americanos, que, findadas as ditaduras militares, anistiaram os envolvidos e retomaram o Estado de direito. E nos períodos de FHC e de Lula, diversas personalidades que pegaram em armas nos anos 60 e 70 assumiram postos nos governos sem nenhum trauma.
Lembro esses fatos para ver o outro lado do caso Battisti. E entrego a ele próprio sua defesa, já que escreveu uma carta ao povo brasileiro e ao presidente Lula. Battisti recebeu asilo político do governo Mitterrand sem que a Itália fizesse tanta pressão por sua extradição. Mas agora, sobre o Brasil, quer que rasguemos nossa autonomia para extraditar ou asilar.
Na carta, Battisti defendeu que muitos sonham com um mundo mais justo, mas poucos se lançam na luta e, dentre esses, alguns sacrificam a própria vida. Esse foi o caso dele e de milhares de italianos que, nos conturbados anos 70, pegaram em armas. Lembra que muitas conquistas sociais que hoje usufruem os italianos são consequência dos sonhos e do sangue dessa geração. E salienta que é fruto desses sonhos, junto, inclusive, com muitos brasileiros que aqui também lutaram e que hoje governam o país. Lembra, também, que foi condenado, na Itália, por ativismo político, que foi julgado à revelia e que não existe nenhuma prova dos delitos a que foi condenado. E termina dizendo: "Espero que o legado daqueles que tombaram no front da batalha não fique em vão. Podemos até perder uma batalha, mas tenho convicção de que a vitória nessa guerra está reservada aos que lutam pela generosa causa da justiça e da liberdade".
Esse é um caso polêmico inclusive na esquerda italiana. Mas os dois lados da história merecem ser conhecidos.
Publicado em: 07/12/2009