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O diretor Carlos Alberto Prates Correia em 1970, nas filmagens de 'Crioulo Doido', seu primeiro longa: nascido em Montes Claros, pioneiro e autor no cenário cinematográfico mineiro e brasileiro

FOTO: SERTANEJA DE CINEMA/DIVULGAÇÃO
O diretor Carlos Alberto Prates Correia em 1970, nas filmagens de 'Crioulo Doido', seu primeiro longa: nascido em Montes Claros, pioneiro e autor no cenário cinematográfico mineiro e brasileiro
Magazine

O fim do silêncio
O diretor mineiro Carlos Alberto Prates Correia fala com exclusividade ao Magazine sobre seu novo filme, "Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais", selecionado para Gramado, e sobre sua importante trajetória no cinema brasileiro
MARCELO MIRANDA

Num momento em que o cinema produzido em Minas Gerais vem ganhando destaque no circuito de grandes festivais do mundo inteiro (o mais recente representante é "Andarilho", de Cao Guimarães, selecionado para Veneza), cabe parar e pensar como essa força surgiu - ou, mais especificamente - quem teve essa força em mãos antes da geração atual. Após Humberto Mauro no começo do século, um nome desponta dos anos 70 e 80: Carlos Alberto Prates Correia, cujo novo filme, "Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais" foi selecionado para a 35ª edição do Festival de Gramado, a ser realizado entre 12 e 18 de agosto.

O filme, mescla de ficção e documentário sobre os rumos do cinema em Minas nos anos de regime militar, marca o retorno de Prates às telas 18 anos após seu último longa, "Minas Texas" (1989). Nascido em Montes Claros (norte de Minas) em 1941, Prates Correia foi o maior pioneiro de uma certa "retomada" da produção audiovisual no Estado em Belo Horizonte, a partir do final dos anos 60, especialmente com a fundação do Centro Mineiro de Cinema Experimental - o Cemice era o agrupamento de profissionais dispostos a fazer filmes.

Apesar de, em 1966, ter se mudado para o Rio de Janeiro (como tantos outros cineastas daquela época, em busca de melhores oportunidades), Prates nunca deixou de fazer um cinema essencialmente firmado na própria terra, com forte carga poética e dramatúrgica que o tornou autor genuíno dentro do cenário brasileiro. Prates Correia dirigiu seis longas-metragens e dois curtas em 40 anos de carreira. Produção relativamente pequena, mas de grande significado - do que se destaca seu filme mais conhecido e premiado, "Cabaret Mineiro" (1980), e a elogiada adaptação de Guimarães Rosa "Noites do Sertão" (1984).

Figura reclusa, alheio a entrevistas, badalações e fotografias, Prates raramente falou com a imprensa em todo esse tempo. Pois ele aceitou conversar com o Magazine (sob a condição de ser por e-mail) e, ao longo de 12 questões, falou sobre a vida pessoal e profissional, sua trajetória e visão de cinema e o que pautou cada um de seus filmes. Um papo raro e exclusivo, que revela muito do mito por trás de um dos nomes mais enigmáticos do nosso cinema e explicita visão afiada, irônica e moderna para o próprio fazer cinematográfico.

O TEMPO - Vamos começar falando de seu novo projeto, selecionado para o Festival de Gramado este ano: em que momento surgiu a vontade e a oportunidade de realizar "Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais"?
Carlos Prates Correia - Eu tinha um roteiro similar de ficção que não conseguia vencer a barreira dos editais. Ao descobrir o concurso do Ministério da Cultura para documentários, percebi que, usando algumas técnicas do gênero, de baixo custo, poderia produzir um filme sem captar mais recursos. Introduzi no projeto algumas cenas do similar, dando o ar de sua graça, e trabalhei na construção de um semidocumentário. Mas pretendo um dia retomar o original, de ficção, chamado "A Vida É Morte ou Dinheiro".

O filme é descrito como "documentário" no site de Gramado, mas pela sinopse me parece mais uma alegor i a sobre a realização audiovisual mineira em tempos difíceis (a ditadura). Como o senhor define "Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais"? Mais especificamente: como ele seria definido no cenário atual do cinema brasileiro?
Alegoria? Prefiro semidocumentário. Eu não conheço bem o cenário atual do cinema brasileiro. Depois de "Minas Texas" (1989) e do fechamento da Embrafilme (em 1990), me afastei da atividade durante mais de dez anos e, nos últimos tempos, me dediquei integralmente à produção de "Castelar..." e à reedição em DVD dos meus filmes anteriores.

A produção em Minas Gerais já teve um vigor muito particular e muito próprio. Ela quase sempre esteve afastada do eixo Rio-São Paulo, reproduzindo um pouco o isolamento do Estado em meio às montanhas. O senhor teve importância fundamental nesse processo, tanto como assistente e diretor de diversos títulos. Como era trabalhar com cinema em Minas nessa época (anos 60 a 80)?
Desculpe, mas o senhor parte de pressupostos inexatos. A produção em Minas foi sempre anêmica e quase sempre ligada ao Rio de Janeiro, pelo menos no período da ditadura enfocado por "Castelar...". Dos 14 longas-metragens mencionados no filme, apenas "Crioulo Doido" e "O Homem do Corpo Fechado" foram produzidos por empresas sediadas em Minas.

A gente nascia em Minas ou era de família mineira, se ilustrava no Estado e ia para o Rio lutar pelo dinheiro na CAIC (órgão da Guanabara), Embrafilme (órgão federal), e voltava para filmar em Montes Claros, Diamantina, ou montava um cenário mineiro em Copacabana e nos subúrbios cariocas, como fiz em "Perdida" para diminuir os custos de produção. Pois os governos de Minas, pelo menos no meu caso, nunca entraram com um centavo, e não entram até hoje.

A não ser que o senhor considere o empréstimo do BDMG para a produção de "Crioulo Doido", que paguei durante anos com juros e correção monetária. A liberdade de criação naquela época, igual em todo o país, era a arte de driblar a vigilância da censura. Quanto à autonomia... Bem, a Embrafilme não costumava se intrometer nos roteiros. A proibição ou os cortes eram feitos em Brasília, depois.

Esse momento também guarda a criação do Centro Mineiro de Cinema Experimental (Cemice), do qual o senhor foi fundador, a sua breve experiência como crítico de cinema e a parceria com outros nomes locais para tentar fazer de Minas um pólo produtor e exibidor. O senhor considera essa luta bem-sucedida? Como estaria o cenário hoje?
Começando pelo fim, minha experiência como crítico de cinema foi curta: seis meses no "Diário de Minas" em 1962. No final, levei um beiço desse Fernando Gabeira, que hoje é deputado, agindo em nome dos novos proprietários. Por ingenuidade, eu deixara acumular o pagamento de cem colunas diárias para receber no final e, abonado, passar uma temporada no Rio me familiarizando com o novo cinema brasileiro, que então engatinhava.

Quanto à parceria na constituição de um pólo, o senhor deve estar se referindo a algo que ocorreu 20 anos depois, sem a minha participação. Já a criação do Cemice, em 1965, eu acho que foi de fato o primeiro passo do cinema mineiro. Não vou repetir aqui o que está narrado em "Castelar...".

Apenas acrescentar que os curtas-metragens realizados pelo Schubert Magalhães, Neville D’Almeida, além de "O Milagre de Lourdes" (dirigido por mim) e tantos outros, surpreenderam os próprios cinemanovistas pela colocação de temas inesperados e narrativas inovadoras, no momento exato em que apareciam o Andrea Tonacci, Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, em São Paulo e no Rio, com desafios semelhantes. Só que os mineiros, sem vocação para o corporativismo, num domínio historicamente mafioso, se desagregaram e frutificaram pouco.

Publicado em: 05/08/2007


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