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 Judeus ortodoxos protestam contra a cúpula de Annapolis no muro das Lamentações FOTO: KEVIN FRAYER /ASSOCIATED PRESS - 26.11.2007 |
| Judeus ortodoxos protestam contra a cúpula de Annapolis no muro das Lamentações |
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MundoPalestinos voltam a sonhar com Estado
Reunião em Annapolis termina com promessas de concessão por parte dos israelenses, mas ceticismo ainda é forte
GLÓRIA PAIVA
Uma conferência fadada ao fracasso. Era o que se dizia sobre a cúpula de Annapolis, EUA, que, na terça-feira, reuniu líderes de 54 países e organizações para retomar um assunto deixado de lado desde 2003: o conflito palestino- israelense. Contrariando os pessimistas, o premiê de Israel, Ehud Olmert, e o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, prometeram chegar a um acordo de paz até o fim de 2008. A viabilidade prática da decisão, contudo, segue obscurecida pela divisão interna palestina e pela impopularidade de ações israelenses que precisarão ser levadas a cabo.
Sob a tutela de George W. Bush, o líder do Fatah e o premiê de Israel se comprometeram a realizar reuniões periódicas. Abbas disse ontem que a Conferência de Paz alcançou seu "objetivo" ao relançar as negociações entre israelenses e palestinos. Ele informou que um comitê será instalado na perspectiva de que as negociações comecem no próximo dia 12 e incluam os temas mais sensíveis, que são as fronteiras do futuro Estado palestino, o estatuto de Jerusalém e o destino dos refugiados palestinos. Israel, no entanto, ainda não mencionou os assentamentos de colonos na Cisjordânia e o direito de retorno de refugiados palestinos.
Motivado pelo fracasso no Iraque e pela proximidade das eleições, Bush interveio da mesma maneira que seu antecessor Bill Clinton, em seu último ano na Casa Branca. Para Danny Zahreddine, especialista em Oriente Médio da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Bush também tem pressa em lograr avanços em resposta à crescente influência iraniana na região. "Talvez seja a melhor maneira de conseguir apoio dos árabes em resistência a Teerã", especula.
Outros atores envolvidos no problema da divisão de terras que data da ocupação israelense de 1967 são os vizinhos, como Egito e Jordânia, cujas populações de refugiados palestinos são imensas. A Síria gerou especulações sobre suas intenções na cúpula - seria a devolução das colinas de Golã, tomadas por Israel na guerra dos Seis Dias? - e sua aliança com o Irã, que não foi convidado. "Não se resolve o problema palestino sem a Síria", resume Zahreddine. "Damasco é um centro político palestino no exterior", avalia.
Dificuldades
Segundo Paulo Gabriel Hilu, coordenador do núcleo de estudos sobre Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), os países árabes nunca tiveram força para intervir. "Em 2002, a Liga Árabe disse que reconheceria Israel se o problema da soberania palestina fosse resolvido. Israel respondeu com a invasão de Jenin (Cisjordânia)." Nos últimos 30 anos, a mudança de lideranças árabes dificultou a coesão entre aquelas nações, e "o apoio norte-americano a Israel anulou qualquer tipo de pressão por parte deles".
As ausências também foram significativas. O líder do Hamas, Ismail Haniyeh, que controla a Faixa de Gaza desde o golpe que levou à cisão da ANP, não foi convidado. A tomada de Gaza é o primeiro obstáculo à criação de um Estado palestino. "A fragmentação interna dos palestinos não permite conversações sobre um governo de unidade", avalia Zahreddine.
Para Zahreddine, Annapolis pretende seguir as determinações do Caminho da Estrada, mas sem considerar seu primeiro passo, que é o da pacificação. Também não se sabe, ainda, até que ponto Olmert está disposto a tomar ações impopulares, como a retirada de 250 mil colonos da Cisjordânia. "Isso seria politicamente oneroso para o premiê", observa Hilu.
Presença de outras nações serviu para dar garantias
Ademais da causa palestina e de interesses individuais de países que pleiteam uma melhor colocação no cenário de decisões internacionais – como o Brasil, que cobiça uma vaga permanente no Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU) – a presença de tantas nações convidadas a Annapolis reafirma a intenção de ampliação da influência norte-americana, fragilizada com a impopularidade de sua política externa recente.
Embora não esteja diretamente envolvido nas questões que permeiam o conflito árabe-israelense, o Brasil vem se mostrando aberto a aprofundar relações tanto com Israel quanto com nações árabes. Este ano, o país recebeu quase 200 refugiados palestinos – o que é pouco, comparado à ajuda oferecida por outros países, mas significativo. “Acompanhamos a contínua deterioração das condições de vida nos territórios ocupados. O Brasil está engajado em desenvolver projetos sociais e econômicos em benefício do povo palestino”, disse o ministro Celso Amorim, em Annapolis.
Para o especialista em Oriente Médio da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Danny Zahreddine, o respaldo de nações como o Brasil e, especialmente, de representantes árabes, é a maneira que Bush encontrou para gerar garantias aos israelenses. “A importância da quantidade de países presentes é a legitimação da promessa do rei saudita (Abdullah Bin Abdulaziz) da terra em troca de paz”, acredita. A Arábia Saudita, que não reconhece Israel, já prometeu normalizar relações com o Estado se a questão palestina for resolvida. (GP)
ARTIGO
Annapolis termina com esperança de paz
MOISÉS STORCH
Há 60 anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a Resolução 181, partilhando o Mandato da Palestina em dois Estados, um judeu e um árabe. A comunidade internacional concluiu que essa seria a melhor maneira de conciliar os anseios de dois povos pelo mesmo pequeno pedaço de terra. Entre os 33 votos favoráveis, Brasil incluído, estavam as duas superpotências emergentes. Os países árabes, em bloco, votaram contra.
A resolução propôs fronteiras entre os dois novos países que presumiam uma intensa cooperação entre judeus e árabes. Previa ainda o estabelecimento de uma “União Econômica”, cuja administração ficaria em Jerusalém, a qual seria um enclave administrado pela ONU. A liderança da comunidade judia na Palestina aceitou o plano. Os países árabes o rejeitaram em bloco. Em vez de se organizarem para estabelecer seu Estado, foram impregnados pela pregação de abortar o nascimento do Estado judeu. Com a declaração da independência de Israel, em 48, o novo país foi imediatamente atacado. Seu incipiente Exército conseguiu resistir e, após meses de combates sangrentos, repeliu a invasão e ampliou suas fronteiras.
A tragédia palestina não foi a criação de Israel, mas sim a rejeição ao Estado judeu. Cerca de 750 mil palestinos foram deslocados pela guerra para acampamentos de refugiados nos países vizinhos. Boa parte deles e seus descendentes lá vive em condições miseráveis. Até 1979, prevaleceu um absoluto e unânime repúdio à existência de Israel. O bloqueio começou a ruir com o tratado de paz do país com o Egito. Em seguida, veio a paz com a Jordânia. Os acordos de Oslo, entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) marcaram o reconhecimento mútuo dos direitos nacionais dos dois povos.
A Conferência de Annapolis, na semana passada, pretendia repetir a fórmula de partilhar a antiga Palestina entre árabes e judeus. Não apresentou propostas concretas para os principais pontos de discórdia, mas pode ser o ponto de partida para um processo decisivo. A presença de representantes de países árabes que ainda não mantêm relações com Israel – notadamente a Síria – e a aceitação da criação de um Estado Palestino pela vasta maioria dos israelenses são sinais de que a paz no Oriente Médio pode agora se realizar.
Coordenador dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA
ARTIGO
Um conflito de enorme complexidade
RICARDO GHIZI CORNIGLION
Berço das três maiores religiões monoteístas do mundo, com um passado de muitas glórias e guerras, o Oriente Médio permanece, nos dias de hoje, uma questão insolúvel. Nesta região, o conflito palestino-israelense situa-se entre os mais instáveis e influentes de todos, envolvendo diretamente não só os povos de lá, mas boa parte do mundo. A reunião de Annapolis, da semana passada, patrocinada pelos Estados Unidos, não traz novidade nesse contexto geopolítico de grande complexidade. Vale lembrar que muitos acordos fracassaram no passado em função do sangrento cotidiano da Palestina. O caso mais emblemático foi o assassinato de Ytzrak Rabin, em 1995, após a celebração do maior acordo de concessão mútua entre palestinos e israelenses. O acordo de Annapolis se insere num contexto semelhante, com personagens diferentes.
A questão palestina apresenta um quadro geopolítico de difícil solução. Não se pode falar, na verdade, de uma geopolítica palestino- israelense. São muitas. No seu aspecto geográfico, a questão das fronteiras parece não chegar a bom termo. Dentro de uma infinidade de traçados possíveis, nenhum consegue agradar às partes, em função de outras questões não menos importantes que agregam complexidade à situação. É o caso do status da cidade de Jerusalém, acirrando o viés religioso e passional do conflito. Somase a isso uma geopolítica demográfica dos colonos judeus, distribuídos irregularmente por boa parte do território, e dos refugiados palestinos, que não podem ser esquecidos. Percebe-se nesta questão, uma importante geopolítica da água, um recurso escasso numa região desértica.
Outro fator de conflitos é a geopolítica energética: recentemente, Israel cortou o fornecimento de eletricidade à Faixa de Gaza, como instrumento de pressão ao Hamas. Por fim, a questão militar: a criação de um Estado de fato daria aos palestinos a oportunidade de construir Forças Armadas que, com a ajuda de alguns países árabes, poderia se voltar contra tropas israelenses de forma ameaçadora.
Essas questões apresentam um quadro de tamanha complexidade que suscita dúvidas quanto ao sucesso de uma solução definitiva para os problemas palestino- israelenses. Esse último acordo não é exceção, carregando consigo o fantasma de ter sido assinado por fracos líderes, em meio a um turbilhão de raízes milenares.
Doutorando em geografia pela PUC Minas
Publicado em: 02/12/2007