Opinião » EditorialO caldeirão paquistanês
A volta foi preparada com todo o cuidado, incluído um acordo com o atual presidente, intermediado pelos Estados Unidos. Mas o retorno do exílio de Benazir Bhutto, ex-primeira-ministra do Paquistão, foi manchado pelo sangue, quando seus seguidores acompanhavam seu cortejo triunfal pelas ruas de Karachi, a maior cidade do país.
Uma explosão deixou mais de cem mortos e centenas de feridos. Bhutto escapou. Ninguém reclamou a autoria do atentado, embora o discurso que vem adotando, de apoio aos EUA na guerra contra o terrorismo, irrite a Al Qaeda e o Taleban. Bhutto acusa o serviço secreto, que desde a independência controla tudo e se mete até na política.
Oficialmente, Bhutto voltou para liderar seu partido nas eleições parlamentares de janeiro próximo. Por trás das cortinas, ela teria o compromisso de ajudar o atual presidente, Pervez Musharraf, a obter um novo mandato de cinco anos. Seria a estratégia engendrada pelos norte- americanos para promover a sucessão futura de Musharraf.
O Paquistão é uma ditadura disfarçada de democracia em que a disputa política deriva frequentemente para a violência. O pai de Benazir Bhutto foi deposto do poder e executado em seguida. Ela foi duas vezes primeira-ministra, eleita pelo voto, e duas vezes deposta, sob acusação de corrupção. Livre agora, faz uma terceira tentativa.
O Ocidente acredita em seu charme para promover uma abertura política que leve a uma democracia mais qualificada. O país, no entanto, resiste à modernização - que inclui a posse de armas atômicas. A violência do atentado dá a dimensão da conspiração contra um modus vivendi civilizado. No caldeirão paquistanês, o barbarismo é que dá as cartas.
Publicado em: 22/10/2007